Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia
Título do artigo: Internet, famílias e escola: o equívoco da igualdade
Autora: M. Benedita Portugal e Melo
Filiação institucional: Instituto de Educação da Universidade de Lisboa
E-mail: mbmelo@ie.ul.pt
Palavras-chave: Televisão, Internet, Educação, Famílias
A centralidade que a escola tem, actualmente, na vida das famílias portuguesas e a penetração crescente das novas tecnologias no universo educativo encontram-se bem ilustradas no desabafo que recentemente ouvi da trabalhadora na caixa do supermercado enquanto aguardava a minha vez para ser atendida: “Peço desculpa, mas nem sei o que faço. Pensava que era hoje que o meu filho saberia se passava ou não de ano, mas a professora faltou. É que ele precisa da nota desta professora. Estou aqui angustiada com isto. Sabe o que lhe digo? A escola devia chamar os pais para os informar e tirar-nos logo este peso de cima…. Passam o ano a mandar-nos informações e agora não nos dizem nada? Este ano é que tem sido sofrer. O meu rapaz ainda é muito imaturo e sentiu muito a transição para o 7º ano. Não quero que lhe falte nada. Fiz o esforço de comprar um computador e instalar a internet em casa para ele poder fazer os trabalhos, passei os fins-de-semana a mandá-lo estudar, mas parece que nem assim…”.
Não foi tanto o interesse pelo percurso escolar do filho e a angústia perante a incerteza dos resultados do seu trabalho revelada por esta mãe que me chamou a atenção. Na verdade, o envolvimento crescente de todas as famílias no processo de escolarização dos seus descendentes tem vindo a ser salientado por várias pesquisas nacionais e internacionais [1][2][3][4][5][6]. No que respeita a Portugal, investigações recentes demonstram inclusivamente como estamos longe do tempo em que se considerava que os estudos se destinavam apenas aos mais afortunados pela natureza ou pelo destino; a esmagadora maioria dos pais portugueses, independentemente da origem social, deseja agora que os seus filhos frequentem um curso superior e venha a possuir um diploma [5][7].
O que mais me despertou o interesse foi a relação quase linear entre a posse de computador e internet em casa e o sucesso escolar que parece ter sido estabelecida por aquela mãe.
Consultadas as estatísticas, verifiquei que um dos principais motivos que esteve na origem da rápida e crescente generalização do uso do computador e da internet na sociedade portuguesa, foi justamente a atitude positiva dos pais em relação às novas tecnologias e estes percepcionarem-nos como um instrumento importante na educação escolar [8]. Por isso, se em 2002 somente 27% dos agregados domésticos tinham computador e 15% ligação à internet, em 2008 eram já 50% os que possuíam computadores e 46% os que detinham Internet [9].
A ideologia promovida pelo Estado Português na década de 2000, através das medidas desenvolvidas no Plano Tecnológico da Educação e nos programas e-Escola e e-Escolinha terá impulsionado bastante esta crença generalizada dos adultos na «bondade educativa» dos novos media. Sem pôr em causa a sua inegável utilidade, questiono-mo, porém, se a forte apologia sobre eles realizada não deu origem a um efeito perverso: os pais transferirem para estes meios parte do seu papel de promoção da aprendizagem escolar.
Como a sociologia da educação tem amplamente demonstrado, muitas famílias não possuem os recursos culturais mais adequados para desenvolver algumas estratégias eficazes que muito contribuem para garantir o êxito educativo dos filhos: por exemplo, escolher a escola e/ou a turma que frequentam, inscrevê-los em determinadas actividades extra-curriculares e realizar um apoio persistente e sistemático ao seu estudo. Assim, tal como “mandar os filhos estudar” não é condição suficiente para que isso efectivamente suceda, disponibilizar o computador e a internet para “poderem fazer os trabalhos” não constitui nenhuma garantia de que os jovens incorporem as representações dos adultos e percepcionem a internet como um complemento intelectualmente estimulante e indispensável para as tarefas académicas.
Na verdade, resultados de pesquisas demonstram que, para as gerações mais novas, a internet desempenha essencialmente um forte papel na estruturação dos seus tempos livres e na sustentação de novas formas de sociabilidades juvenis. Os jovens inquiridos por Almeida et al [10] valorizaram mais o papel da internet para reforçar laços de amizade e solidariedade do que a sua função educativa e informativa: enquanto 85% declararam que a internet lhes permitia sobretudo reforçar os seus laços de conhecimento, 52% afirmaram utilizar a internet para realizar trabalhos da escola. 91% das crianças inquiridas por Ponte et al [11] afirmaram que a sua principal ocupação na internet incidia na utilização do MSN Messenger.
Aparentemente alheios ao modo como a internet é percepcionada e utilizada pelas crianças e jovens, e com a melhor «boa vontade cultural», o que, afinal, cada vez mais famílias procuram reproduzir é o que vêem acontecer nas escolas: a tentativa de sedução dos estudantes para o trabalho escolar através do incentivo crescente à realização de trabalhos «de pesquisa» com o recurso à internet e da exposição de conteúdos disciplinares através de animados e coloridos “Power Points”. Aliás, nos estabelecimentos de ensino melhor equipados, os «arqueológicos» quadros negros de ardósia e giz foram já substituídos por quadros interactivos e muitos alunos dominam melhor o teclado do seu portátil do que a caligrafia manual.
Importaria saber, no entanto, em que medida é que a utilização das novas tecnologias (re)concilia os estudantes com a escola e lhes permite atribuírem um sentido (renovado) ao trabalho escolar.
Para já, o que vários estudos demonstram é que um número crescente de pais, para que “não falte nada” aos seus filhos, super-equipa os seus quartos de diversos equipamentos electrónicos, porventura julgando que isso poderá contribuir para a sua integração escolar: 60,8% das crianças e jovens portugueses dispõe de TV no quarto; 56,3% possui MP3 no quarto; 47,2% consola de jogos; 43,9% rádio; 43,5% de computador de mesa; 41,3% aparelhagem; 37% de ligação à internet; 36,1% leitor de CD/DVD e 18,4% de computador portátil [11].
Mas as mesmas pesquisas também evidenciam que o modo como o computador e a internet (e os outros media) são utilizados ainda está longe de ser socialmente uniforme, dependendo bastante dos níveis de capital cultural e económico das famílias. São, assim, as crianças cujos pais são empresários, quadros superiores ou desempenham profissões intelectuais e científicas que estão familiarizadas com a internet há mais anos eu [10] mas, em contrapartida, são os que a utilizam menos tempo por dia, quer porque têm seu tempo livre bastante mais ocupado com outras actividades (desportivas e artísticas), quer porque estão sujeitas a um maior controlo e maior número de regras por parte dos pais [10]. São também estes pais que conseguem desenvolver o tipo de apoio que traduz resultados mais positivos no trabalho escolar: ensinar os filhos a utilizar a internet, enciclopédia, o dicionário; ensinar como se estuda [5]. Portanto, e na prática, são sobretudo os alunos das classes médias os que usufruem de um acompanhamento em casa que lhes permite utilizar proveitosamente, do ponto de vista académico, as novas tecnologias.
Notas
[1] Lahire, Bernard (1997). Sucesso escolar nos meios populares: as razões do improvável. São Paulo: Editora Ática.
[2] Charlot, B. (2000) Da relação com o saber. Elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed.
[3] Montandon, Cléopâtre; Perrenoud, Philippe (2001) Entre Pais e Professores, Um Diálogo Impossível?, Oeiras: Celta Editora
[4] Thin, Daniel. (2006) Para uma análise das relações entre famílias populares e escola: confrontação entre lógicas socializadoras. Revista Brasileira de Educação, ANPED, v. 11, n.32, 211-225.
[5] Diogo, Ana Matias (2007) Pais alheados, alunos indisciplinados? In Desordem na escola: mitos e realidades. Coimbra: Quarteto, p.85-104.
[6] Diogo, Ana Matias (2008), Investimento das Famílias na Escola. Dinâmicas Familiares e Contexto Escolar Local. Oeiras, Celta Editora.
[7] Sebastião, João. (2007/2008) Família, Estratégias e Percursos Educativos In Sociologia. Série I, Vol. 17/18. 281-306
[8] Rodrigues, M. Lurdes; Mata, João Trocado da (2003) ‘A Utilização de Computador e da Internet pela População Portuguesa’. Sociologia, Problemas e Práticas 43: 161-178
[9] UMIC (Agência Para a Sociedade do Conhecimento), A Sociedade da Informação em Portugal, disponível on-line.
[10] Almeida, Ana Nunes (coord.) (2008) Crianças e Internet: Usos e Representações, A família e a Escola. Relatório do Inquérito (policopiado).
[11] Ponte, Cristina and Malho, Maria João (2008) ‘Crianças e Jovens’, pp. 121-202 in J. Rebelo (Org) Públicos de Comunicação Social em Portugal. Lisboa: Entidade Reguladora da Comunicação.




