Desporto – campo de enganos?

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: Desporto – campo de enganos?

Autor: José Augusto Rodrigues dos Santos

Filiação institucional: Faculdade de Desporto – Universidade do Porto

E-mail: jaugusto@fade.up.pt

Palavras-chave: desporto, doping, axiologia

O desporto é uma metáfora da vida biológica que se afirmou na superação dos constrangimentos do envolvimento. O desporto está tocado na sua mais profunda essência pela lógica da superação, cuja carga axiológica condiciona todas as atitudes referentes à prática desportiva.

Algumas posições pretensamente mais humanistas advogam um desporto alicerçado numa competição “com” e não “contra”. Esse é um desporto fantasia que não existe. Retirar a emulação é castrar o desporto no mais profundo da sua essência. A alma do desporto é ganhar ao outro, contra o outro. Esse é o supremo desiderato que, em última análise, evidencia o máximo respeito pelo adversário. Esse é o élan que referencia a excelência desportiva, e que entronca nas próprias origens mitológicas da civilização ocidental a que pertencemos. Ouçamos Homero, o aedo primacial da nossa cultura, pela boca de Laodamante que convida Ulisses, já recuperado do naufrágio nas praias de Ítaca: “Vem tu, também, participar nos jogos, se aprendeste algum, porque não há glória mais ilustre para o homem nesta vida que a de se afirmar pelos feitos dos seus pés e suas mãos”. Este repto visava demonstrar a excelência dos Feácios que seria relatada por Ulisses quando este regressasse à sua pátria. Ulisses troca-lhes as voltas, lançando o disco mais longe que todos. Mas os Feácios não podem ser desonrados por essa derrota, e procuram em novos jogos (remo, dança, canto, corrida, etc.) a vingança que conseguem. Desejo de emulação – desejo de vitória, eis em síntese o traço idiossincrático dos antigos helénicos que atravessou incólume o decurso dos tempos. O desejo de glória, de dar bom-nome de si, norteava os comportamentos, o que induzia a fuga à regra normativa, pecadilho ao qual nem os deuses escapavam. Até estes faziam batota. Na corrida de carros Apolo faz com que o chicote caia da mão de Diomedes. No entanto, Atena recolhe-o e devolve-o e, por seu lado, parte o jugo do carro de Eumeo: “cada égua dispara em frente pelo caminho, o timão cai por terra e o herói mergulha no solo, junto a uma roda, ferindo-se nos cotovelos boca e nariz, rompendo-se a face por cima das sobrancelhas, arrasando-se os olhos de lágrimas e a voz vigorosa e sonora calou-se” (Ilíada).

Tomar partido adulterando a verdade desportiva foi pecadilho dos deuses genésicos da civilização ocidental, cuja intervenção chegou ao nível dos processos anabolisantes. Assim, Ulisses após tomar banho e ser ungido com perfumados óleos, ficou mais alto e mais forte, e com encaracolados cabelos pendendo da sua fronte, por acção da deusa Ateneia, filha de Zeus, que se enamorou deste herói lendário.

Passando da lenda à história, podemos ver as recorrentes tentativas de potenciação desportiva, por meios naturais ou por recorrência às substâncias cabalísticas.

Para preparar a participação do seu atleta Eurymenes de Samos (lutador de Pancrácio) nos Jogos Olímpicos de 532 a.C., Pitágoras (o famoso matemático da antiguidade) aconselhou-o a mudar a sua alimentação à base de figos, prática geral entre atletas, para uma dieta baseada na carne. Sem bases científicas mas com espírito arguto e reflectido, Pitágoras reconheceu a insuficiência dos figos no aporte significativo de constituintes relacionados com a força.

A lógica pragmática nutricional dos antigos aconselhava, aos atletas, a ingestão de carne de boi para os desportos de força, de cabra para os saltadores e de cavalo para os velocistas, pensando que as propriedades físicas desses animais eram transmissíveis pelo consumo da carne.

Tais atitudes representam a via natural na procura da excelência desportiva, mas como procurar manter o respeito pelas regras do natural numa actividade intrinsecamente marcada pela procura da excepcionalidade? Se os deuses fazem trapaça, os humanos “também têm esse direito”. Há que vencer as barreiras que nos condicionam o êxito.

A actividade humana desportiva está condicionada por barreiras:

–          Fisiológicas, que condicionam a capacidade de produzir energia

–          Psicológicas, que limitam a possibilidade de controlo dessa energia

–          Biomecânicas, que limitam a capacidade de utilização de energia de forma mais eficiente.

O afã de ultrapassar os condicionalismos impostos por essas barreiras leva o homem aos comportamentos desviantes que não raras vezes têm resultados letais. O recurso ao doping assume hoje uma dimensão ecuménica e é quase tão antigo como a história da humanidade. No ano 2700 aC, o imperador chinês Shen Yung dava aos seus funcionários, para os manter acordados, um chá feito de folhas de efedra. Os trabalhadores andinos enfrentam a jornada de trabalho mascando folhas de coca. Em África, as raízes de Iboga potenciam o trabalho humano. A droga ergogénica acompanha-nos desde muito cedo e de droga social passou a batota química desportiva.

Mas um momento alto na introdução da droga no desporto acontece com o término da segunda guerra mundial. Ambos os blocos beligerantes recorriam a anfetaminas como estimulantes das capacidades físicas e mentais dos soldados. Só a Royal Air Force, entre 1940 e 1943 administrou 72 milhões de comprimidos de anfetaminas aos seus aviadores para os manter em superior estado de prontidão para o combate. No fim da guerra, os comportamentos aditivos estavam bem implantados, e o regresso a casa dos soldados correspondeu à chegada massiva da droga à sociedade e por arrasto ao desporto. A utilização do doping no desporto é, historicamente, precedida pelo doping no trabalho e na guerra. A sociedade aceitou com naturalidade o doping. Como evitar que ele entrasse, também com naturalidade, no mundo do desporto?

Acreditamos que numa sociedade utópica a consecução de um desporto “limpo” seria o corolário de uma axiologia implantada precocemente na família e na escola. Só que a utopia não existe e somente funciona como tensão para o aperfeiçoamento social e individual.

Quando o quadro da dopagem desportiva se abre às manipulações genéticas torna-se difícil qualquer controlo eficaz. No entanto, se queremos que o desporto continue a ser um campo de modelos referenciais que nos elevem em cultura e fruição estética, temos de investir, tempo e dinheiro, no controlo duma actividade que merece ser preservada como saudável campo de realização humana.

Se falharmos nesse desiderato abrimos as portas à construção de clones biologicamente puros, sem cérebro, com músculos hipertrofiados, muita fosfocreatina e muito glicogénio, com glândulas desenvolvidas fora dos limites genéticos, libertos dos constrangimentos psico-afectivos, optimizados biomecanicamente, que ganharão a tudo e todos. E depois?

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