As afiliações militantes nos estudos sobre juventude: os conceitos de individualização, desestandardização e reversibilidade

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclo de Vida

Título do artigo: As afiliações militantes nos estudos sobre juventude: os conceitos de individualização, desestandardização e reversibilidade

Autora: Magda Nico

Filiação institucional: Investigadora de Pós-Doutoramento, Centro de investigação e Estudos em Sociologia, Instituto Universitário de Lisboa (CIES – IUL)

E-mail: magda.nico@iscte.pt

Palavras-chave: individualização, desestandardização do curso de vida, estudos sobre juventude.

Os estudos sobre juventude estão contaminados por argumentos circulares. É raro o artigo ou capítulo de livro sobre jovens, juventude ou transições para a vida adulta que não tenha início na assunção dos (alegados) crescentes e emergentes processos de individualização, desestandardização e reversibilidade dos cursos de vida. Começa-se, portanto, pelo fim. No lugar daquilo que devia ser o objeto ou a conclusão do estudo, apresenta-se a premissa de que os cursos de vida são atualmente mais desestandardizados, plurais, diferenciados, reversíveis e menos lineares do que no “passado”, viciando-se com esta prática, talvez irreversivelmente, o rumo dos estudos sobre juventude [1].

Na ilustrativa, composta e densa afirmação parafraseada anteriormente estaria implícito (i) um exercício diacrónico (para a detecção de padrões mas também de “anomalias históricas”); (ii) o uso de dados extensivos de natureza representativa (de um dado território também ele de alguma forma representativo pelo menos das sociedades ocidentais), e ainda (iii) a verificação da indissociabilidade entre os vários fenómenos “socio-demográficos”. Contudo, o que se verifica é que os tais argumentos e análises avançam frequentemente sem recurso a comparações geracionais (a fonte exclusiva de informação é a geração “atual” dos jovens), num contexto de quase monopólio dos métodos qualitativas e intensivas (fazendo dos ditos fenómenos não mais do que artefactos metodológicos), e ainda sem qualquer preocupação séria com a separação analítica dos fenómenos que acabam por ser, então, encarados e abordados como equivalentes, indissociáveis e auto-evidentes (tornando-se também agentes de reforço mútuo).

O debate em torno destas questões é acesso. Verdadeiras bulhas teóricas estão patentes em secções de debates de jornais da especialidade como o Journal of Youth Studies ou o Youth and Society, como é o caso da crítica sistemática de Bynner (e outros) [2] ao perigoso protagonismo do conceito de “emergente adulthood” de Arnett, precisamente por este subestimar a variabilidade geográfica, social e temporal dos processos contemporâneos de transição para a vida adulta; e o caso do debate teórico em torno da validade e utilidade da teoria da individualização de Beck para os estudos sobre juventude, bem patente no título de um dos artigos de Roberts de resposta a Woodman “One step forward, one step Beck” [3]. São ainda patentes, embora menos, na arena metodológica (infelizmente paralela), onde são discutidas e confrontadas algumas das vantagens e limitações de técnicas estatísticas que seguem os paradigmas da causalidade (como o event history analysis) e dos que seguem o da descrição holística (como o sequence analysis) [4]. Porém, apesar de acessos, ainda estão por se tornar visíveis, ou consequentes, os efeitos destes debates.

São vários os factores que contribuem para a manutenção desta circularidade científica. Um está relacionado com o uso indissociável e indiferenciado de conceitos/fenómenos como a desestandardização, pluralização, diferenciação, reversibilidade (ou interruptabilidade) e, por fim, individualização [5]. A individualização, um conceito meramente interpretativo segundo alguns autores, acaba por dar nome ao “pacote” sob qual todos estes conceitos são abordados como se fossem equivalentes e iguais partes constitutivas de uma espécie de novas vagas biográficas. A abordagem da contemporaneidade em “pacote” não permite então a distinção analítica, nem a consequente análise, da complexidade e heterogeneidade das relações entre os fenómenos [6]. A desestandardização do curso de vida pode dar-se sem se verificar pluralização, a diferenciação sem a reversibilidade, etc..

Um segundo aspecto tem que ver com a hiper-especialização no campo dos estudos sobre juventude [7] que para além de compartimentar este período da vida dos indivíduos por esferas (transições escola-trabalho, transições familiares, transições residenciais, etc.), também tem efeitos na arena metodológica separando os estudos qualitativos e etnográficos das pesquisas quantitativas e, no interior destas, os que praticam o paradigma da causalidade e os que praticam o da descrição das sequências dos acontecimentos, fragmentando, desta forma, macro-conclusões que poderiam ser retiradas e debatidas sobre as transições para a vida adulta na contemporaneidade. Um terceiro factor, por fim, pode ser denominado de “temporal-centrismo” e caracterizado por um ainda relevante afastamento entre os estudos sobre juventude e a abordagem necessariamente geracional. Na ausência crónica de comparação diacrónica ou geracional, maior a propensão para os cursos de vida analisados parecerem singulares, caóticos, “desestandardizados” ou “de escolha” [8].

Notas

[1] Nico, Magda  (no prelo),  “Beyond  ‘Biographical’ and  ‘Cultural  Illusions’  in  European  Youth  Studies: Temporality and Critical Youth Studies”, em Peter Kelly e Annelies Kamp (Eds.), Critical Youth Studies for the 21st century, Brill.

[2] Bynner, John (2005), “Rethinking the Youth Phase of the Life-course: The Case of Emerging Adulthood?”, Journal of Youth Studies, vol. 8 (4), pp. 367-384.

[3] Roberts, Steven (2012): “One step forward, one step Beck: a contribution to the ongoing conceptual debate in youth studies”, Journal of Youth Studies, 15 (3), pp. 389-401.

[4] Aisenbrey, Silke e Anette E. Fasang (2010), “New Life for Old Ideas: The “Second Wave” of Sequence Analysis Bringing the “Course” Back Into the Life Course”, Sociological Methods & Research, vol. 38 (4), pp. 420-462.

[5] Brückner, Hannah e Karl Ulrich Mayer (2005), “De-Standardization of the Life Course: what it might mean? And if it means anything, whether it actually took place?”, Advances in Life Course Research, vol. 9, pp. 27-53.

[6] Nico, Magda (2011), Transição Biográfica Inacabada. Transições para a Vida Adulta em Portugal e na Europa na Perspectiva  do  Curso  de  Vida,  Tese  de  Doutoramento,  Departamento  de  Sociologia,  Instituto  Universitário  de Lisboa.

[7] Lahire, Bernard (2007) “Infancia y adolescencia: de los tiempos de socialización sometidos a constricciones múltiples ”, Revista de Antropología Social, Vol. 16: 21-37.

[8] Beck, Ulrich (1992), Risk Society. Towards a New Modernity, London, Sage.

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