A caravela e o foguetão: a iconicidade na arquitectura contemporânea

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: A caravela e o foguetão: a iconicidade na arquitectura contemporânea

Autora: Joana Ramalho

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa

E-mail: joana.ramalho@ics.ul.pt

Palavras-chave: arquitectura icónica

Em Dezembro de 2011 foi inaugurada a ‘igreja-caravela’, do arquitecto Troufa Real, em Lisboa. O projecto desencadeou uma vaga de contestação que se estendeu de grupos de cidadãos à igreja católica. Na origem da discórdia, a estética arrojada do edifício: o grande casco dourado que deveria cobrir a igreja, a torre sineira em forma de minarete, a casa paroquial cor-de-laranja berrante. As reacções negativas terão conseguido suavizar alguns traços: o dourado foi substituído por cobre, e a torre, por erigir devido a constrangimentos orçamentais, deverá ser uma estrutura metálica simplificada. No concelho vizinho de Oeiras, outro desenho de Troufa Real gera polémica: a nova Igreja de Cristo-Rei de Algés, baptizada de ‘igreja-foguetão’, entre epítetos pejorativos. A polémica não se limita à população, e desentendimentos entre arquitecto e paróquia levaram à suspensão dos trabalhos.

A contestação a edifícios novos surge periodicamente na opinião pública, seja nos tradicionais ou nos novos media, impulsionada por grupos de cidadãos ou figuras mediáticas. Na maioria das vezes trata-se de edifícios cuja construção avança como previsto, acabando por ser integrados – e esquecidos – na malha urbana. Mas outros, pela relação com a envolvente, pela forma que apresentam ou função que desempenham, pelo simbolismo associado, acabam por se tornar ícones da cidade. A ‘igreja-caravela’ de Troufa Real tem potencial para vir a ocupar um lugar nesta segunda categoria.

A atribuição de significado à arquitectura é uma dimensão cultural que desde sempre acompanha a humanidade. A valorização de uma qualquer construção faz-se através da conjugação entre, por um lado, a sua dimensão formal e, por outro, a diferenciação da função a que se destina. E se proporções sobredimensionadas ou soluções estéticas arrojadas permitem associar a um edifício o conceito de monumentalidade, sem o simbolismo de usos específicos não surge o ícone. Os templos religiosos que, ao homenagearem Deus(es), glorificam a criatividade do homem e marcam o seu poder territorial, ocuparam ao longo de séculos essa categoria. Também nas construções que simbolizam o poder político (palácios, assembleias, e hoje as sedes de governo) ou judicial (tribunais), ou nas ‘catedrais’ da cultura e do lazer (dos coliseus romanos aos actuais equipamentos culturais ou estádios de futebol), facilmente identificamos essa diferenciação simbólica que ‘produz’ os ícones.

Ao olharmos para as últimas décadas do século XX em Lisboa, é precisamente nessas arquitecturas que encontramos vários exemplos ilustrativos: a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, de Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, largamente controversa nos anos 1970 veio a ganhar o Prémio Valmor, também atribuído às Torres das Amoreiras erigidas nos anos 1980 segundo projecto de Tomás Taveira, e mais recentemente, o Centro Cultural de Belém, construído para acolher a presidência portuguesa da União Europeia em 1992, e inaugurado enquanto equipamento cultural no ano seguinte, polémico pela situação de destaque junto aos Jerónimos. Estes três projectos foram alvo de forte contestação, mas com o passar do tempo não só se integraram na cidade como se tornaram, cada um à sua maneira, ícones. O primeiro é uma referência incontornável na arquitectura portuguesa e foi declarado Monumento Nacional em 2006. No entanto, integrado numa das zonas mais movimentadas da cidade, passará provavelmente despercebido ao lisboeta comum. O segundo revolucionou não só a arquitectura como o comércio na cidade e continuará a marcar de forma indelével a linha do horizonte de Lisboa. O terceiro é uma referência no panorama cultural nacional e uma atracção turística, cuja arquitectura é hoje incontestada pelos lisboetas.

No virar do século, tivemos a norte nova fonte de discórdia e debate público: a Casa da Música. Pensada como projecto-bandeira da Capital Europeia da Cultura 2001 e face simbólica de um projecto de renovação urbana mais profundo, foi erigida numa das principais praças da cidade do Porto. Mais do que a localização, criticada por alguns, foi a forma audaciosa concebida pelo ‘starchitect’ holandês Rem Koolhaas que mais controvérsia gerou. Terá sido provavelmente a primeira vez que em Portugal se falou de ‘arquitectura icónica’, categoria que abrange edifícios cuja particularidade das qualidades simbólicas e estéticas os torna reconhecidos tanto pelos arquitectos como pelo grande público [1]. Trata-se de uma nova monumentalidade muito em voga nas últimas décadas do século XX, impulsionada pelas dinâmicas de competitividade e marketing territorial e pelo paradigma glocal por elas promovido.

No entanto, a crise financeira e a notícia de inúmeros projectos marcados por processos mal planeados, desregulados e politizados estão a colocar um travão na arquitectura icónica. Na Europa discute-se o fim da arquitectura icónica[2]. Se não o fim, pelo menos a sua crise é manifesta na pátria do chamado ‘efeito Bilbao’. É na vizinha Espanha, em Avilés, que encontramos o Centro Cultural Internacional Oscar Niemeyer, que se viu encerrado ao fim de seis meses. A discussão ainda não chegou a Portugal, o que não será estranho se considerarmos que também a arquitectura icónica de última geração não terá entre nós sido plenamente realizada. Mas não é por isso que devemos deixar de ecoar essa discussão, e pensar as implicações da perda de iconicidade na arquitectura.

É uma tarefa que não nos cabe abraçar aqui. Mas lancemos uma nota breve para reflexão futura. Se considerarmos que a arquitectura é reflexo do Zeitgeist, e que mais do que o tempo presente denota a visão do tempo futuro, i.e. do futuro que se almeja, poderemos questionar que sociedade é esta que não cria ícones. Todas as épocas são, como dizia Walter Benjamin, feitas dos seus sonhos. São esses sonhos que fazem as sociedades avançar, e se retiramos à arquitectura a dose de utopia, de simbolismo, de criatividade que lhe é estrutural, quando a retiraremos também aos outros campos que nos caracterizam enquanto sociedade e determinam o nosso desenvolvimento? É nos sonhos e nos ícones que se constrói a nossa identidade colectiva. E independentemente de qualquer juízo estético ou religioso, deveríamos apreciar a liberdade de desenhar e construir as ‘caravelas’ e os ‘foguetões’ deste mundo.

Notas

[1] Sklair, Leslie (2006) “Iconic architecture and capitalist globalization”, City, vol.10(1), Abr.2006 (pp.21-47).

[2] Cohn, David (2011) “The Death of the Icon”, The Architectural Review, vol.230, Nov.2011 (http://www.architectural-review.com/view/the-death-of-the-icon/8621628.article).

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