Dimensão analítica: Desporto
Título do artigo: No tempo dividido: sem máscaras e ilusões
Autora: Teresa Marinho
Filiação institucional: Faculdade de Desporto da Universidade do Porto
E-mail: tmarinho@fade.up.pt
Palavras-chave: Desporto, educação, praxis e ethos
Concordo com a seguinte afirmação de Eugénio de Andrade [1]: “o homem do nosso futuro não me interessa desfigurado”. Não me interessa um homem sem essência e sem rumo. Um homem sem alma e sem amor. Um homem seco e invertebrado que se arrasta com pesar, roçando a mediocridade e abanando as orelhas abnegadamente ao mais simples olhar de fúria e presunção. Não! Não é definitivamente este homem que quero ver no futuro.
Quero sim ajudar a edificar um homem que viva fervorosamente ideais de fraternidade e solidariedade. Que sinta a percorrer-lhe pelas veias um jacto de esperança e dignidade, sem nunca perder o rumo, sem nunca se sentir perdido, sem nunca desistir do Outro e da capacidade de amar incondicionalmente. Precisamos mais do que nunca de amor. De escutar quem de nós precisa, de parar de quando em quando e partilhar o nosso sentido de humanidade, que parece ter-se esfumado nesta tão fervorosa crise axiológica que por aí tende a pulular.
Pois é. Não há tempo. Não há tempo para contemplar o que nos faz falta. Vivemos apressadamente, sem darmos conta que o tempo passa e não pode jamais ser reposto ou sequer chamado à atenção. Os anos passam e somos levados pela corrente da imposição, vivendo frívola e egoisticamente, olvidando a verdadeira razão de existir, de ser e de estar, de sentir e de amar. Daí o suspiro poético de quem nos sente e conhece, de quem vê nas entrelinhas a nossa angústia e o nosso medo, de quem sabe o que é viver amarguradamente, por se saber finito e mortal, rodeado de miséria e podridão. Sem alento, sem um murmúrio, sem exigência ou determinação:
Passamos pelas coisas sem as ver, Gastos como animais envelhecidos; Se alguém chama por nós não respondemos, Se alguém nos pede amor não estremecemos: Como frutos de sombra sem sabor Vamos caindo ao chão apodrecidos. Eugénio de Andrade [2]Faz falta começar a ver as coisas. A cuidar da dignidade do humano. Atribuindo-lhe valor e integridade. Apurando-lhe a sensibilidade ética e estética e levando-o a acolher quem se apresenta e se figura na sua totalidade. Estamos a ser levados na corrente da banalidade e da palavra sem expressão. À deriva vamos vivendo, cegos e apáticos, vampirizados pelo embuste e pela corrupção de homens engravatados que nos limitam na acção e no pensamento. Já dizia Eça de Queirós que a crise nacional era de carácter, no entanto no mesmo patamar podemos situar uma crise ao nível da cultura e da educação. Grassa a mediocridade neste país sem rumo espiritual. Grassa a covardia e a ausência de afecto. Grassa a destruição do cuidado, que se apresenta como um sopro divino na vida do ser humano.
Definitivamente não estamos a cuidar as gerações futuras. Não estamos a permitir que respirem em liberdade. Não estamos a conceder espaço para que possam reinventar as nossas peugadas e os nossos sonhos. Simplesmente somos demasiado covardes para isso. A nossa preocupação primordial centra-se no resultado imediato, apesar de impreciso; recai para a vaidade que se apresenta sem vergonha, sem honra, sem dote; alimenta-se de um materialismo sem precedentes que nos faz vender a alma ao diabo.
Por isso trago ao diálogo Hanna Arendt [3]: “É justamente para preservar o que é novo e revolucionário em cada criança que a educação deve ser conservadora. Ela deve proteger a novidade e introduzi-la como uma coisa nova num mundo velho, mundo que, por mais revolucionárias que sejam as suas acções, do ponto de vista da geração seguinte, é sempre demasiado velho e está sempre demasiado próximo da destruição”. Comecemos a reinventar o homem que vive em cada um de nós. A fazer brotar a nossa humildade e delicadeza. Porque somos humanos e nada nos poderá salvar desta nossa condição.
Por isso nada melhor que educar desde os valores do desporto. Abrindo o nosso coração ao Outro e ensinando-o que, lado a lado, é possível transformar cada passo num voo em eterna ascensão. Partilhar o mundo, a vida e a beleza sem pensar no que podemos lucrar. Simplesmente contar com o nosso esforço, o nosso sentido de responsabilidade e disciplina que nos conduzirá naturalmente às estrelas se despirmos as vestes da ambição desmedida e do desrespeito pelo Outro, que como nós, também trabalha para vencer neste mundo tão vário e outonal. O desporto permite este entendimento porque educa integralmente o homem. Educa-o corporal, mental e espiritualmente. Educa-o a ser pessoa humana e a combater o rosto desfigurado e o gesto desfeito pelo ardor da bestialidade. O desporto ajusta-nos o carácter por não permitir a construção de um futuro baseado na mentira e na injustiça.
É urgente redescobrir a sensatez que o desporto provoca. Essa nobreza que nos instiga a andar sempre de cabeça erguida, apesar de tudo. A tomar decisões sábia e ponderadamente, sem arrependimentos e frustrações. A tornar ingente a nossa vontade de existir plena e harmoniosamente, confiando na esperança de um homem novo que se quer contumaz na construção de um amanhã onde seja possível viver com dignidade. Já dizia Nietzsche que “são raros os homens que se apoderam do futuro com mãos criadoras”. É hora de reformar o pensamento e deixar de lado a acédia que nos trava a acção. De deixar de viver neste tempo dividido, que nos anula e agride, amputando a réstia de paixão que parece ainda persistir. Convém tornar claro no coração do homem, tal como nos adverte Sophia de Mello Breyner, a luz que irradia de um ethos sempre empenhado e autêntico. A educação ajuda neste desígnio. O desporto também.
Notas
[1] Andrade, E. (2011). Prosa. V.N.Gaia: Modo de Ler-Editores e Livreiros. p. 249
[2] Andrade, E. (1978). As mãos e os frutos. Porto: Limiar. p. 64
[3] Arendt, H. (2000). Crise na Educação. In Quatro textos excêntricos: filosofia da educação. Lisboa: Relógio D’Água. p. 48





