Os jovens à procura de uma “outra” sociedade. Olhando para Marrocos

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Os jovens à procura de uma “outra” sociedade. Olhando para Marrocos

Autor: Albino Cunha

Filiação institucional: Docente no Instituto Superior de Ciências Socais e Políticas/ Universidade Técnica de Lisboa e Investigador no Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais/Universidade Aberta

E-mail: acunha@iscsp.utl.pt

Palavras-chave: Jovens, Portugal, Magrebe, Interculturalidade mediterrânica

A profundidade das atuais mudanças políticas e sociais no mundo árabe, nomeadamente nas sociedades magrebinas, está na juventude da sua população. Atualmente, os jovens com menos de 30 anos constituem mais de 60% da população. O seu desenraizamento, a desterritorialização e a descomunitarização, o fracasso dos projetos de desenvolvimento ao longo destes últimos 50 anos de pós-independência, e o consequente crescendo de insatisfação das populações perante a incapacidade e indiferença do antigo sistema político autoritário acabaram por criar as condições para que esta juventude, apoiando-se nos meios tecnológicos de comunicação e de informação como a Internet e as suas redes sociais, desenvolvesse um movimento generalizado de contestação popular contra o statu quo político-económico [1].

Quando olhamos concretamente para uma destas sociedades do mundo árabe e magrebino, como é o caso da sociedade marroquina, é interessante verificar como aquelas mudanças se foram fazendo ao longo do tempo, passando “despercebidas” para grande parte da Europa, e consubstanciadas num setor da sociedade que mostrou mais uma vez ser um elemento catalisador das mudanças quando elas são imperativas, mesmo que fiquem momentos de “instáveis” incertezas em períodos de transformações e transições políticas e socioculturais.

A sociedade marroquina é uma sociedade fortemente marcada pela cultura islâmica. Mas os jovens marroquinos (como aliás, de uma forma geral, os jovens magrebinos) sempre se encontraram numa encruzilhada de valores ocidentais dominantes, de raízes identitárias preponderantes e de uma globalização sem dó. Nesta medida, para os jovens marroquinos, a educação constituiu-se sempre como um direito e um fator de desenvolvimento que acaba por condicionar os outros domínios [2]. Acreditando na capacidade da sociedade marroquina em assumir a relação educação/religião/modernidade, os jovens marroquinos deparam-se, contudo, com um grave problema: as desigualdades sociais e económicas e as frustrações dos projetos de vida.

De facto, face ao sistema de ensino [3] o jovem (seja de que país for) tem uma trajetória pessoal: é formado, examinado, avaliado enquanto sujeito no seu todo, devendo procurar um lugar na sociedade, em função de uma hierarquia baseada no mérito. Contudo, quando meio século de investimento no sistema escolar traduz-se em importantes frustrações, com um desfasamento entre as esperanças que conduziram as famílias a confiar os seus jovens à escola e os resultados negativos das políticas educativas, os jovens que se integram mal – muitos – vêem-se perante três opções: emigrar, a revolta contra um sistema que não cumpre as suas promessas, o investimento em certas atividades mais extremistas que se apresentam um tanto dúbias na promoção da liberdade individual.

Se, em Marrocos, o Movimento do 20 de fevereiro «Movimento pela Dignidade» não assumiu os contornos de rutura como o Movimento de Revolução Tunisina (14 de janeiro de 2011), podemos dizer que, no posicionamento dos jovens marroquinos face ao sistema político-social instalado, fica a assunção de uma postura mais política e cívica interventiva [4].

Ao mesmo tempo, na atual situação político-social marroquina, ainda que na procura de um respeito pelas regras democráticas em virtude da grande popularidade do Rei Mohammad VI e da sua tática de aproximação com o Islão político e de reformas sociais por todo o país, assistiu-se em novembro de 2011 à vitória dos islamistas moderados do Partido da Justiça e Desenvolvimento (PJD). Uma vitória que acaba por mostrar uma perspetiva bidirecional transversal a todo o mundo árabe: por um lado, um processo de ideologização e de instrumentalização da religião e, por outro lado, a secularização do Islão, ou seja, a emergência de um Islão do progresso que concilie o espírito democrático e laico com a ética religiosa. São valores e exigências da modernidade imposta pela evolução da sociedade aos quais uns defendem que a ética corânica não se compatibiliza na sua essência com aqueles, outros assumem o desafio de que a ética corânica, preservando a sua personalidade, encontra-se imbuída de princípios dinâmicos para a evolução e para a mudança.

É neste encalço que se evidencia a importância de acompanhar os jovens nas suas expectativas de vida pessoal e profissional. O desafio, que é dos jovens de todo o mundo, aqui particularmente dos jovens da Europa e do Magrebe (de Portugal e de Marrocos) – porque somos vizinhos e porque existe uma memória comum histórico-cultural, muito esquecida ou subestimada –, é responder às exigências da globalização em contexto pluralista [5]. Isso implica, por um lado, conhecer para melhor reconhecer e aceitar «o outro» naquilo que o diferencie e naquilo que o une, e, por outro lado, exercer uma reflexão crítica e adquirir um sentido cívico na afirmação identitária para uma relação de colaboração respeitadora do outrem [6]. Isso passa nomeadamente pelo papel da escola, revendo os manuais escolares históricos, que deve corrigir todos os preconceitos, para evitar a desnaturação e a amálgama promovendo uma cultura do diálogo e da reconciliação.

Para as relações entre Portugal e Marrocos (e o Magrebe), o interesse numa educação que promove a interculturalidade na escola traduzir-se-á num salto qualitativo da cooperação Luso-Marroquina (Luso-Magrebina) para melhorar as práticas dos intercâmbios político-económicos e socioculturais. Perspetiva-se o reforço da dimensão da competência além da dimensão do conhecimento e procura-se inverter a tendência de uma educação percebida como uma simples ferramenta ao serviço dos interesses estreitos do mercado. Vertente importante da cooperação, estes interesses são manifestamente insuficientes para uma cooperação mutuamente enriquecedora quer do ponto de vista económico e comercial quer do ponto de vista político e cultural.

Notas

[1]. BENNANI-CHRAÏBI, M. e FARAG, I. (Dir.). (2007). Jeunesses des sociétés arabes. Par-delà les menaces et les promesses, Paris: Editions Aux Lieux d’Être.

[2]. GUIGOU, J. L. (2004) “L’éducation, clef de la modernisation in Afkar/Idées, Num. 4, automne 2004, pp. 84-88.

[3]. DELORS, J. (Coord.) (1996). Educação, um tesouro a descobrir: Relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre a Educação para o século XXI, Porto: Edições ASA.

[4]. PLENEL, E. e STORA, B. (2011). Le 89 Arabe. Réflexions sur les révolutions en cours. Paris: Editions Stock, coll. “Un ordre d’idées”.

[5]. CARRILHO, F. J. (2004). «Les défis de l’éducation au Maghreb» in Afkar/Idées, Num. 4, automne 2004, pp. 89-91.

[6]. GEARON, L. (2002).  «Religious education and human rights: some postcolonial perspectives», in British Journal of Religious Education, 24, 2, 2002, pp. 140-151 e IPGRAVE, J. (2003). «Dialogue, citizenship and religious education», in Jackson, R., International Perspectives on Citizenship, Education and Religious Diversity, Routledge/Falmer, Londres, 2003, pp. 147-168.

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