O lugar do corpo na universidade: as técnicas do corpo (II)

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: O lugar do corpo na universidade: as técnicas do corpo (II)

Autor: Rui Machado Gomes

Filiação institucional: Universidade de Coimbra

E-mail: ramgomes@gmail.com

Palavras-chave: corpo, desporto, saúde

As representações que temos do corpo são o resultado de um processo histórico multifactorial. Condicionantes científicas, culturais e técnicas contribuem para a específica forma como o percebemos e usamos. Mauss propôs a noção de técnicas do corpo para sublinhar a natureza social das práticas corporais, uma espécie de habitus corporal que varia de acordo com factores sociais tais como a educação, a riqueza, a moda e o prestígio. A moderna noção de pessoa resulta de uma particular forma de elaboração da personalidade e como um modelo específico de atribuição da subjectividade aos indivíduos.

O corpo próprio é o resultado de um específico regime corporal que induz uma certa relação com o indivíduo incorporado e deste com a noção de corpo enquanto totalidade. Noutros termos, o agenciamento é ele próprio um efeito, o resultado de tecnologias de si que invocam os seres humanos como realidade corporal. Reconhece-se, assim, a necessidade de pensar as condições históricas que tornaram possível ao homem constituir-se a si próprio como objecto de reflexão. Esta relação tem sido estabelecida de diferentes modos: confissão, solicitude, cuidados corporais, auto-estima ou manutenção da forma são apenas alguns dos procedimentos propostos ou prescritos aos indivíduos no sentido de lhes fixar uma identidade. O Desporto moderno também participou activamente neste processo desde o seu surgimento no século XIX. No Desporto hodierno podemos identificar pelo menos três lógicas diferentes de os sujeitos construírem identidades e alteridades: a lógica estatal, a lógica mercantil e a lógica comunitária.

A lógica estatal sujeita o corpo ao controlo, avaliação e treino de competências típico do controlo burocrático e gestão usados nos desportos e nas ginásticas de massas promovidas pelo Estado. Este modelo trabalha para a integração do sujeito no sistema social através da disciplina, adaptação e correcção. A adopção de formas disciplinares de controlo não favorece a diferença, o desvio ou a dissensão. A diferença ou o desvios são anulados e corrigidos segundo uma regra ou uma idealização. A Educação Física ou a educação para a saúde fazem parte desta lógica.

A lógica do mercado, em contraste, sujeita o corpo a um uso instrumental quer como meio de produção quer como alvo de consumo. Através das práticas corporais, os seres humanos produzem resultados em centímetros, gramas, segundos ou pontos seja na fábrica ou no recinto desportivo. As performances e as competições resultam na elaboração de hierarquias sociais e desportivas com vencedores e perdedores. Por outro lado, a lógica comercial implica a reificação do corpo enquanto mercadoria. Esta lógica pode ser observada quer no modelo do desporto profissional quer no mercado do fitness.

Finalmente, uma terceira lógica pode ser encontrada na sociedade civil e nas comunidades, incluindo as novas tribos urbanas, com as suas culturas corporais alternativas, bem como no movimento das culturas tradicionais ou nos jogos populares. Neste modelo, típico das festividades populares em que o jogo e o encontro corporal acontece de modo não padronizado, o outro é visto na sua irredutível diferença. Festa, jogo e dança servem como encenação de situações sociais em que o outro encontra o outro, afirmando a sua identidade como alteridade.

O corpo é hoje grandemente dominado pela lógica mercantil. Parece ganhar em dignidade e valorização porque se pressupõe o zelo pelo seu bom funcionamento, a aproximação de um ideal de saúde perfeita e de bem-estar permanente. A medicina desenvolveu um complexo técnico-científico que apresenta a medicina preditiva, baseada no conhecimento molecular e genético, como a plataforma da saúde perfeita. Pelo seu lado, as Ciências do Desporto desenvolveram modelos analíticos e prescritivos que pretendem estabelecer relações univariadas ou factoriais entre a dose de actividade física e os seus efeitos na saúde e no bem-estar. Em qualquer caso, os discursos sobre o corpo saudável não podem ser compreendidos senão no interior da ideologia de progresso e da perfeição humanas que têm conduzido à crescente medicalização da sociedade. Sedentário, obeso, fumador, drogado, bêbado e stressado constituem o outro lado desta narrativa política e higienista que assombrariam o bem-estar colectivo.

Estas mensagens promovem o mito da força moral e da vontade como forma de construção das subjectividades contemporâneas, associando frequentemente a busca da saúde perfeita com opções morais adequadas. Nesta topografia moral, os sujeitos posicionam-se e são mapeados segundo práticas e representações contraditórias do corpo: por um lado, a compulsão do exercício (a vigorexia) e da recusa alimentar (a anorexia); por outro lado, os corpos orgíacos, excessivos na alimentação (a bulimia) e na recusa do exercício físico (a apatia).

Os primeiros sugerem uma grande tolerância ao sofrimento corporal e à exaustão. Os segundos recusam a normalização do corpo e sugerem o excesso. Excesso de comida e excesso de exposição ao risco que os afastaria de comportamentos prudentes, do exercício regular e da manutenção de um peso adequado. As sociedades contemporâneas colocaram-nos de novo diante de um pêndulo que oscila entre as forças de Dionísio e Apolo. Grande parte da história cultural da civilização cristã ocidental pode ser sintetizada pelos dois extremos da orgia e do jejum, que têm no culto dionisíaco a expressão do desregramento, marginalidade e protesto dos grupos sociais sem privilégios e, no culto apolíneo, a ilustração do controle racional, da restrição e do domínio.

O efeito destes dois movimentos contraditórios desagua numa mesma torrente de regresso ao narcisismo. O narcisismo desportivo pode ser entendido como uma versão neurótica de um novo estilo de vida centrado no jogging, nas dietas saudáveis, no controlo do peso e na manutenção física. Os dados sobre a prevalência de distúrbios nos comportamentos alimentares entre as atletas ilustra bem o poder normativo das técnicas de auto-restrição alimentar.

Existe, portanto, uma diferença entre o desporto-saúde e o desporto de alta intensidade que provoca muitas vezes traumatismos e desequilíbrios hormonais e imunitários devidos à repetição. O ritual desportivo torna-se então um processo obsessivo. Como sublinha Paul Yonnet, o campeão é um ser dotado que temos de cansar intensamente, de forma a obter um rendimento máximo da mecânica humana; desta exploração consentida de um capital preexistente, haverá lucros económicos e simbólicos. Não é portanto um homem cuja saúde e bem-estar se procura optimizar.

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