Obesidade: A complexidade de um problema aparentemente simples

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: Obesidade: A complexidade de um problema aparentemente simples

Autora: Fátima Santos

Filiação institucional: Escola Superior de Saúde/Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade Fernando Pessoa

E-mail: fatimas@ufp.edu.pt

Palavras-chave: Obesidade; sedentarismo; evolução humana

Actualmente a obesidade é um fenómeno global, sendo considerada um grave problema de saúde pública. A bibliografia, de uma forma geral, aponta duas causas principais para explicar o actual estado das populações: excesso alimentar e falta de exercício físico, no entanto cremos estar perante uma justificação incompleta que impõe olhar para a obesidade através do prisma dos sistemas complexos, onde aquilo que se percebe como uma causa possa ser, afinal, um efeito. Não é de crer que grandes problemas possam ter causas simples e que um fenómeno global possa ser justificado de forma tão óbvia. A validade explicativa dos dois argumentos apresentados é indiscutível, mas cremos estar perante consequências de causas mais profundas e longínquas que se inscrevem no fundamental do ser humano, em dimensões de natureza antropológica.

A evidência sobre este tema acentua diversos paradoxos. 1º Paradoxo – A Obesidade vista como sendo ou não uma epidemia. Se para vários autores, a obesidade é considerada uma verdadeira epidemia/pandemia, atingindo tanto adultos como crianças [1], para outros estamos perante um mudança subtil e não uma epidemia alarmante baseada em interpretações erróneas dos dados existentes [2]. 2º Paradoxo – O Excesso de peso como mortal ou sinónimo de longevidade. A previsão de que o aumento da massa corporal iria deter ou mesmo inverter a tendência milenar do aumento da esperança média de vida do homem [3], é contestada por autores que associam à categoria de sobrepeso uma ligeira diminuição da mortalidade comparativamente com o peso normal [4], existindo mesmo quem sugira a hipótese do sobrepeso ser o peso “ideal” para a longevidade [2]. 3º Paradoxo – A Obesidade como consequência ou não da ingestão alimentar excessiva. Se há estudos que apontam que o aumento da obesidade se deve ao aumento da ingestão calórica [5], a inconsistência dos dados existentes sugere que o aumento da obesidade possa estar mais relacionado com as alterações ocorridas nos níveis de dispêndio energético [6]. 4º Paradoxo – A Obesidade como consequência ou não da diminuição do exercício físico. Se é notório o aumento das actividades sedentárias, como o aumento do número de horas a ver televisão, no computador ou jogar videogames [7], houve também um incremento no número de health clubs, áreas recreativas e de casas com equipamento desportivos [8]. 5º Paradoxo – A Inactividade física como causa ou efeito do aumento de peso. Se, por um lado, há quem defenda uma forte relação entre a obesidade e a falta de exercício físico [9], outros não evidenciam tão fortemente estas associações [10], sendo que poucos estudos sobre estes factores consideram a ingestão alimentar [11]. Por outro lado, há quem demonstre que o aumento de peso corporal pode preceder a diminuição na realização de exercício físico em momentos de lazer [12]. 6º Paradoxo – A Obesidade como estigma ou valor social positivo. No mundo ocidentalizado há quem considere que o estigma social contra a obesidade tem provavelmente limitado, em parte, a taxa de aumento da obesidade [13], contudo em vários países em desenvolvimento, o tamanho corporal grande é associado com poder, beleza e abundância [14] e a magreza com condições de doença [13].

A evidência destes paradoxos leva a crer que existe alguma dificuldade para explicar o fenómeno da obesidade, e a sua ordem de grandeza e o seu crescimento a nível mundial sugerem que estamos perante uma autêntica pandemia e não diante de um problema localizado de uma dada civilização.

A crescente dificuldade de debelar este problema, tanto a nível individual como populacional, realça a sua extrema complexidade, pelo que é nossa convicção que o actual panorama – população obesa e sedentária – reflecte um comportamento humano que tem muito de cultural e cuja génese longínqua remonta há 10 000 anos. Neste período, existiu uma importante alteração climatérica que permitiu ao homem começar a fixar-se em aldeias, deixando para trás uma vida essencialmente nómada, desencandeando uma cascata de acontecimentos, entre as quais o início da domesticação, em grande escala, de plantas e animais e o desenvolvimento da tecnologia, que originou o actual estado da sociedade.

Assim, a actual sociedade obesogénica e sedentária é uma consequência da evolução cultural, sem precedentes na história humana, que ocorreu nos últimos 10 000 anos, sendo o preço que o homem se encontra a pagar pela sua evolução.

Notas

[1] Katzmarzyk, P.T., et al., International conference on physical activity and obesity in children: summary statement and recommendations. Int J Pediatr Obes, 2008. 3(1): p. 3-21.

[2] Campos, P., et al., The epidemiology of overweight and obesity: public health crisis or moral panic? Int J Epidemiol, 2006. 35(1): p. 55-60.

[3] Olshansky, S.J., et al., A potential decline in life expectancy in the United States in the 21st century. N Engl J Med, 2005. 352(11): p. 1138-45.

[4] Flegal, K.M., et al., Excess deaths associated with underweight, overweight, and obesity. JAMA, 2005. 293(15): p. 1861-7.

[5] Cutler, D.M., E.L. Glaeser, and J.M. Shapiro, Why Have Americans Became More Obese? Journal of Economic Perspectives, 2003. 17(3): p. 93-118.

[6] Stein, C.J. and G.A. Colditz, The epidemic of obesity. J Clin Endocrinol Metab, 2004. 89(6): p. 2522-5.

[7] Brownson, R.C., T.K. Boehmer, and D.A. Luke, Declining rates of physical activity in the United States: what are the contributors? Annu Rev Public Health, 2005. 26: p. 421-43.

[8] Jeffery, R.W. and J. Utter, The changing environment and population obesity in the United States. Obes Res, 2003. 11 Suppl: p. 12S-22S.

[9] Brooks, G.A., et al., Chronicle of the Institute of Medicine physical activity recommendation: how a physical activity recommendation came to be among dietary recommendations. Am J Clin Nutr, 2004. 79(5): p. 921S-930S.

[10] Ekelund, U., et al., Associations between objectively assessed physical activity and indicators of body fatness in 9- to 10-y-old European children: a population-based study from 4 distinct regions in Europe (the European Youth Heart Study). Am J Clin Nutr, 2004. 80(3): p. 584-90.

[11] Oppert, J.M., et al., Leisure-time and occupational physical activity in relation to cardiovascular risk factors and eating habits in French adults. Public Health Nutr, 2006. 9(6): p. 746-54.

[12] Petersen, L., P. Schnohr, and T.I. Sorensen, Longitudinal study of the long-term relation between physical activity and obesity in adults. Int J Obes Relat Metab Disord, 2004. 28(1): p. 105-12.

[13] Prentice, A.M., The emerging epidemic of obesity in developing countries. Int J Epidemiol, 2006. 35(1): p. 93-9.

[14] Metcalf, P.A., et al., Ethnic differences in perceptions of body size in middle-aged European, Maori and Pacific people living in New Zealand. Int J Obes Relat Metab Disord, 2000. 24(5): p. 593-9.

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