Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida
Título do artigo: Entre o Ideal Olímpico e a Realidade Humana: Reflexões sobre o Pensamento de Pierre de Coubertin
Autor: Vítor Rosa
Filiação institucional: Investigador Colaborador do LusoGlobe – Lusófona Center on Global Challenges
E-mail: vitor.alberto.rosa@gmail.com
Palavras-chave: Olimpismo, Ética desportiva, Humanismo Competitivo.
Colocando-se numa espécie de baloiço socrático – evocando a comédia Les Nuées, de Aristófanes, onde a personagem de Sócrates surge suspensa num cesto, pretendendo elevar-se acima da perspetiva comum dos mortais – o barão Pierre de Coubertin (1863-1937), reconhecido como o pai do olimpismo moderno, propõe uma definição de desporto ancorada numa visão exigente e idealizada da formação humana. Admirador convicto do modelo britânico de educação física e defensor da introdução dos desportos ingleses nas escolas francesas, Coubertin entendia o desporto como o culto voluntário e habitual do exercício muscular intensivo, incitado pelo desejo de progresso e não temendo o risco.
Ao analisarmos o pensamento daquele que revitalizou os Jogos Olímpicos na era contemporânea, percebemos que esta definição assenta em cinco dimensões fundamentais: iniciativa, perseverança, intensidade, aperfeiçoamento e aceitação do risco. O desporto, na sua perspetiva, é uma prática voluntária e disciplinada, orientada para a superação constante.
A divisa adotada como lema do Comité Olímpico Internacional – citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte) – traduz essa ambição de transcendência. Para Coubertin, estes princípios configuram elementos essenciais e estruturantes, dos quais decorrem três consequências principais.
Em primeiro lugar, o desporto não é algo espontaneamente natural ao ser humano. Ele contraria a nomos animal do “menor esforço”. Não basta proporcionar condições materiais favoráveis; é indispensável cultivar a paixão, aliada ao cálculo e à estratégia. A prática desportiva exige intenção, disciplina e método.
Em segundo lugar, o espírito desportivo pode impregnar qualquer forma de exercício físico. A técnica desportiva abrange um vasto conjunto de práticas – da ginástica à esgrima, da equitação ao futebol – desde que realizadas com propósito competitivo, regras definidas e vontade de superação.
Em terceiro lugar, o desporto apela ao sangue-frio, à observação e ao domínio de si. Convoca dimensões psicológicas e fisiológicas, tornando-se instrumento de aperfeiçoamento moral e social.
Coubertin descreve o desporto como um processo que se desenvolve em três fases sucessivas. A primeira corresponde à ginástica preparatória, que adapta o corpo aos movimentos necessários e consolida hábitos musculares adequados. A segunda transforma o desporto numa ciência: através da experiência e da prática, adquirem-se conhecimentos técnicos e táticos. A terceira eleva-o à categoria de arte.
Enquanto arte, o desporto torna-se meio de libertação: o ser humano supera-se e ajuda os outros a libertarem-se do que há de mais pesado e menos digno na existência. Trata-se de uma arte singular, distinta das demais, cuja expressão varia consoante o grau de aperfeiçoamento do praticante. O atleta surge, então, como escultura viva, encarnação da beleza em movimento. O desporto produz beleza não apenas no corpo treinado, mas também nos espaços arquitetónicos que o acolhem, nos espetáculos que organiza e nas celebrações que inspira.
Alguns autores reforçam a ideia de que o desporto preserva no homem certas qualidades primordiais, herdadas de um passado ancestral. Ele asseguraria, simbolicamente, a transição da idade da pedra para uma futura idade da pedra, da pré-história para uma pós-história, mantendo viva a energia vital e a capacidade de adaptação.
No contexto português, o desporto assume igualmente um papel central na construção identitária e cultural. Modalidades como o futebol, profundamente enraizado no quotidiano social, coexistem com outras práticas de crescente expressão, como o atletismo, o futsal, o surf ou o judo. Figuras de relevo internacional contribuíram para projetar Portugal no panorama desportivo global, enquanto clubes e associações desempenham uma função essencial na formação de jovens e na promoção de valores cívicos. Paralelamente, tem-se verificado um investimento progressivo em infraestruturas e políticas públicas que incentivam a prática desportiva, reconhecendo-a como instrumento de saúde, inclusão e coesão social. Ainda assim, persistem desafios relacionados com a desigualdade de acesso, a profissionalização e a sustentabilidade do sistema desportivo.
Numa mensagem radiofónica transmitida a 4 de agosto de 1935, por ocasião dos Jogos Olímpicos realizados em Berlim, em 1936 [1], Coubertin estabeleceu uma analogia entre desporto e religião, situando-o numa fronteira simbólica entre o sagrado e o profano. Esta associação viria a suscitar críticas. O ideal humanista que defendia – centrado na regeneração moral dos indivíduos, particularmente dos franceses – e o universo ético proposto na sua obra Pédagogie sportive [2] não alcançaram plenamente os objetivos ambicionados.
A cultura ocidental contemporânea é profundamente marcada pela afirmação do eu através da competição. O desporto favorece essa afirmação identitária; contudo, os meios para alcançar reconhecimento tornam-se cada vez mais exigentes e seletivos. A competição intensifica-se, e o acesso aos níveis mais elevados de desempenho depende de recursos, condições e oportunidades nem sempre equitativamente distribuídos.
Importa reconhecer que o desporto não é apenas portador de um ideal ético e moral. Ele pode gerar efeitos contrastantes: tanto promove valores de cooperação, disciplina e respeito, como pode alimentar agressividade, chauvinismo e exclusão. Pode constituir um instrumento de cultura e integração social, mas também degenerar em espetáculo alienante, funcionando como “ópio do povo” num universo de evasão e fantasia.
Frequentemente, a atenção pública concentra-se nas proezas extraordinárias, nos resultados sensacionais (gloriosos ou trágicos) e nos recordes que parecem inatingíveis até serem superados. Exalta-se o seu humanismo proclamado, a mensagem de fraternidade e a vocação pacificadora. Contudo, fala-se menos das suas imperfeições: dos excessos físicos e psicológicos, das lesões, da violência – seja ela física, institucional ou simbólica –, da corrupção, da dopagem, da discriminação, da exclusão e até da morte. Talvez se evite abordar estes aspetos por receio de comprometer a força do “belo sonho” olímpico.
Assim, entre ideal e realidade, o desporto permanece um fenómeno ambivalente. Encerrando promessas de elevação humana e riscos de degradação moral, ele espelha as tensões da própria sociedade que o produz. Tal como no baloiço socrático, oscila entre a aspiração a um ponto de vista superior e a inevitável condição terrestre. É nesse movimento contínuo – entre o mais rápido, o mais alto e o mais forte – que reside tanto a sua grandeza como a sua fragilidade.
Notas
[1] https://www.ina.fr/audio/PH106001133 (consultado em 21/02/2026).
[2] Coubertin, Pierre (1922). Pédagogie sportive. Paris : Les éditions les Crèss et Cie.
.
.





