Cuidadores formais de pacientes com a doença de Alzheimer nos Lares da Terceira Idade

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: Cuidadores formais de pacientes com a doença de Alzheimer nos Lares da Terceira Idade

Autora: Susana Fernandes Madaleno

Filiação institucional: Universidade da Beira Interior

E-mail: susana.madaleno1@gmail.com

Palavras-chave: cuidadores formais, doença de Alzheimer, lares da terceira idade.

A expansão da categoria profissional de prestadores de cuidados a idosos trouxe à tona novos problemas de saúde, nomeadamente, problemas de saúde física e mental a que estas pessoas estão sujeitas devido ao facto de estarem submetidas a um stresse muito especial [2].

Em relação ao cuidar de doentes com a doença de Alzheimer diversos estudos sociológicos, indicados pela Associação Alzheimer Portugal [1], revelam elevados níveis de stresse e depressão entre os cuidadores, bem como um impacto na saúde física, devido aos esforços exigidos aos cuidadores dos doentes em questão no desempenho das suas atividades diárias. Tendencialmente os estudos que abordam a temática das dependências e do cuidar, ou as necessidades sentidas pelos cuidadores formais, focam a sua atenção maioritariamente nos enfermeiros [4], descurando, por exemplo, os técnicos e os auxiliares dos lares da terceira idade.

Por isso, considerou-se relevante estudar, embora em pequena escala [5], os conhecimentos e as competências dos prestadores de cuidados formais em Portugal, em relação a indivíduos com este fôro patológico nos lares da terceira idade. Optamos por uma metodologia qualitativa, tendo sido realizadas 14 entrevistas semiestruturadas em três instituições dos municípios do distrito de Bragança, das quais resultaram as breves conclusões aqui referidas de seguida.

Concluímos que a grande maioria dos cuidadores formais nos lares da terceira idade não possui formação especializada para cuidar de pessoas com a doença de Alzheimer. Contudo, possuem formações que versam um cuidado geral com os utentes, onde por vezes essa doença é abordada. Estas formações, maioritariamente, são propostas pelas próprias instituições, sendo tendencialmente de curta duração e tratam diversas temáticas relacionadas com o dia-a-dia na instituição.

Para além destas formações, a informação e as aptidões dos prestadores de cuidados são adquiridas através da experiência profissional, da troca de conhecimentos entre colegas, das leituras realizadas, de seminários, palestras, ou mesmo através de cursos de ensino superior. Todavia, isto não quer dizer que os cuidadores se encontrem devidamente preparados para responder a todo o tipo de constrangimentos.

Segundo a nossa pesquisa, os prestadores, de modo tendencial, supõem não ter conhecimentos suficientes para responder aos problemas associados com a doença de Alzheimer, e salientam também que os conhecimentos devem ser atualizados. Nesta perspetiva, uma grande parte destes cuidadores considera as formações importantes para si próprios e aconselham igualmente os colegas a terem formação. Este tipo de formações deve ser especializado nesta área e de maior duração.

Os entrevistados de forma geral consideram ter competências para cuidar dos seniores com esta doença. Não obstante, isto não quer dizer que as competências evidenciadas por estes sejam sempre as mais indicadas. Por vezes, existem dificuldades que resultam da falta de conhecimento dos sintomas relacionados com esta doença e do desconhecimento da forma recomendada como se deve responder a este tipo de sintomas.

Os prestadores no lar referem ainda que existem dificuldades por parte dos outros residentes seniores que não compreendem a patologia pela qual o doente é afetado, o que pode gerar conflitos no grupo dos utentes. Salientam as suas irritações quando com estes doentes não conseguem atingir os mesmos frutos como com outros residentes que não sofrem deste género de patologia. Referem que existem dificuldades ao nível do esforço físico, principalmente quando a doença de Alzheimer se encontra numa fase avançada porque nesta fase o doente pode permanecer mudo e sujeito a uma incontinência total.

A doença de Alzheimer afeta as pessoas a nível cognitivo, logo a execução de certos cuidados médicos torna-se difícil, porque estes doentes não conseguem compreender qual a finalidade daquele procedimento, apenas sentem a dor causada por essa conduta. Assim, as reações violentas destes àquela dor são apenas comportamentos defensivos [3]. Advertem-se, ainda, pela parte dos cuidadores, frustrações nos prestadores de cuidados por não conseguirem saber o que estes pacientes necessitam ou precisam no exato momento e é igualmente desgastante para estes cuidadores estarem constantemente confrontados com perguntas e conversas repetitivas.

Face às dificuldades existentes e aos constrangimentos presentes torna-se importante perceber quais os meios existentes nas instituições aos quais os cuidadores recorrem como auxílio às suas dificuldades. Percecionamos que apesar de os cuidadores apontarem como recursos a existência de psicólogos, enfermeiros e médicos nos estabelecimentos, a verdade é que os cuidadores não costumam recorrer a este género de apoio, mas tendencialmente procuram o apoio de algum colega no local de trabalho.

No que diz respeito às necessidades dos cuidadores formais, verificamos que estes tendem a referir, maioritariamente, a formação como um recurso para ultrapassar as dificuldades com que se deparam diariamente. Contudo, existe uma minoria que aponta outras soluções, nomeadamente: uma unidade especializada para pessoas com a doença de Alzheimer; uma instituição apenas para doentes que têm esta patologia; um gabinete de apoio aos funcionários em cada instituição; um maior número de colaboradores; grupos de autoajuda; e uma maior disponibilidade de tempo para estar com os utentes.

Nesta perspetiva, cerramos com a constatação de que os cuidadores referem maioritariamente como principais necessidades a existência de formações, a atualização de conhecimentos. Embora a maior parte destes prestadores de cuidados serem abrangidos por formações nas respetivas instituições, trata-se de formações sucintas, que não são especializadas no cuidar deste género de patologia, e mesmo quando são, são de curta duração. Logo, é importante apostar-se em formações especializadas para este género de cuidar e no desenvolvimento de outras estratégias que permitam responder às dificuldades sentidas pelos próprios cuidadores.

Notas:

[1] Alzheimer Portugal (2009), Plano Nacional de Intervenção Alzheimer, Disponível em URL [Consult. 20 de agosto 2016]: <http://www.alzheimer-europe.org/content/download/9836/88093/file/Proposed%20National%20Strategy%20by%20Alzheimer%20Portugal%20(in%20Portuguese).pdf.>.

[2] Barreto, J. (2005), Envelhecimento e qualidade de vida: o desafio actual, Revista da Faculdade de Letras: Sociologia, 15, 289-302.

[3] Gineste, Y. & Pellissier, J. (2007), Humanitude, Lisboa, Instituto Piaget.

[4] Lopes, A. & Lemos, R. (2012), “Envelhecimento demográfico: percursos e contextos da investigação na Sociedade Portuguesa”, Revista da Faculdade de Letras: Sociologia, 13-31.

[5] Madaleno, S. (2016), Cuidadores formais de pacientes com a doença de Alzheimer nos Lares da Terceira Idade, Dissertação de Mestrado: Sociologia: Exclusões e Políticas Sociais, Universidade da Beira Interior, Covilhã.

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