Tempo, consumo e crise: três peças da ágora do presente

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: Tempo, consumo e crise: três peças da ágora do presente

Autora: Emília Rodrigues Araújo

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho

E-mail: era@ics.uminho.pt.

Palavras-chave: Tempo, Consumo, Crise.

Dinheiro. Dívida. Euros. Milhões. Poupança. Consumo. Precisar de comer. Precisar de ser. Precisar de parecer. Os outros. As outras. O bonito. Ideal. Uso. Não uso. Luxo. Necessidade. Quero. Não quero. Dos outros. A minha. Agora. Amanhã. Quanto dinheiro para quanto tempo. Quanto tempo de contrato. O tempo passa devagar. A obsessão, a necessidade do consumo. O meu corpo agora no item da moda. Amanhã, o meu corpo não o poderá usar. Continuaríamos a linguagem pontuada de palavras curtas que compõem a ágora dos tempos que vivemos. Tempos em que o tempo que temos e usamos é da nossa única e inteira responsabilidade, como civilização. Neste texto pretende-se falar, ainda que de forma muito geral, de três elementos da experiência social do presente que colocam o tempo no coração da análise do quotidiano: i) a crise e a ilusão da metáfora da distância; ii) o consumo como elemento da crise e ato temporal; e iii) as regras dos usos e percepções do tempo como dispositivos interiorizados de normalização e conformação.

1. A distância é uma das referências mais usada para expressar os raciocínios e as ações económicas, designadamente em períodos de crise. Mas, na realidade, é o tempo – de vida, de trabalho, de lazer, medido, contável, calendarizável – que está a ser objecto de “mitigação”: entre ser remédio e ser cancro.

Utiliza-se, com frequência, a figura da distância física e, portanto, do espaço, para definir os “pontos em que se encontram” as economias; as famílias; os indivíduos, os países. Também é utilizada para definir as “metas” a atingir; os “ajustamentos” a verificar. É útil, igualmente, para avaliar a “distância” entre um e outro país; o “desnível” entre sociedades, a “distância” entre as famílias e os cidadãos e as políticas e/ou possibilidades dos programas e dos governos, as distâncias entre classes e grupos sociais.

Esta metáfora da distância física é, de facto, poderosa na formulação da experiência quotidiana no mundo. De certa forma, securiza os indivíduos num espaço, ao mesmo tempo que os responsabiliza pela ação mais adequada, de modo a “percorrer um caminho” e “chegar à meta”. Mas ela é, em si mesma, insustentável porque não é nem de espaço físico ou de distância física que se fala, mas sim, de distância temporal que implica antecipação, ansiedade, atraso, precocidade, avanço, aceleração, espera, paragem, expectativa e recuo. Fala-se é de experiência subjectiva do tempo: da necessidade do tempo passar rápido, para pagar menos, para gerir as despesas; da necessidade de diluir e mitigar as despesas no tempo. Em simultâneo, fala-se é da necessidade (desejo) de parar o tempo, de desacelerá-lo, fazer esperar eventos que implicam mais gastos, as festas, as comemorações, as celebrações. Também da necessidade de criar novos discursos justificativos para os consumos “fora de prazo”, para os “adultos jovens”, para o regresso à terra, para o “faça você mesmo”. Em resumo, a imagem da crise que percorre hoje o quotidiano da sociedade portuguesa é da ordem da representação da “passagem do tempo”. Um tempo vendaval, que se apresenta como “acelerado”, que “arrasta” consigo os sujeitos, as coisas, as possibilidades. Um tempo que normalmente aparece ditado por entidades, no mínimo, desconhecidas e vagas: “os mercados”; os “do centro”; a globalização. Um tempo-actor que é mega, macro e micro e que à, sua passagem, leva consigo uns e a outros segrega-os para desistirem ou sucumbirem. Mas também um tempo gerido, objecto de controlo, ainda que implícito e “mitigado”. Nesta temporalidade ainda sustentada pela ideia da possibilidade de acumulação e progresso infinito, destaque-se o facto de o futuro aparecer no espaço público e privado como algo ” hipotecado” e “ descontinuado”, “sem expectativas”.

2. Sobressai dessa temporalidade a relação que ela estabelece com o ponto G da experiência e da crise do tempo presente: lidar com a privação do consumo. Privação que destila em permanência a necessidade de acelerar e “enganar” o tempo, de modo a “esticar” o recurso que lhe equivale: a moeda, o dinheiro. Definido como produtor de mais-valia em todos os processos económicos, o tempo tem um significado enorme na análise da experiência social e sob diversas vertentes. Desde logo, o consumo, ato de aquisição – de produtos, serviços, ideias, lugares, tempos – é um acto iminentemente temporal na própria tomada de decisão. A arquitectura da representação e da experiência do consumo como ato temporal (que tem efeitos sobre o futuro do indivíduo e sobre a sua capacidade de estabilização) é um produto cultural (da época, do valor das coisas e do dinheiro..) e um produto social. Depende do modo como os grupos sociais e as classes percebem o tempo (e não a distância) e se predispõem a agir sobre ele: mais pessimistas e fatalistas ou mais optimistas e confiantes. Depende do modo como o tempo serve os interstícios do consumo: o tempo é central na estratégia persuasiva da venda e da publicidade (e da política). A sociedade de consumo (de toda a espécie, dos objectos, dos géneros alimentícios ás novelas) opera, fundamentalmente, dentro de esquemas libidinais. Isto é, apela, desperta e activa impulsos que precisam de tempo e vingam no (e pelo) ritmo. A gestão das gotas de tempo é crucial na definição da originalidade, da atratividade e, mesmo, da “necessidade” por parte do consumidor: quando a mensagem “passa”, ela “dura” o tempo suficiente para penetrar as percepções e emoções dos indivíduos, de modo a conduzi-los ao ato de compra. Quando as palavras se dizem, elas ajustam-se numa sequência temporal precisa escorregando de sensualidade ou explodindo num foco preciso, com a ajuda preciosa da música, por si mesma, ritmo (temporal).

3. No fundo, o tempo e o ritmo estão no coração da construção cultural do presente e, de forma implícita, como estrutura normalizadora e normalizada. A privação do consumo é a privação dos espaços – das catedrais de consumo – e das suas formas atrativas e sofisticadas de “fazer por si mesmo” onde o escolher e o ter tempo para decidir definem o papel normalizador do tempo e, em simultâneo, a forma como os consumidores contribuem como seu tempo para própria engrenagem de extração de mais-valia e de mitigação. Espaços onde o tempo é camuflado e vale pelo valor monetário que lhe equivale. Espaços onde a duração e as esperas se encontram encobertas nas tarefas que docilmente e como consumidores, os próprios indivíduos concretizam: a espera para pagamento na fila; a realização integral do pagamento dispondo os bens dos carrinhos para os sacos e passando os produtos pelas máquinas requintadamente consideradas self-service e dispostas nos mais variados locais, incluindo as auto-estradas e as habitações. O consumidor “responsável” paga verdadeiramente partes do serviço que ele próprio consome em tempo, o seu tempo de trabalho ou de lazer: “Paguem-nos o tempo, devolvam-nos o tempo”, bem pode ser um mote para uma das ágoras do presente.

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