O Virar da Página

Dimensão analítica: Mercado e Condições de Trabalho

Título do artigo: O Virar da Página

Autor: Alfredo Mendes

Filiação institucional: Jornalista

E-mail: alfredomds@gmail.com

Palavras-chave: Precariedade, Jornalismo.

O poder foi ladino. Iludiu os jovens com uma profissão recheada de glamour, as mais longas e variadas viagens e influências, contactos com mediáticas figuras e figurões, e disponibilizou-lhes tablets, notebooks, smarphones, gravadores digitais. Depois, havia de prodigalizar razoáveis doses de jactância, reboliçando-lhes o ego com um futuro límpido e solar na grande, fascinante e prodigiosa ribalta da consagração.

E os jovens, tantos deles em estado de encantamento, em plena planície do deslumbre, deram entrada nas redacções borrifando-se para os direitos sociais, algo que lhes tresandava a mofo das velhas e revelhas bandeiras das lutas sindicais enroladas no sótão dos pais. E assim, rejubilante, o poder neoliberal reduziu recursos humanos, exterminou gerações de profissionais cientes do terreno que pisavam, e decretou o trabalho precário que afecta actualmente mais de metade dos jovens jornalistas portugueses.

Terceira vaga, tecnologia, competitividade – a triologia então deificada. A solidão desforrando-se no exarcebado consumismo, na faiscante espuma do supérfluo. O vagantio. Bombardeamento de informação, alarmante falta de comunicação e de reflexão. Dita o ecrã – novo oráculo – obedece, venerando, o cidadão a caminho do embrutecimento e da infantilização.

Medias, paradigmas, conteúdos, sinergias, concentração de empresas, mercados. A petulante linguagem do economês soletrada pelos novos detentores do grande capital concubinados com a política e as golpadas na banca, E não foram poucas as instituições respeitáveis e credíveis, portadoras de um precioso património cultural e afectivo a caírem que nem figos maduros na manápula de gentinha boçal e arrogante, de gelatinosa soberba, posto proliferarem na bolsa das oportunidades viveiros de tartufos e untuosos bandos de chico-espertos.

Eis o virar da página.

A regressão civilizacional.

Tempo neurasténico e amnésico. Pútrido. Entronizado, o jornalismo de parva distracção, a indústria do entretenimento, o estudado alienatório. Quanto mais escabroso, mais popular, mais rentável. A deliquescência sobre a consciência. O enredo substituindo a história. E quanto mais superficial, sórdido, idiota, frívolo e coscuvilheiro, melhor. Muito melhor. Yes! O jornalismo light a parir o reality show.

Para tanto, o poder conta com meia-dúzia de profissionais bem remunerados que coordenam este género atípico de trabalho: o precário. Precário=Preçário. Uma simples cedilha diz tudo. É a designada gestão de mercearia, gananciosa e desumana assente na insegurança social, no medo de a qualquer momento o jornalista poder ser despedido. Questão pessoal e de cidadania. Um jornalista condicionado, forçosamente obediente, usando, até, de auto-censura, vive a sórdida tristeza, o sufoco do fim do mês, mas também corporiza uma séria e perigosa ameaça para o oxigénio da sociedade: a Liberdade.

A malfadada austeridade para cobrir os desvarios dos mercados, o desemprego que gere, a desregulação no trabalho que encoraja criaram, assim, esta nova classe (?) que também povoa as redacções. Com a conivência das editorias e direcções, com a aceitação dos próprios visados que encaram a situação como mal menor, os precários servem de pau para toda a colher na sustentabilidade dos jornais. Não têm direitos, horários de trabalho, não recebem um ordenado compatível com a actividade desenvolvida. Vivem no quotidiano a instabilidade, a incerteza que lhes hipoteca um futuro planeado, seja um legítimo e essencial projecto de vida: a autonomia, o aluguer ou compra de habitação, o nascimento de filhos, apesar do poder apregoar, hipócrita e cínico, o vertiginoso envelhecimento da população, preconizando apoios à natalidade.

Com o perpassar do tempo – esse imutável juiz da sociedade – os precários sentem-se descartáveis. E questionam a submissão ovina, começam a encarar com olhar menos turvo as acções inspectivas. E ficam perplexos como uma empresa tão ciosa em escrutinar as maleitas da sociedade, as múltiplas ilegalidades laborais, consegue ela própria digerir semelhantes malogros, procedendo, inclusive, à fuga dos precários pelas escadas de emergência quando, súbito, a fiscalização surge na portaria. Que imagem!… Quando, pelo que publicam, os jornais deveriam assumir o papel de exemplo.

Nesta regressão civilizacional, os precários começam por tomar consciência da sua débil condição. O conformismo e o fatalismo tornam-se insuportáveis. A desesperança revolta. Pretendem a dignificação do seu desempenho, o cumprimento dos princípios éticos e deontológicos, pretendem a inclusão no quadro da empresa que investe mais em material do que nas pessoas. Rejeitam uma política refém dos grandes interesses económicos que só em Portugal soma à volta de 1,3 milhões de precários que recebem cerca de 60 por cento do ordenado dos restantes trabalhadores.

O esvaziamento das redacções, a sua perda de memória, a sua despersonalização, a sua dependência dos grandes grupos económicos preocupam jornalistas e leitores esclarecidos. Só através de homens e mulheres livres de quaisquer tipos de constrangimentos e com sólido vínculo contratual é possível um jornalismo isento, limpo, construtivo, credibilizando as empresas que se dedicam a esta tão nobre e vital actividade humana que informa e forma os cidadãos.

Com todo o respeito pelo labor nos call center e nos demais empregadores com eles aparentados, a precariedade no jornalismo assume uma gravidade extrema. Relaciona-se com a arquitectura do próprio Estado e a saúde da democracia. Estamos no domínio do pensamento, da difusão de ideias, opiniões, comportamentos e valores éticos. Não se trata de mera mercadoria, tão-pouco de mercantilizar notícias, reportagens, crónicas, simples espaços de distracção. Menos ainda, de recrutar o mercenarismo para a execução dos trabalhos sujos.

O jornalismo faz parte da seiva da sociedade. Molda e influi posturas, escolhas, em suma, maneiras de ser e de estar no tronco da vida. Daí os proprietários das empresas do sector não poderem enformar a mesma mentalidade de um gestor de uma fábrica de salsichas ou de uma multinacional de componentes electrónicos. A responsabilidade do jornalista, essa, é incomensurável; respeita à trajectória das sociedades, com as suas grandezas e misérias, prodígios e descalabros. Por isso o jornalista, com as suas fraquezas e genicas, letrado ou básico, orientado pelo sentido da justiça, ter de assumir o seu papel de porta-voz do pulsar da comunidade. Deverá, consciente das suas funções, livre e estável, de dirigir o seu empenho aos cidadãos, na firme convicção de contribuir para um mundo mais limpo, mais livre. Razão porque a precariedade nas empresas jornalísticas merece cada vez mais notícia de primeira página.

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