Dimensão analítica: Saúde
Título do artigo: Sexualidade e crise económico-social
Autor: António Santos Pereira
Filiação institucional: Médico/psiquiatra
E-mail: antoniostpereira@hotmail.com
Palavras-chave: sexualidade, crise e saúde.
É pacífico aceitar que, para além das óbvias funções reprodutivas, a sexualidade seja também função de relação e de prazer.
É uma forma de dar e receber amor, carinho e gratificação e um factor de equilíbrio emocional, pessoal e relacional. Ter uma sexualidade gratificante faz parte do conceito de Saúde da O,M,S.
Para que ela seja gratificante são necessários pré-requisitos, tais como a saúde física, que permita que o processo neurofisiológico que lhe subjaz esteja íntegro; saúde mental, que garanta a integração harmoniosa da experiencia emocional que ela também contém; disponibilidade (de tempo, afectiva, psicológica…) que predispõe para a interacção, entre muitos outros, porventura menos evidentes, mas igualmente importantes.
A resposta sexual humana basicamente consiste em 3 fases. A primeira é o desejo, ou seja, a vontade de iniciar e manter actividade sexual. É um estado psicofisiológico motivacional (como a fome ou a sede, ainda que menos intenso) que obedece a uma hierarquia de estímulos: fantasias (cognições imaginadas que estimulam a actividade sexual) e anti fantasia, que agem no sentido inverso (como, por exemplo, a conotação desta com a culpabilidade, o medo de falhar, qualquer tipo de ansiedade ou preocupação – relacionada com a sexualidade ou não – contexto de vergonha ou de dificuldades com a intimidade entre muitas outras). Muitos destes factores de perturbação resultam do desconhecimento da psicofisiologia da sexualidade.
Quando o desejo leva a iniciar uma interacção sexual, esta provoca uma nova fase – a excitação, que basicamente se manifesta, no homem saudável, pela erecção e, na mulher, mais notavelmente pela lubrificação vaginal. Isto prepara para a relação coital. É importante saber que a excitação é, em ambos os sexos, absolutamente independente da vontade e, para complicar as coisas, eminentemente perturbável por qualquer tipo de medo ou ansiedade (nesta fase têm também papel de relevo as anti fantasias, nomeadamente a tristemente famosa ansiedade de desempenho). Todas as preocupações, quer tenham a ver com a saúde (nossa, ou dos nossos próximos) com o trabalho, com as relações sociais ou de vida, são perturbadores potenciais da normal resposta sexual.
Entram aqui, muito directamente, as que derivam da crise que atravessamos. Por outro lado, muitas pessoas, em resposta a estas inesperadas dificuldades, deprimem e estar deprimido significa, além do mais, perder o gosto pela vida e pelos prazeres que ela oferece. É essa a razão porque só muito raramente é que a sexualidade não é afectada pela depressão e é mesmo frequente serem as queixas sexuais as mais relevantes que as pessoas deprimidas nos apresentam – sobretudo os homens, tendencialmente mais perturbados pela disfuncionalidade sexual.
Há ainda uma terceira fase da resposta sexual humana – o orgasmo – que pode ser afectado por muitos factores, mas mais raramente pelos de origem psicológica ou emocional.
Estas foram algumas considerações – demasiado sucintas, excessivamente básicas, evidentemente redutoras… – que podem fazer vislumbrar as relações entre a sexualidade e a turbulência económico-social que vivemos. Não tive a pretensão de ensinar rigorosamente nada, apenas focar uma área que tem importância nas nossas vidas e sobre a qual frequentemente sabemos pouco exactamente por julgarmos saber tudo. Ou por crermos não valer a pena saber mais…
Para terminar: já suspeitávamos que esta crise não faz bem nenhum à saúde. Nem à sexual, por desgraça… É, pois, preciso acabar com ela o mais rapidamente possível. Quando é que aparecem as pessoas crescidas para tratar disso?




