O Povo visto pela sociologia da instabilidade

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: O Povo visto pela sociologia da instabilidade

Autor: António Pedro Dores

Filiação institucional: ISCTE-IUL

E-mail: antonio.dores@iscte.pt ; http://iscte.pt/~apad/novosite2007

Palavras-chave: povo, manifestação, sociedade, política, instabilidade.

As manifestações de 15 de Setembro de 2012 foram uma aparição do povo português, comparável ao 1º de Maio de 1974 ou ao movimento que, lançado pela rádio TSF, originou o apoio nacional à independência de Timor Leste.

Os sociólogos chamados a explicar o fenómeno terão de reconhecer não haver teoria social para o tentar. Há uma teoria dos movimentos sociais, que não se aplica a fenómenos tão fugazes e inorgânicos. A ciência política demarca-se radicalmente da compreensão de tais fenómenos. No próprio momento da manifestação, os comentadores políticos – os jornalistas principais e os dirigentes partidários – inventaram que o problema fora a TSU, quando na verdade, na manifestação, se gritou “gatunos”. Trata-se do mesmo embuste do costume: em vez de se tratar politicamente os crimes feitos por políticos em exercício, enquanto grupo organizado que domina as instituições, reclamam-se processos judiciais para cada um dos crimes que cada político tenha eventualmente cometido, para que tudo possa continuar a ser roubado enquanto duram os julgamentos, entretanto pagos com uma parte do resultado do saque. “Onde estão as provas?” perguntam eles por sistema. Contando com a conivência do sistema, não apenas a eventual promiscuidade entre o sistema político e o sistema judicial (que não impede arrufos) mas também do abuso da divisão de trabalho inter institucional que tem vindo a criminalizar e judicializar os costumes, desde as drogas (com mão pesada) até à corrupção (com mão leve e muitas prescrições), impedindo na prática o funcionamento legítimo do sistema judicial e, na prática, colocando-o em crise, na medida em que fica assoberbado de trabalho e incapaz de fazer justiça.

A justiça torna-se cada vez mais, como tudo em que o neo-liberalismo toca, num centro de negócios competitivo, isto é corrupto.

Os sociólogos, remetidos pelas classificações dos media, para explicar o social, aquilo que – do ponto de vista deles – não é político, têm-se deixado acantonar nessa posição politicamente subalterna em termos epistemológicos e públicos. Pouco interessa o que diga o sociólogo, em concorrência com as fontes policiais, para explicar o que tenha passado pela cabeça desgrenhada dos manifestantes, (cf. este exemplo eloquente http://www.rtp.pt/play/p79/e92702/especial-informacao). As questões sérias, como insistentemente disseram os comentadores e jornalistas de serviço, são os temperamentos dos lideres partidários e respectivas telenovelas casamenteiras ou de divórcio.

Não se deduza destas linhas a inocência da teoria social neste posicionamento redutor do social a capacho do político (e do económico). Pelo contrário, a teoria social não se preocupa em definir o seu próprio objecto de estudo: o povo. Chama-lhe sociedade mas na condição de estar inerte, de ser uma colecção de indivíduos. Tem de poder ficar bem na fotografia, no geralmente inquérito por questionário. Se o povo se levanta a teoria social, como qualquer fotógrafo de cerimoniais, zanga-se e pede às pessoas para estarem quietas. Caso não seja possível, remetem o assunto para as enfermidades, as irracionalidades, estudadas pela psicologia de massas.

Na perspectiva da sociologia da instabilidade http://iscte.pt/~apad/novosite2007/livros.html#INSTAB, o povo português é tanto aquele que se expressou na rua, contra e à margem das instituições, como aquele que vota maioritariamente nos partidos do arco do poder, para que organizem os pagamentos alegadamente devidos ao estrangeiro e aos nossos parceiros europeus. Como qualquer pessoa, o povo zanga-se. O facto de se zangar todo praticamente inteiro ao mesmo tempo, é um a reacção a males institucionais profundos. Claro. Mas do ponto de vista do conceito, não há que fazer da contradição entre o povo em estado de submissão e o povo em estado de proibir (a acção do governo) um problema de incoerência popular. Pelo contrário: o facto da teoria social estar incapaz de descrever um tal fenómeno apenas significa que a teoria social é especialista em fotografia e se recusa a reconhecer a sétima arte.

De acordo com a teoria dos estados de espírito, no que toca a questões de poder, cada entidade social, seja ela uma pessoa, um grupo, uma instituição ou um povo, portanto qualquer sociedade admite praticamente ao mesmo tempo vários estados de espírito (aprendidos em geral separadamente), sendo que alguns deles ou uma mistura específica deles acabam por ser preponderantes à vez, em cada tempo. Se é assim, o povo português resistiu na postura de submissão até ao 15 de Setembro de 2012, cobrindo e reforçando – independentemente do mérito da governação – seja o que for que o Estado entendesse prosseguir. A vontade de proibir o caminho seguido já tinha sido manifestada de várias formas. As práticas marginais também começaram a expressar-se num quadro popular. O governo utiliza isso para organizar a repressão, como se fosse possível expurgar ou exorcizar tal estado de espírito. Naquele dia 15 de Setembro, porém, o povo disse “Basta!”, todo inteiro, incluindo os marginais e os submissos. Adoptou, portanto, uma postura de proibir o Estado de continuar a roubar o povo (“gatunos!”) e de destruição da identidade nacional (cantou-se o hino e gritou-se Portugal, Portugal, como no futebol).

Ainda de acordo com essa teoria, http://iscte.pt/~apad/estesp/trilogia.htm, ao povo resta ainda a possibilidade de, caso não se sinta satisfeito com esta mistura em transição de um espírito de submissão para um espírito de proibir, adoptar um espírito marginal. Que é, verdadeiramente, o espírito épico da modernidade. Por isso a modernidade valoriza tanto a juventude, a irreverência, a falta de memória, a violência como valor positivo (sobretudo quando é atirada contra terceiros).

Os conservadores, claro, com toda a razão, quais velhos do Restelo, chamam a atenção dos riscos de o povo vir a adoptar uma postura marginal. O poder cai na rua, a propriedade, a estabilidade, a tranquilidade, são substituídas pela instabilidade visceral, original, como quando pequenos grupos de humanos lutavam pela sobrevivência. Que há de épico nisso é a entrega aos elementos. O povo, claro, sabedor disso mesmo, só entrará por aí quando a sua vida (por fome ou risco de perda de identidade) esteja em grave risco.

O povo já percebeu que está a ser conduzido por gente que lhe é estranha. Mas espera para ver se o caminho do abismo, que tantos já viram e anunciam faz tanto tempo (há sempre profetas da desgraça), terá ou não um arrepio. Caso venha a entender não haver arrepio, caso a sua soberania não venha a ser respeitada, a atitude do povo certamente mudará. O que não significa que não possa ser controlada (por exemplo, através de intervenções repressivas ou bélicas). Preferivelmente pela demissão colectiva da classe política, se é que ainda se regem por princípios democráticos.

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