Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida
Título do artigo: Breves considerações sobre o interesse da recomposição familiar
Autora: Cristina Cunha
Filiação institucional: Socióloga e investigadora (Instituto de Sociologia: Faculdade de Letras da Universidade do Porto)
E-mail: cristinacunha.m@gmail.com
Palavras-chave: família recomposta, crianças e jovens, adaptação
O século passado foi, sem dúvida, o cenário onde ocorreram as principais transformações nos domínios sociocultural, económico e político que marcaram a era da modernidade possibilitando um renovar da sociologia da família sobre a análise das formas e do funcionamento familiares afetados por novas dinâmicas sociais. Enquanto os trabalhos científicos do século XIX procuravam conhecer a origem da família, atualmente, a preocupação é saber para onde vai a família contemporânea. Foram inúmeros os sociólogos que definiram uma diversidade de tipologias atendendo às dinâmicas familiares mas sempre por referência a um quadro ideológico inscrito na família nuclear conjugal [1].
Toda a panóplia de estudos, que teve os seus primeiros passos nos E.U.A, na década de 60, prosseguido até a atualidade, ilustra a necessidade de se conhecer melhor as incertezas que envolvem as famílias recompostas que, mesmo sem serem assim conhecidas, sempre existiram em diferentes épocas e sociedades em número mais reduzido [2]. O estudo das questões estruturais e processuais no seio das novas formas de famílias assume uma importância progressiva e assinalável, sobretudo se esse mesmo estudo contribuir para compreender as implicações dos novos desafios colocados às famílias atuais no desenvolvimento dos seus filhos. No revisitar das principais pesquisas americanas e europeias em torno da família recomposta, esta é reconhecida como sendo um tipo de família difundida nos mais diversos segmentos sociais e por ser em termos estruturais e processuais, um modelo diferente do dito tradicional ou nuclear.
Convém esclarecer que a designação de família recomposta remete-nos para a existência de um casal (casado ou em coabitação), tendo à sua guarda um ou mais filho(s) resultante de uma união anterior. Em termos estruturais, o modelo em causa pode assumir duas modalidades sendo uma conhecida pela família recomposta simples que é composta por um casal que tem à sua guarda pelo menos um(a) filho(a) de uma união anterior de um dos cônjuges e a outra modalidade refere-se à família recomposta complexa em que ambos os cônjuges têm à sua guarda o(s) filho(s) de uma união anterior. Quer numa quer noutra, o nascimento de uma criança do casal recomposto traduzirá por sua vez um alargamento da(s) fratria(s). Assim, os filhos constituem a principal referência para classificar e analisar as famílias recompostas e estas, constituem “constelações familiares”, isto é, uma rede alargada de pessoas ligadas entre si por outras modalidades de parentesco [3] a que Furstenberg designou de “nouvelle famille élargie”[4].
Em finais do século XX, efetuaram-se diversos estudos em torno da recomposição familiar oriundos de dois grandes domínios científicos: o domínio da Psicologia e o domínio da Sociologia. No primeiro caso, encontramos, fundamentalmente na literatura norte-americana, o interesse pelos efeitos da recomposição nos membros que ela envolve [5]. Neste domínio, é frequente o recurso ao modelo comparativo sobretudo com famílias nucleares. No segundo caso, existe o interesse da sociologia, em particular, na literatura francesa, em que as pesquisas incidem sobretudo na especificidade dessas famílias, centrada nas trajetórias familiares [6]. Destes dois campos científicos, é, sobretudo, o da psicologia, que mais se tem dedicado ao estudo da adaptação dos membros à recomposição familiar assim como o lugar ocupado pelos padrastos e pelas madrastas no seio da família. O mapeamento de estudos sobre a adaptação das crianças e dos jovens divulga, por um lado, pistas interessantes sobre as mudanças dos padrões de funcionamento entre os membros da recomposição familiar e, por outro lado, uma larga contradição nos seus resultados em particular no campo dos estudos comparativos segundo as diferentes estruturas familiares.
Uma reflexão sobre esta configuração familiar exige que se faça recurso a um corpus constituído de trabalhos empíricos do casamento entre a sociologia e a psicologia que apesar das diferenças nas suas abordagens, proporciona elementos relevantes no conhecimento deste modelo familiar. Se os sociólogos nos oferecem material sobre o como e o porquê da sua existência e integração no contexto social, os psicólogos contribuem na construção de conhecimento sobre os mecanismos internos deste tipo de família e dos seus atores sociais.
Notas
[1] Bawin-Legros, B (1988), Familles, Mariage, divorce, une sociologie des comportements Familiaux contemporains, Lièges, Bruxelles, Éditeur Pierre Mardaga.
[2] Dortier, J. F. (2002) Familles; Permanence et Métamorphoses. Auxure, Éditions Sciences Humaines
[3] Théry, I. (1998), Couple, Filiation et Paranté Aujourd’hui: Le droit face aux mutations de la famille et de la vie privée, Paris, Éditions Odile Jacob.
[4] Cadolle, S. (2000), Être Parent, Être Beau-Parent: La Recomposition de la Famille, Paris, Éditions Odile Jacob.
[5] Ihinger-Tallman, M. e Pasley, K. (1997), “Stepfamilies in 1984 and Today: a scholarly perspective”, in Irene Levin e Marvin B. Susseman, Stepfamilies: History, Research and Policy, New York, The Haworth Press, Inc., pp. 19-40.
[6] Lobo, C. (2006), Recomposições Familiares: Dinâmicas de um processo de transição, Lisboa, Tese de Doutoramento em Sociologia, Lisboa, ISCTE.





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