Expectativas face ao Casamento e à Família: Significados de jovens oriundos de famílias recompostas

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Expectativas face ao Casamento e à Família: Significados de jovens oriundos de famílias recompostas

Autora: Cristina Cunha

Filiação institucional: Socióloga e investigadora (Instituto de Sociologia: Faculdade de Letras da Universidade do Porto)

E-mail: cristinacunha.m@gmail.com

Palavras-chave: Expectativas, casamento, família, jovens.

Quando olhamos os indicadores demográficos, fica a ideia de que a importância da família e do casamento está a perder visibilidade. No entanto, os estudos revelam que a forma de encarar e viver o casamento e a família mudou. Aliás, hoje, casa-se “(…) «de outra maneira», com outros valores. Valores que enfatizam mais os laços interpessoais do que a dimensão institucional do casamento” [1].

Apesar de, o casamento e a família terem significados distintos, são duas realidades inseparáveis visto que nos remetem para a ideia de uma união (de direito ou de facto) entre duas pessoas [2].

Várias pesquisas advertem que a transmissão intergeracional do divórcio pode ocorrer através da influência dos pais sobre as atitudes dos jovens na fase adulta [3]. Assim, considerando que as famílias tendem a exercer uma forte influência para a conformidade e/ou continuidade comportamental como ainda para a adoção de valores, modelos e crenças semelhantes, entendemos pertinente perceber se os jovens que experienciaram a recomposição familiar, assumem essa intenção em casar e constituir família.

O casamento já não é uma imposição geral, social ou jurídica mas uma opção livre. Hoje, “Casar ou coabitar parece ser uma opção comandada por várias circunstâncias, entre as quais a que se refere ao que se considera serem os comportamentos adequados ao género” [4]. A forma como os jovens de famílias recompostas encaram o casamento é, sem dúvida, mais direcionada para a valorização dos afetos do que propriamente para a validação da instituição. Contudo, apesar da instituição do casamento sofrer vários abalos, tal fenómeno não invalida que as pessoas queiram casar (pelo menos uma vez na vida). Mesmo face às desilusões e às problemáticas que o divórcio dos pais traz, sobressai, no discurso de jovens entrevistados (oriundos de famílias recompostas), uma valorização da continuidade da família e do casamento. Dito de outro modo, os jovens estudados afirmam que o projeto de casar e formar uma família faz parte das suas vidas.

É interessante, ainda, perceber que as expectativas destes jovens em relação ao casamento apresentam-se sob duas formas. Para uns, o casamento expressa a revelação do sentimento para com o outro. Por conseguinte, acredita-se “na continuidade das actuais relações afectivas, sejam elas de recasamentos ou de coabitações, até ao fim das suas vidas” [5]. Porém, mais do que o desejo de casar formalmente, é o querer estar com aquela pessoa especial em que a dimensão do afeto assume um caráter de relevo para se ser feliz:

“(…) Casamento é apenas uma data de papéis assinados, é apenas isso. O que interessa é o sentimento que há entre duas pessoas e não é preciso a aprovação da Igreja ou aprovação do Estado para ser ainda mais forte ou para ser reconhecido” (Tiago, 18 anos).

“Eu penso que o casamento é uma coisa que dá muito trabalho e se gasta muito dinheiro (…) Eu acho que nunca me vou casar (…) Não é o casamento que faz o pacto para a vida mas é a predisposição das pessoas para viver uma relação juntos, viverem juntas, estarem unidas pelo sentimento e não pelo papel” (Maria, 18 anos).

Para outros jovens, o casamento “corresponde a um ritual de passagem dos jovens da casa dos pais para a vida adulta (…)” [6]. Exemplo disso, são os testemunhos de dois jovens:

“O casamento é para mim sagrado. Acho que é uma prova de amor. Espero casar sim e ser feliz. A minha mãe casou com o meu padrasto e sei que ela é feliz e isso é o mais importante” (Catarina, 14 anos).

“Gostava muito de me casar! Não sou pessoa para ficar juntos (…). Vou optar pelo casamento” (Rui, 19 anos).

Como já evocada na literatura, a família não está em extinção mas sim em transformação. No entanto, muitos são os estudos que classificam a família nuclear (intacta) como tipo ideal. Embora o termo ideal pareça ser, muitas vezes, entendido como o normal e ao qual as pessoas procuram obedecer, é visto como a melhor forma que se deve adotar na vida familiar [7]. Com este conceito, quisemos apreender como os jovens de famílias recompostas idealizam a família. Concluímos que, apesar de as suas experiências de vida serem diversificadas, o modelo da família nuclear (intacto) configura-se como um pilar de referência. No entanto, nos seus discursos, percebemos que não existe uma única definição de família ideal. Tal decorre das suas vivências em configurações familiares complexas e cujas fronteiras são cada vez mais híbridas do ponto de vista dos papéis parentais e filiais.

“A minha verdadeira família é essa onde eu vivo e partilho tudo. É a minha mãe, o meu padrasto, os filhos deles que eu considero como meus irmãos e tenho esse sentimento” (Catarina, 14 anos).

“As duas. (…) Eu posso ter o melhor dos dois. Eu tenho uma família biológica mas está separada mas tudo aquilo que me é transmitido é igual, tenho uma família recomposta que, quer dizer, o meu pai continua a ser o mesmo, a mulher do meu pai trata-me super bem, tenho o meu irmão, tenho uma irmã que ganhei e tenho a minha mãe (…) Ambas completam-me” (Maria, 18 anos).

“Gostava que o meu pai e a minha mãe vivessem juntos porque sei que também com isso eles seriam diferentes, isto é, que a minha mãe equilibrava o meu pai e o meu pai dava mais ânimo à minha mãe. Essa sim, é a minha verdadeira família.” (Luís, 18 anos).

“Para mim, o meu pai e a minha mãe são a minha família (…). Por isso, para mim a verdadeira família é querer viver com os meus pais juntos e como isso não acontece, vivo dividida entre a família com a minha mãe e com a família do meu pai” (Patrícia, 16 anos).

“Tenho a família da minha mãe e a do meu pai. São ambas diferentes. Têm formas de vida diferentes. Tenho duas famílias. Cada uma com a sua forma de viver. Mas não acho que seja mesmo aquela coisa de dizer que uma é a minha verdadeira família” (Francisca, 18 anos).

Em suma, crescer numa família recomposta, tornou-se uma experiência cada vez mais comum traduzindo-se numa manifesta evolução das famílias contemporâneas. Para além da particularidade estrutural da família recomposta, este modelo também se destaca pela diversidade no seu funcionamento.

Notas:

[1] Torres, A. (1999) “Aumento do divórcio, mudanças na família e transformações sociais”. Actas dos V Cursos Internacionais de Verão de Cascais. Câmara Municipal de Cascais, (4), pp:72).

[2] Torres, A. (2001). Sociologia do Casamento: A Família e a Questão Feminina. Oeiras: Celta Editora.

[3] Faust, K. A. & Mckibben, J. N. (1999). “Marital Dissolution: Divorce, Separation, Annulment, and Widowhood, in M. SUSSMAN, STEINMETZ, S. & PETERSON, G., (Ed.). Handbook of Marriage and the Family. New York: Plenum Press, pp. 475-499.

[4] Torres, A. (1996). Divórcio em Portugal: Ditos e interditos. Oeiras: Celta Editora, pp. 203.

[5] Lobo, C. (2006). Recomposições Familiares: Dinâmicas de um processo de transição. Lisboa: Tese de Doutoramento em Sociologia, Lisboa: ISCTE, pp. 193.

[6] Lobo, C. (2006). Recomposições Familiares: Dinâmicas de um processo de transição. Lisboa: Tese de Doutoramento em Sociologia, Lisboa: ISCTE, pp. 189.

[7] Bernardes, J. (1997). Family Studies: An Introduction. London: Routledge.

 

 

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