Progresso, utilidade e harmonia – um contributo para a perceção dos media

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: Progresso, utilidade e harmonia – um contributo para a perceção dos media

Autor: Rogério Santos

Filiação institucional: Universidade Católica Portuguesa

E-mail: rogerio.santos@netcabo.pt

Página pessoal: http://industrias-culturais.hypotheses.org/

Palavras-chave: Media, tecnologias, perceção.

Em 1937, a propósito das locutoras da Emissora Nacional, um ouvinte escrevia que não tinha “a honra de conhecer nenhuma delas, mas posso garantir que, se ambas são lindas como linda é a sua voz, não lhes devem faltar admiradores” [1]. Dois anos depois, Gonçalves e Machado [2] identificavam mudanças nas relações familiares com a compra de um receptor de rádio: “o chefe de casa, […] passando o tempo por locais nem todos recomendáveis, descuidando o lar monótono, atraído pelo ruído e pelo movimento que encontra fora dele, começa a fazer nova vida. Quando não põe o aparelho a funcionar enquanto janta, fá-lo depois, deixando-se ficar em casa”. À volta do rádio, a família gozava de uma felicidade nova. Teves acrescentaria outra posição quando escreveu sobre televisão, ao indicar que ela “foi, sobretudo, um grande espetáculo de rua, nas suas primeiras noites. […] o povo fez a festa nos passeios, frente às montras, em magotes” [3]. “Espetáculo da curiosidade”, leu-se nos jornais de então.

Além da ingenuidade, harmonia e curiosidade, juntaram-se a crença do progresso e do útil nos media, com a defesa das tecnologias e menos preocupação dos efeitos na vida pública e privada. Na realidade, a adoção do computador foi mais célere que a massificação da televisão ou da rádio. Percebem-se as razões: se os dois últimos são meios de entretenimento, o computador ficou sempre ligado ao desenvolvimento pessoal. Os media também foram enaltecidos como promotores do saber. Na sua grelha de programas de 1937, a Rádio Renascença tinha cursos de línguas estrangeiras: italiano, francês, alemão e inglês [4]. Depois, a televisão emitiria ópera e teatro clássico na hora nobre.

Estas narrativas postulam uma de duas posições sociais opostas, como a versão da distinção entre integrados e apocalíticos em Eco [5], para quem o integrado defendia o acesso a todos dos bens culturais e o apocalíptico via a cultura de massas como anticultura. Agora, a uma análise otimista, de benefício e de progresso, contrapõe-se uma negativa, que acusa o excessivo consumo das tecnologias e dos media como vício, malefício e perda de atenção. O computador é o meio que se presta ao discurso otimista, a televisão associa-se ao vício. O indivíduo, que se senta no sofá a consumir novelas e reality shows televisivos, fica apático, individualista, adito e afastado da discussão da coisa pública [6].

Uma nova mudança viria na última década com a internet, os media electrónicos e as redes sociais, as quais despertam igualmente paixões e críticas. Por um lado, oferecem-nos um quadro cultural para a vida do quotidiano, no sentido da cultura saturada de media [7], em que empossam os cidadãos com uma ligação para o mundo, do mesmo modo que, em 1940, Robert Park dizia que o jornal era uma janela para o mundo: a “primeira reacção típica do receptor de uma notícia é desejar contá-la a alguém. Isso dá motivo de conversa, fomenta comentários e, eventualmente, inicia uma discussão” [8]. Por outro lado, os novos media promovem a cultura da irresponsabilidade e levantam o problema dos direitos de autor, como o descarregamento ilegal de ficheiros, caso da música (Napster), o sampling (remistura de originais) e o plágio simples, além do voyeurismo e perda de privacidade (fotografias do Facebook e do Google Streets).

Há um crescente receio das tecnologias eletrónicas. Paul Starr [9] compara as virtudes dos jornais com a internet. Se os jornais foram o centro do mundo e a principal fonte de informação (política, finanças, desporto) ao longo do século XX, a internet trouxe profundas alterações, com aumento de opções de entretenimento e notícias, numa linha de continuidade face ao cabo, que fornece mais canais de televisão. A maior oferta pode corresponder a menor atenção dada à vida cívica. Outra grande alteração trazida pela internet é a atualização constante da informação. Contudo, ao levantar a questão da wikipedia, esta é um importante meio de comunicação mas sem artigos com investigação original.

O panorama apocalítico é amenizado por investigações que consideram que raramente os novos media substituem os velhos mas criam espaços para novos campos e actividades. Couldry, Livingstone e Markham [6] indicam que o jornal faz uma ligação pública ao seu leitor enquanto a ligação na internet permanece potencial com o utilizador. Bolter e Grusin [10] escrevem que os novos media remedeiam os velhos, com televisão, cinema, grafismo computacional, fotografia digital e realidade virtual a confluirem num reconhecimento cultural, em que cada meio participa numa rede que reconhece os produtos culturais de um meio como parte de outros meios mais antigos. Para Couldry, Livingstone e Markham, estamos a passar de um modelo de mediação de massa para um modelo de cultura multi-mediada [6]. É que os media como a imprensa ou a televisão nunca atingiram a população total, o que a internet parece preparar-se para fazer.

Notas

[1] Rádio Nacional, 8 de Agosto de 1937.

[2] Gonçalves, Fausto; Machado, Pereira (1939), Colecção Radiofónica. O triunfo do progresso, Lisboa: Tipografia Americana.

[3] Teves, Vasco Hogan (2007), RTP 50 Anos de História, Lisboa: RTP.

[4] Santos, Rogério (2005), As vozes da rádio, 1924-1939, Lisboa: Caminho.

[5] Eco, Umberto (1979), Apocalípticos e integrados, São Paulo: Editora Perspectiva.

[6] Couldry, Nick; Livingstone, Sonia; Markham, Tim (2010), Media consumption and public engagement. Beyond the presumption of attention, Hampshire e Nova Iorque: Palgrave.

[7] Bird, Elizabeth (2003), The audience in everyday life. Living in a media world, Nova Iorque e Londres: Routledge.

[8] Park, Robert (2002), “As notícias como uma forma de conhecimento: um capítulo na sociologia do conhecimento”, in João Pissarra Esteves (org.) Comunicação e sociedade, Lisboa: Livros Horizonte.

[9] Starr, Paul (2009), “Adiós a la era de los periódicos (bienvenida una nueva era de corrupción)”, in Arcadi Espada e Ernesto Hernández Busto (eds.) El fin de los periódicos. Barcelona: Duomo.

[10] Bolter, Jay David; Grusin, Richard (2000), Remediation, Cambridge, MA, e Londres: MIT Press.

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