Família e comportamentos sociais na adolescência: dimensões estruturais e relacionais

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclo de Vida

Título do artigo: Família e comportamentos sociais na adolescência: dimensões estruturais e relacionais

Autora: Alice Murteira Morgado

Filiação institucional: Bolseira de Doutoramento (FCT), Doutoranda na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.

E-mail: alicemmorgado@gmail.com.

Palavras-chave: família, sociedade, comportamento.

O papel da família é crucial para o desenvolvimento de comportamentos sociais na infância e adolescência, já que é no seu seio que a criança terá as primeiras experiências de contacto social e desenvolverá modelos relacionais. Por outras palavras, é na família que a criança tem oportunidade de aprender e ensaiar interacções sociais, pelas quais, sendo reforçada ou punida, poderá identificar os comportamentos que são mais e menos aceitáveis no futuro. O estudo da família no âmbito dos comportamentos sociais é, pois, um elemento chave para compreender fenómenos como os comportamentos anti-sociais na adolescência, um período de desenvolvimento em que a relação entre pais e filhos exige a conjugação de doses equilibradas de apoio e controlo, mas também de liberdade para exploração da autonomia dos filhos [1]. Note-se, ainda, que a influência da família parece ser mais forte durante a infância em comparação com a adolescência, já que neste estádio de desenvolvimento mais tardio, o papel da escola e dos pares emerge, enquanto os jovens tenderão a passar menos tempo com as suas famílias. Nesta etapa, de facto, os pais poderão ser menos eficazes na relação com os filhos, tendo menor controlo sobre os seus comportamentos.

Face às mudanças sociais, económicas e culturais a que assistimos, o conceito de família tem vindo a sofrer variadas e profundas alterações no que concerne aos seus valores, modelos e funções e, com estas, as experiências dos seus elementos são inevitavelmente diferenciadas. Com efeito, são múltiplos os novos desafios, não só no que diz respeito a aspectos sócio‑económicos, mas também no que concerne às relações e aos papéis que se estabelecem no seio dos novos núcleos familiares. Os elementos da família, em especial os filhos, encaram a necessidade de abertura a novos laços e relações, tendo de se confrontar com uma maior diversidade de papéis, normas familiares e culturas. Paralelamente, a aparente escalada de comportamentos anti-sociais – definidos como comportamentos que violam normas sociais destinadas à promoção do respeito e consideração pelos outros e pela sua propriedade [2] – na adolescência e sua crescente mediatização, levam-nos a reflectir sobre o potencial efeito da família – e de todos os desafios que enfrenta – nestas mesmas condutas.

Neste sentido, diversos estudos têm apontado para o papel de variáveis estruturais, como o divórcio ou a monoparentalidade no ajustamento dos comportamentos sociais dos filhos. Todavia, o papel destes factores relacionar-se-á mais com o conflito e instabilidade familiar envolvidos numa situação de separação do que com o facto em si. A este propósito, um estudo de Foster et al. [3] concluiu que o maior risco para o ajustamento social dos filhos surge da instabilidade familiar, já que filhos de famílias monoparentais estáveis apresentavam menor risco de condutas desviantes que filhos de famílias em conflito. Ainda do ponto de vista estrutural, factores como a dimensão do agregado familiar (e.g. número elevado de filhos), a idade e estado civil da mãe (e.g. mãe solteira e adolescente), ou o ambiente social (desfavorecido) em torno da família têm sido referidos como factores relacionados com uma maior propensão para comportamentos anti-sociais. Novamente, será precipitado assumir a existência de um papel directo destas características. Pelo contrário, estes aspectos serão mediados pelas condições de vida que lhes estão associados, ou seja, não serão as características estruturais em si, as potenciadoras de comportamentos sociais desajustados, mas antes as circunstâncias com elas relacionadas. Por outras palavras, “uma grande parte do risco para comportamentos anti-sociais associado à pobreza e desfavorecimento social é mediado pelos efeitos adversos do stress económico prolongado (e condições que dele advém) no funcionamento familiar” [4].

Não obstante a importância de um olhar atento sobre as variáveis de cariz estrutural, que nos dão pistas relevantes quanto a situações de maior ou menor risco à partida, há que considerar igualmente os factores do ambiente familiar. Efectivamente, muita da literatura disponível refere que, independentemente das características estruturais da família, é o modo como os seus elementos interagem que irá influenciar o desenvolvimento dos filhos e, em particular, os seus comportamentos sociais.

Assim, mais do que analisar as especificidades estruturais dos novos agregados familiares, importará centrarmo-nos no modo como os elementos da família se relacionam e na qualidade dessas mesmas relações. De facto, diversos estudos têm vindo a demonstrar a existência de factores que diminuem o risco de desenvolvimento de condutas desviantes na infância e adolescência. Em particular, a supervisão e monitorização, o desenvolvimento de um sentido de controlo interno nos filhos, a implementação de uma disciplina consistente, o controlo e estratégias de resolução de problemas na família são apontados como elementos importantes para a prevenção de comportamentos anti-sociais. Além destes, a qualidade dos laços emocionais entre pais e filhos poderá também funcionar como factor protector, especialmente quando o ambiente familiar é pautado por uma atmosfera positiva, onde exista cooperação, responsividade, capacidade de chegar a decisões conjuntas e padrões de comunicação explícitos e sem ambiguidade [4]. Fica, então, bem clara a importância das práticas de gestão familiar e de aspectos afectivos como factores potencialmente promotores de comportamentos sociais ajustados.

Em conclusão, as relações familiares assumem um papel fundamental para o desenvolvimento social dos filhos, podendo, não só, prevenir o desenvolvimento de condutas sociais desajustadas, mas também mitigar potenciais efeitos adversos de eventuais características estruturais com maior risco associado. Assim, ao olhar a família na sociedade actual, importa evitar juízos precipitados, privilegiando, acima de tudo, a qualidade das relações entre os seus elementos, em detrimento de rótulos estruturais.

Notas

[1] White, Rachel;  Renk, Kimberly (2012), Externalizing Behaviour Problems During Adolescence: An Ecological Perspective, Journal of Family and Child Studies, 21, pp. 158-171

[2] Kagan, Jerome (2004), Comportamento Anti-social: Contributos Culturais, Vivenciais e Temperamentais. In A. C. Fonseca (Ed.) – Comportamento anti-social e crime: Da infância à idade adulta, Coimbra: Almedina, pp. 1-10.

[3] Foster, Holly; et al. (2010), Specifying Criminogenic Strains: Stress Dynamics and Conduct Disorder Trajectories, Deviant Behavior, 31:5, pp. 440-475.

[4] Rutter, Michael; Giller, Henri; Hagell, Ann (1998), Antisocial behavior by young people. Cambridge: Cambridge University Press.

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