Reabilitação da Utopia

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Socia

Título do artigo: Reabilitação da Utopia

Autor: Gonçalo Marcelo

Filiação institucional: Investigador do CECH, Universidade de Coimbra / Professor Convidado na Católica Porto Business School

E-mail: goncalomarcelo@gmail.com

Palavras-chave: imaginação, transformação social, utopia.

O ano de 2016 assinala a passagem dos 500 anos desde a publicação da famosa Utopia de Thomas More [1], livro que é, a justo título, considerado como sendo um dos que maior influência tiveram em todo o pensamento posterior. Poucos são os livros que inauguram um género literário ou que se podem arrogar ter popularizado um método – o qual hoje talvez tendêssemos a identificar com o da “experiência de pensamento” – com verdadeiro alcance político e transformador.

Não é por isso de estranhar que este ano seja profícuo em celebrações da utopia em diversas partes do mundo, não sendo Portugal uma exceção; pelo contrário, com a realização de uma enorme conferência internacional [2] e a programação do maior festival literário nacional [3], parecemos estar prestes a viver um ano verdadeiramente utópico.

Porém, não deixará de causar estranheza, pelo menos ao leitor incauto, talvez demasiado imbuído de “senso comum” ou “bom senso” (a virtude que Descartes ironicamente considerava ser aquela que melhor distribuída estava no mundo…) a celebração de uma noção que tantas vezes é tratada de forma pejorativa. Não será o u-topos de More (literalmente, o nenhures, aquilo que não existe em lugar algum) precisamente a marca de um irrealismo nocivo, um afastamento da realidade concreta e pragmática que denuncia um carácter, na melhor das hipóteses, vagamente sonhador, e na pior, mesmo perigoso, porque adepto das soluções extremas que fazem tabula rasa da realidade social existente? Afinal de contas, foi há relativamente pouco tempo que um Vice-Primeiro-Ministro português decidiu identificar propostas alternativas como sendo perigosas precisamente por serem utópicas. Em suma, uma visão da utopia como soma de todos os males porque, já se sabe, vivemos no melhor dos mundos possíveis.

Pois bem, é contra este tipo de visão, demasiado redutora, das utopias que me parece útil alertar. Em primeiro lugar, há que mencionar a amplitude semântica da noção. Fátima Vieira [4] recorda que a própria palavra “utopia” foi, em 1516, um neologismo inventado por More e que, desde então, não cessou de ir progressivamente transformando o seu significado. Em segundo lugar, talvez uma das funções mais importantes da utopia seja justamente o grau de descolagem da realidade atual que permite; se é verdade que alguma arte imita a vida, também não deixa de o ser que as próprias possibilidades da vida (ou da sociedade, ou do mundo) só se tornam realmente concebíveis se conseguirmos compreender que alguns aspetos da nossa realidade são mesmo contingentes e sujeitos a mudança. Por outras palavras: que admitem alternativas, já que são fruto da decisão humana, singular ou coletiva.

Mas como pode conceber alternativas quem nunca fez esse esforço de (nem que seja mínimo) afastamento da realidade atual, seja isso por ignorância ou por obstinação? Digamos, então, o seguinte. Parece possível haver uma virtude da utopia; e, a existir, essa virtude estará, talvez, na “justa distância” [5] que se pode ter em relação ao estado atual das coisas. Porquê chamar-lhe justa (no sentido de adequada)? Porque não deve ser uma distância tão grande que nos faça perder de vista onde estamos. Mas também não deve ser tão pequena que não nos permita sequer contemplar o que está para lá dela. E é isto que as utopias, as boas utopias, permitem fazer. Ver no presente, o futuro; no próximo, o longínquo. Mesmo que estas boas utopias sejam más utopias. Isto é, mesmo que sejam distopias e por isso nos mostrem, a contrario, o resultado que provavelmente não queremos, mas que talvez não possamos evitar, se as coisas continuarem a seguir determinado curso.

A que se deve, então, esta má reputação da utopia? Simplesmente ao facto de ela ser geralmente perturbadora para o estado de coisas a cada vez constituído, e para aqueles a quem ele possa beneficiar. Esse é o motivo pelo qual Ricoeur coloca a utopia como o contrário da ideologia [6]. Caso as ideologias se tornem patológicas e deixem de conceber e admitir alternativas, aquilo que precisamos é de boas utopias que as possam desmistificar. Porque o facto é que as utopias são sempre, até certo ponto, políticas, mesmo quando não o pretendem ser explicitamente. São-no porque nos mostram possibilidades de ação, mostram-nos mundos que poderiam ser os nossos.

Hoje, as boas utopias seriam talvez aquelas que podemos capturar através do oxímoro da expressão “utopias realistas”, tornada famosa por Erik Olin Wright [7]. Uma utopia realista será aquela que nos mostra que existem opções que, à partida, até podem parecer descabidas mas que podem ser reconduzidas à nossa realidade concreta. Que, por vezes, mais não fazem que propor soluções práticas e inovadoras para ideais antigos, sejam eles a realização no trabalho ou a concretização da democracia.

Celebremos, pois, a utopia, e cultivemo-la; pois só quem vê mais longe consegue perceber para onde se encaminha.

Notas

[1] More, Thomas (2002), Utopia, Cambridge: Cambridge University Press [data original de publicação: 1516].

[2] A 17ª Conferência da Utopian Studies Society Europe, intitulada 500 Years of Utopias, terá lugar em Lisboa, de 5 a 9 de Julho. Veja-se http://uss2016.fcsh.unl.pt/

[3] A edição de 2016 do Folio – Festival Internacional de Literatura de Óbidos, de 22 de setembro a 2 de outubro, é dedicada ao tema da utopia.

[4] Vieira, Fátima (2010), The Concept of Utopia, In G. Claeys (Ed.) – The Cambridge Companion to Utopian Literature, Cambridge: Cambridge University Press, pp. 3-27.

[5] Noção desenvolvida por Ricoeur, Paul (1995), Le Juste, Paris: Esprit, e inspirada no trabalho de Garapon, Antoine (1996), Le gardien des promesses, Paris, Odile Jacob.

[6] Ricoeur, Paul (1986), Lectures on Ideology and Utopia, New York: Columbia University Press.

[7] Olin Wright, Erik (2010), Envisioning Real Utopias, London: Verso.

.

.

Esta entrada foi publicada em Cidadania, Desigualdades e Participação Social com as tags , , . ligação permanente.

Uma Resposta a Reabilitação da Utopia

  1. Pingback: 2ª Série de 2016 de Artigos de Opinião (junho de 2016) | Instituto de Sociologia da Universidade do Porto

Os comentários estão fechados