Dimensão analítica: Cultura e Artes
Título do artigo: Métodos Visuais: Para enriquecer a Sociologia
Autor: João Teixeira Lopes
Filiação institucional: Faculdade de Letras da Universidade do Porto
E-mail: jlopes@letras.up.pt
Palavras-chave: metodologia, fotografia social, cinema documental
Mais vale uma imagem do que mil palavras, eis um dito de senso comum. Mas ao mesmo tempo a imagem é rebelde, polissémica, liberta-se de um quadro restrito e prévio de inteligibilidade. Ela possui, porventura mais do que o texto escrito, as características da obra aberta, assinalada por Umberto Eco. Daí, talvez, a sua tardia entrada na panóplia de métodos e técnicas de recolha de informação no campo da sociologia, particularmente nas orientações predominantemente positivistas e objetivistas.
A Antropologia utilizou-a mais cedo, embora com grandes precauções e fortes divergências. Relembro o trabalho pioneiro de Margaret Mead e Gregory Bateson, Balinese Character: A Photographic Analysis (1942) e o documentário Trance and Dance in Bali (1952), onde, utilizando uma objetiva e uma câmara estáticas e grandes enquadramentos, tentavam fixar, para uma posterior análise de conteúdo, rituais, cerimónias e performances de onde seria possível extrair um conjunto de traços constitutivos de um ethos cultural. Mas já em Jean Rouch o cinema direto destrói a não interferência do investigador, através da câmara ativa e compartilhada, dando voz aos sujeitos sociais, transformados em atores (para alguns criando uma verdadeira polifonia das práticas culturais ou uma multivocalidade do espaço), devolvendo-lhes a palavra e a imagem como ação, utilizando a narração em off e longos travellings de paisagens.
Erving Goffman afirmou-se em Sociologia como um dos principais defensores e introdutores dos métodos visuais. No seu artigo sobre a hiperritualização da feminilidade, publicado nas Actes de la Recherche en Sciences Sociales dirigidas por Pierre Bourdieu, utiliza as fotografias de publicidade das revistas de moda e de alta costura para analisar os rituais de segundo grau (hiperrituais) que sublinham e estilizam os rituais de primeiro grau (de construção social quotidiana do “ser-se feminina”). Trata-se de um excelente exemplo de como o material visual pode ser tratado enquanto fonte secundária. Aquelas fotografias não foram produzidas para efeitos de uma qualquer pesquisa (nesse caso estaríamos em presença de fontes primárias, fabricadas pelo próprio investigador) mas fornecem matéria-prima preciosa para o estudo da criação do género nas sociedades ocidentais contemporâneas.
A fotografia ou o cinema documental podem e devem ser acionadas como técnicas de seleção e recolha de informação sempre que, no trabalho de campo, corresponderem aos objetivos do processo de pesquisa. A sua validade será garantida se e só se, na sua utilização, se observarem rigorosamente os protocolos de prova e validação, acompanhados de perto por uma feroz vigilância epistemológica sobre as relações sociais de observação e as interações que, no terreno, se vão tecendo entre observador e observados. Na verdade, este é um postulado ativo para todas as técnicas e não apenas para as de pendor visual. São hoje sobejamente conhecidas as interferências que os inquéritos por questionário e as entrevistas podem provocar nas realidades e sujeitos sob estudo, gerando fenómenos de interferência, reações de honra e de prestígio ou táticas de defesa perante a violência simbólica de códigos linguísticos por vezes estranhos e hostis aos respondentes. Nada qualifica, pois, as fotografias ou o cinema documental como especialmente perigosos ou pouco fidedignos.
Apraz-me propor um diário de campo hipertextual em pesquisas etnográficas onde a observação (deambulante, direta ou mesmo participante) ocupe um lugar estratégico central. Nele, a par das descrições sobre a realidade em análise (acompanhada por apontamentos, reflexões e “pistas” epistemológicas, teóricas e metodológicas – o diário de campo não deve ser um repositório de trivialidades), existiriam links para fotografias e filmes, devidamente identificados, catalogados, legendados e analisados (incluindo o seu posicionamento num roteiro ordenado de tiragem de imagens; a sua relação com os objetivos da pesquisa ou com os imprevistos do trabalho de campo; etc.), complexificando, relacionando e enriquecendo os ângulos de abordagem do objeto de estudo.
Finalmente, é habitual estabelecer-se uma rígida distinção entre fotografia artística (dominada por critérios estéticos e pela aura e assinatura de “autor”), fotojornalismo (assente nos parâmetros do valor-notícia) e a fotografia social (capaz de ampliar os quadros do conhecimento sobre a realidade social). Todavia, nem sempre é possível manter a integridade dessas barreiras. Temos, aliás, excelentes exemplos de transgressões em que fotoreportagens se compõem de imagens de magnífica qualidade estética e inegavelmente propiciadoras de um enriquecimento da inteligibilidade do real [1].
Nota
[1] cf.< http://p3.publico.pt/atualidade/sociedade/1543/fotografias-da-cidade-interdita>






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