A Arte Feminista Vive: All My Independent Women Um Movimento Marginal

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: A Arte Feminista Vive: All My Independent Women Um Movimento Marginal

Autora: Carla Cruz

Filiação institucional: Investigadora na Goldsmiths University of London

E-mail: carlabarroscruz@gmail.com

Páginas relacionadas:

http://allmyindependentwomen.blogspot.com/ ; http://amiwnacasadaesquina.blogspot.com/ ; http://www.vbkoe.org/

Palavras-chave: arte, feminismo, margens, solidariedade

All My Independent Women (AMIW) é um projecto artístico que emergiu de debates em torno das questões de género e aspirou trazer à luz práticas feministas que estão sub-representadas no contexto artístico Português.

Teve inicio em 2005 a partir dum convite de Lígia Araão para realizar uma exposição na Galeria SMS – Museu de Arqueologia da Sociedade Martins Sarmento, Guimarães. A minha proposta foi a de criar uma exposição colectiva em torno do trabalho de artistas que problematizam a noção de género nas suas obras e de alguma forma faziam parte do imaginário da minha própria produção artística. O projeto foi apresentado posteriormente mais quatro vezes. A 5ª edição, em 2010, surgiu a partir das leituras do livro Novas Cartas Portuguesas (NCP), e do encontro com Filipa Alves que dirige a Casa da Esquina, Coimbra. Este livro, marco da causa feminista em Portugal, escrito coletivamente entre Março e Outubro de 1971 por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, durante o Estado Novo, é composto por inúmeras cartas datadas, mas não assinadas. Ponto de partida para a 5ª edição foi também o renovado desejo de expor obras originais que discutissem tanto temas feministas na prática de cada uma das autoras, como a perspectiva temporal das NCP. Assim, estabelecemos um debate sobre feminismos e arte feminista através de propostas que cruzam linguagens visuais, performativas, sonoras e escritas.

As artistas perguntaram-se como poderíamos hoje construir, politicamente e através da diferença, o edifício feminino. Perguntamos, como as ‘3 Marias’ o fizeram antes: “Mas o que pode literatura? Ou melhor: o que podem as palavras?” [1]. O que podem as obras de arte em face de uma sociedade que é ainda ela opressiva para uma grande parte da população lançada para as margens, devido ao seu sexo, género e opção sexual; as margens não apenas do mundo da arte, como poderíamos apontar em particular com AMIW, mas também para as margens da sociedade em geral? Desta forma, AMIW encaixa-se num projeto político maior, que não é apenas feminista mas também democrático.

No início, AMIW reivindicou a visibilidade da obra de mulheres artistas, mas acima de tudo visibilidade para o trabalho de mulheres/ homens /queer, que se dedicam às questões de género e a uma prática metodológica feminista. A caminho da sua 6ª edição (na Associação de Mulheres Artistas da Áustria – VBKOE, Viena), chegou o momento de questionar este nosso desejo de visibilidade, pois como a teórica feminista Norte Americana bell hooks afirma: enquanto definirmos emancipação como igualdade com a classe dominante (heterossexual, masculina e branca) continuamos vinculadas à exploração e opressão de outros grupos [2]. Analogamente, hoje questionamos o que significa querer inscrever práticas de arte feminista no que se entende como ‘visível’, sabendo que as construções do que se torna visível, ou não, é o que nós queremos realmente questionar. A pergunta pode ser feita de uma forma mais ampla: quer a recente explosão de exposições – e antologias de grande sucesso – de arte feminista, dizer que a arte feminista encontrou o seu lugar na nossa sociedade? Ou apenas na história?

A prática artística através de metodologias feministas é urgente e necessária numa sociedade plural, mas a forma como inserimos essas práticas nos discursos existentes tem também de ser foco da nossa atenção. Podemos querer lutar para chegarmos ao topo, mas a que custo? Aqui é importante lembrar que a nossa luta não é apenas a de ter mais mulheres representadas em coleções de arte privadas e públicas, mas a nossa luta, como afirma hooks “tem o poder de transformar de forma significativa a totalidade das nossas vidas” [3]. Nesse sentido, AMIW necessita analisar os sistemas de dominação e o nosso papel na sua perpetuação. De forma a que as nossas práticas não sejam absorvidas anodinamente e a nossa luta por uma sociedade realmente plural e representativa das diferenças não caia em saco roto.

Segundo hooks, somos socializadas para aceitar a hierarquia vigente como natural, tornando-nos assim cúmplices com o status quo. Portanto, mesmo quando tentamos eliminar a opressão dominante, podemos ser presa fácil das estruturas existentes. Se AMIW deseja afiliar-se com o projeto feminista que deseja o fim, não só da discriminação de práticas artísticas que lidam com questões de género mas, de todas as formas de opressão, é então necessário questionar o nosso papel no sistema. A lição de hooks é a de olhar para as margens na procura de exemplos de mudança. Assim AMIW, permanecendo desembaraçadamente nas margens, liberta-se do desejo de pertencer ao que pode ser visto como um ‘mainstream’ discriminatório para genuinamente tentar descobrir novas maneiras de dar conta de práticas artísticas feministas em Portugal. Consequentemente, as nossas produções artísticas não serão tão facilmente cooptadas pelo mainstream e não aparecerão rotuladas como arte feminista, ou integradas em mostras colectivas apenas nas modas sazonais da aparente democratização do mundo da arte: pela inserção e absorção. Mas sim, democratizando-o realmente ao oferecer uma plataforma de crítica, luta e transformação a partir da sua orgulhosa marginalidade. Será neste campo plural e conflituoso que queremos afirmar o nosso compromisso, ou seja, a nossa solidariedade com todos os movimentos emancipatórios.

Notas

[1] Barreno, et. al. (1994), Novas Cartas Portuguesas, Lisboa, Dom Quixote, p.234.

[2] bell hooks (1984), Feminist Theory: From Margin to Center, Cambridge Massachusetts,  p.15.

[3] hooks (1984), p.26. Tradução minha do original: “has the power to transform in a meaningful way all our lives”.

Flexão I. QUEERemos / Performance, Rita Rainho 2010.

AMIW 2010 – Casa da Esquina, Coimbra.
Fonte: Adriana Oliveira.

A Colher / Vídeo Instalação, Amarante Abramovici e Tiago Afonso 2010

AMIW 2010 – Casa da Esquina, Coimbra.
Fonte: Adriana Oliveira.
 
 

 

Eu Não Sou Uma Mulher Colher, Eu Não Sou Uma Reprodutora / Instalação, Ana Pérez Quiroga 1998

AMIW 2010 – Casa da Esquina, Coimbra.
Fonte: Adriana Oliveira.
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