Da matéria ou O ofício da química segundo o escritor Primo Levi

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: Da matéria ou O ofício da química segundo o escritor Primo Levi

Autora: Teresa Duarte Martinho

Filiação institucional: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

E-mail: teresa.martinho@ics.ul.pt

Palavras-chave: matéria, química, biografia, ofício, metáfora, literatura.

O relançamento em Portugal, em Maio de 2012, de O sistema periódico, de Primo Levi (1919-1987), pela editora Teorema [1], constitui ocasião para uma chamada de atenção para esta obra. Por várias razões, a começar por se tratar de um relato autobiográfico daquele químico e escritor, onde o ofício da química é largamente abordado, surgindo na retrospectiva diversas personagens, episódios e cenários que acompanharam Levi nessa área. É um retrato humano, que dá ainda que pensar sobre o lugar do saber na vida dos indivíduos e as gradações da relação que vão mantendo com os objectos de trabalho.

Il sistema periodico foi publicado pela primeira vez em 1975, pela editora Einaudi, em Turim, onde o autor nasceu e passou a maior parte da sua existência. Nessa época, Primo Levi tinha já lançado outros títulos em que a biografia surgia, de maneira explícita, a alimentar o trabalho literário – é o caso de Se questo è un uomo (1947) e La tregua (1963). Pela presença central da química em Il sistema periodico, a obra foi eleita pela Royal Institution of Great Britian como ‘o melhor livro de ciência de sempre’, em 2006. Os menos contentes com tal preferência – entre outros candidatos, figurava The selfish gene (1976), de Richard Dawkins – argumentaram que a peça de Levi não merecia ser a eleita por se tratar mais de um livro sobre ciência do que um livro de ciência. Eleições à parte, há uma outra categoria que O sistema periódico habita de modo pleno: é um dos livros que melhor revelam como um forte interesse de juventude, e que há de tornar-se ofício e profissão, connosco permanece e é praticado em diferentes tempos da vida.

O conhecimento da matéria e o estudo da química constitui o interesse principal que anima os 21 capítulos do relato autobiográfico de Primo Levi. O engenho deste amante e praticante da metáfora consistiu em escolher, pelas ressonâncias das suas propriedades, alguns elementos do instrumento Tabela do Sistema Periódico de Mendeleev, tão familiar aos estudiosos de química, para contar “a história de um ofício e das suas derrotas, vitórias e infelicidades” (p.283). E assim como os lugares visitados na juventude dizem coisas diferentes a cada um, também os elementos daquela Tabela suscitam em cada químico correspondências específicas. A começar pelo gás Árgon, que dá título ao primeiro capítulo, cuja inércia e raridade levou Levi a aproximá-lo dos seus antepassados, judeus instalados na Itália, no Piemonte, e em cujos actos descortinou, como traço comum, “qualquer coisa de estático, uma postura majestosa de abstenção, de submissão voluntária” (p.12). Árgon contém uma infância revisitada e algumas figuras mais destacadas (tios, avós, o pai), incluindo o muito jovem Primo, já destilando ambientes, parentes e até palavras, como aquelas que os da sua linhagem inventaram para não serem entendidas e serviam ainda para “aliviar o coração sem esfolar a boca” (p. 20).

Do adolescente convicto de que será químico até ao químico gerente de uma fábrica de tintas – área em que Primo Levi se especializou, de 1947 a1977 –, permanece uma pessoa com a mesma fixação no deslindar e no defrontar da matéria, mas a quem o tempo foi dando outros conhecimentos enquanto profissional da sua transformação. Do impulso e do ímpeto para descobrir, passa-se para uma atenção dedicada e vigilante, sabedora de que a matéria e a química contêm, também elas, “mistérios fúteis”. Aos dezasseis anos, recorda-se Levi, tudo à volta era mistério por desvendar – da “madeira vetusta dos bancos (…) [ao] voo inútil das melgas no ar de Junho” – e o feito mais desejado por ele e pelos amigos aspirantes a químicos era algo equivalente a conseguir agarrar Proteu pelos colarinhos e obrigá-lo a falar (p.35). Aos cinquenta e seis, quando publicou O sistema periódico, há muito que percebera que a matéria tinha uma “passividade taciturna (…), [era] portentosamente rica em armadilhas, solene e delicada como a Esfinge” (p.55). A matéria e as suas, por vezes, muito pequenas diferenças, mas que podem conduzir a “consequências radicalmente diferentes, como as agulhas das linhas férreas” (p.82); o trabalho do químico consistia, em grande parte, segundo Levi, em dar atenção a essas nuances, conhecê-las de muito perto, para prever os efeitos da falsa semelhança.

O saber não ocupa lugar, diz um dito popular. O saber não ocupa lugar? Se bem que o autor não formule tal questionamento, a ambígua valorização do conhecimento que este dito transporta é testada no capítulo intitulado Cério, em que Primo Levi dá por si como um “exemplar humano”, um número numa série discriminada. Em Auschwitz, onde foi prisioneiro entre Fevereiro de 1944 e Janeiro de 1945, este judeu para quem a origem fora, na infância e na juventude, “uma pequena anomalia alegre” (p.51), perceberá, entre outras descobertas, que o saber pode ocupar o lugar da sobrevivência. A morte era a vizinha mais incansável e a hipótese de libertação (“os Russos”) vivia a menos de cem quilómetros. Por ter conhecimentos de química – licenciara-se em 1941 e fora já contratado para alguns trabalhos como químico – Primo conseguiu ser assistente no laboratório do campo. E como comer constituía, nesses dias, o “estímulo número um”, ele dedicou-se a desviar, transformar e reproduzir a matéria que pode.

Não por acaso, Primo Levi diz ter tido nessa época o “primeiro sonho literário”: contar a história de um átomo de carbono, elemento da vida. E é o relato da travessia desta personagem que encerra O sistema periódico. A sua viagem parte de um banco calcário e compõe-se de múltiplos encontros e atrações, ligações quebradas, novas integrações, moradas mais ou menos fugazes. Convém acrescentar que Primo Levi é autor – a par de relatos ancorados na sua experiência de prisioneiro e sobrevivente a um campo de morte, e que têm vindo a ser publicados também pela editora de O sistema periódico [2] – de uma importante série de contos, de que A tranquil star (2007), na versão inglesa, é amostra. São momentos de entendimento e imaginação materializados em ficção, onde paira o desconcerto. E se esta for a próxima escolha da Teorema para continuar a divulgar o autor em Portugal, é tempo de abandonar o vermelho com que costuma gravar o nome Primo Levi. Mesmo as feridas têm mais do que uma cor.

Notas

[1] A editora Gradiva foi a primeira, em Portugal, a apresentar ao público este livro, em 1988. A tradução é assinada, em ambas as versões, por Maria do Rosário Pedreira.

[2] Se Isto é um Homem; A Trégua; Os que Sucumbem e Os que se Salvam.

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