E se nos tirassem o Futebol?

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: E se nos tirassem o Futebol?

Autora: Ana Luísa Pereira

Filiação institucional: Faculdade de Desporto da Universidade do Porto; Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: analp@fade.up.pt

Palavras-chave: Futebol, Portugal, Media

Em jeito de desabafo…

Dizia-se que Portugal era o país dos três efes. Fátima, Futebol e Fado eram símbolos de um país sob uma ditadura que durou 48 anos. Em 2011, estes símbolos emergem como elementos quase estruturantes das práticas quotidianas de tantos portugueses.

É na igreja que muitos encontram alimento espiritual ouvindo as homílias de quem está ao serviço de deus e o representa, ao domingo de manhã ou ao sábado ao fim da tarde depois dos escuteiros e antes do jogo de futebol. Tem que ser assim, há que rezar por melhores dias e ter fé, tudo se resolverá.

É no Futebol que muitos encontram alento quando as suas equipas ganham, parecendo um reduto último da sua alegria (mesmo que momentânea). Foi num bom dia que a seleção ganhou o último jogo, dia em que se discutia e votava o orçamento de estado. Não fosse o jogo marcado pela FIFA e ficaria a dúvida da data favorável ao governo.

Em relação ao Fado, este ganhou um espaço inequívoco com a sua ascensão a património imaterial da humanidade. Foi num bom dia em que almejou este estatuto, véspera da discussão do orçamento na especialidade. Não fosse o encontro em Bali marcado pela UNESCO e ficaria a dúvida da data favorável ao governo. Que coincidências interessantes, estas, para quem está atento e se questiona quanto ao papel de determinadas instâncias da sociedade.

Continuando com o Futebol, no último fim de semana de Novembro (dia 26, mais concretamente), assistiu-se ao derby da capital: Benfica-Sporting. Através das televisões, tivemos oportunidade de ver o estádio da Luz a arder. Um encanto para os que vivem o futebol com tudo o que tem de pior. Felizmente para os meios de comunicação social e mais ainda para o governo, o derby continuou para além do jogo de sábado à noite, arrastando-se todo o enredo dos conflitos entre Benfica e Sporting (com o Futebol Clube do Porto a rir-se) e seus atores para a semana em que se discutem as pretensas alterações ao orçamento de estado. Não fosse tudo isto provocado pelas claques, adeptos e presidentes de clubes, ficaria a dúvida da data favorável ao governo.

Fado e Futebol, acrescentemos “Casa dos Segredos”, “Peso pesado”, telenovelas, entre outros programas e podemos falar numa sociedade portuguesa “espetacular”, nos termos em que Debord [1] utiliza. Isto é, o espetáculo materializado pelos elementos referidos, como uma ferramenta de pacificação e despolitização, “uma permanente guerra do ópio” que estupidifica os sujeitos sociais e os distrai da tarefa mais urgente da vida real – recuperar os poderes humanos através da prática criativa [1]. Consumindo Futebol, Fado, telenovelas e outros que tais, consumindo passivamente, acrescente-se com o mesmo autor, temos os portugueses separados, alheados, até, diríamos, da produção ativa da sua própria vida. E se nos tirassem o Futebol?

E se nos tirassem o Futebol? E se nos tirassem o campeonato português, as competições europeias, os campeonatos mundiais, a taça de Portugal, a taça da liga, etc., os campeonatos dos conflitos fora das quatro linhas, que alimentam o imaginário de quem lê os três jornais diários desportivos, seria fácil continuar a manter tanta gente alheada e entretida? Exagero, eu sei! O Futebol e todos os seus Cristianos Ronaldos, José Mourinhos, Paulos Bento, Scolaris, etc., etc., são “apenas” alguns mitos que passaram dos relvados para a publicidade e revistas da socialite e entram em nossas casas sob todas as formas e a todo o momento. Quero ser como o Cristiano Ronaldo e ganhar milhões a jogar Futebol; quero ser o melhor treinador do mundo e usar uma pulseira de um qualquer Banco para defender Portugal da baixa autoestima, subserviência, que parece continuar a fazer parte da personalidade do português, com o seu medo de existir, parafraseando José Gil [2].

Afinal, não fossem estes ídolos e talvez houvesse muita gente que não teria como escapar ao seu dia-a-dia, esbarrando em orçamentos, dívidas, défices, crises… Estou a exagerar, eu sei… Mas experimentemos mudar a televisão e retirar as novelas, os pesos pesados e os dez canais desportivos com 4 jogos semanais em canal aberto com equipas portuguesas… será que isso motivaria ou obrigaria os portugueses a ver a realidade com um olhar mais atento e a perceber que a sua vida também está nas suas mãos? Provavelmente perceberiam que há outros jogos para além dos campeonatos do ecofin e que além-fronteiras existem alternativas ao futebol alemão e francês. Campeonatos mais originais e criativos que são inspiradores e que provavelmente mostram que afinal islandeses e equatorianos também sabem jogar futebol e merecem aparecer nos horários nobres das televisões, mas que são (propositadamente) esquecidos e silenciados. Televisões, jornais, rádios que já não têm pruridos em servir explícita e abertamente aqueles que financiam os campeonatos normalizados, padronizados e subservientes e até tecnocratas, que utilizam a força da técnica e a técnica à força, obrigando-nos continuamente a assistir apenas às inevitabilidades que nos impõem tecnicamente e à força. E não nos damos conta de quão manipulados somos. Aceitamos assim passivamente o espetáculo estupidificante do quotidiano da televisão, esquecendo-nos que as nossas vidas poderiam ser vividas por nós mesmos, jogando futebol de rua, jogando futebol todos os dias, rindo, marcando golos, sem necessidade dos Ruis Santos para interpretar as nossas jogadas vívidas e autênticas.

Notas

[1] Debord, G. (1991). A sociedade do espectáculo. Lisboa: mobilis in mobile.

[2] Gil, J. (2005). Portugal, hoje. O medo de existir. Lisboa: Relógio d’Água (3ª. ed.).

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3 Respostas a E se nos tirassem o Futebol?

  1. José Coelho diz:

    Querida Ana Luisa, se tiram o futebol aos Portugueses ou eles vao trabalhar ou metade morrem. Um beijao para Ti.

  2. André Leitão diz:

    O mais importante é após a leitura deste texto chegar a uma questão essencial: se as coisas se passam desta forma em Portugal o que acontecerá no outro extremo do espectro, como por exemplo os Estados Unidos da América? Postas as coisas dessa forma compreendemos que esta é uma ameaça global para o indivíduo comum. O homem, como ser livre e único, é uma espécie em vias de extinção á medida que a agenda da globalização dos senhores de fato negro continua a desbravar caminho por aí fora. Em última análise somos vistos como gado: programados durante a nossa infância e adolescência por um sistema educativo cada vez mais defeituoso, constantemente manipulados e abusados pelo sistema político, económico e de comunicação perdendo dessa forma alguns dos mais básicos conceitos de liberdade. Isso acontece devido a uma incessante e cada vez mais forte centralização de poder que cria a passos largos um super-estado com governo/exército mundial e uma moeda única electrónica. Por outras palavras, o pesadelo que George Orwell descreve em “1984”. E se estivermos bem atentos, esse super estado já é visível, pois está a erguer-se por defeito com a União Europeia e a preciosa ajuda dos EUA (pois está claro). O exército mundial dá-se pelo nome OTAN (ou NATO se preferirmos), cujo acordo seria uma actuação deste “super-exército” apenas na Europa (o que já seria mau) e agora se encontra espalhada em missões pelo mundo fora. A primeira foi, curiosamente (ou não), no Afeganistão. E claro, a agenda da moeda única galopou “off the charts” com o euro que, acreditemos ou não, irá crashar num futuro não muito distante. Portanto, o super-estado que descrevi anteriormente e que muita gente considera ficção, já existe na realidade mas com outros nomes. E o que fazemos nós perante isto? Sentimo-nos moralmente ofendidos quando a Janet Jackson mostra o mamilo na SuperBowl e extremamente violentados quando Pedro Proença valida um golo irregular a favor do FC Porto. Quando confrontados com esta realidade, viramos a face para o outro lado e assobiamos para o ar. Defendemos cegamente este sistema porque fomos, desde a nossa nascença, programados para o fazer.
    Não deixa também de ser irónico pensar que tudo isto aconteceu sob a sombra de uma (falsa) democracia. Vivemos numa prisão sem barras, e de facto, o melhor escravo é aquele que se julga livre.

    Deixo uma vénia bem composta á autora deste texto. Precisamos de mais pessoas e textos assim… urgentemente.

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