O contributo do comércio justo para a responsabilidade social das empresas

Dimensão analítica: Economia e Política

Título do artigo: O contributo do comércio justo para a responsabilidade social das empresas

Autora: Ana Luísa Coelho

Filiação institucional: Faculdade de Economia da Universidade do Porto

E-mail: alcoelho.pt@gmail.com

Palavras-chave: Comércio Justo, Responsabilidade Social das Empresas, Participação das Empresas.

O movimento de Comércio Justo (CJ) comercializa produtos dos países do Sul e sensibiliza os consumidores para o impacto das suas decisões, e das injustiças do comércio internacional, sustentado por princípios como direitos humanos e protecção do ambiente, associados à transparência e à participação.

Qual o contributo do Comércio Justo para o desenvolvimento da Responsabilidade Social Empresarial?

A participação das empresas nos circuitos de produção e comercialização de produtos de CJ poderá expandir o mercado destes bens, mas pode ameaçar os seus aspectos-chave, como a preocupação com a condição de pobreza dos pequenos produtores e o objectivo de desenvolver uma abordagem alternativa de comércio e desenvolvimento, e poderá mesmo por em causa a sua sobrevivência a longo prazo.

Para falar sobre CJ é importante distinguir entre movimentos sociais para reformar o sistema internacional de comércio e iniciativas que querem ligação mais directa entre produtores no sul e consumidores no norte [1]. O CJ pretende eliminar intermediários exploradores da miséria dos produtores, promover respeito pelo ambiente e Consumo Responsável (CR). Tem duas vertentes – comercializar produtos e sensibilizar consumidores para o impacto das suas decisões e para as injustiças do comércio internacional – com princípios como transparência; capacitação com envolvimento das pessoas nas decisões; direitos humanos, igualdade de oportunidades, de desenvolvimento local, educação e participação em campanhas de responsabilidade social, pois há respeito e preocupação pelas pessoas e ambiente, colocando as pessoas acima do lucro. É uma teia complexa de relações e parcerias [1] [2] [3]. Inclui preço justo, apesar das oscilações no preço do mercado; preço premium, quando o preço de mercado é superior ao preço justo; pré-financiamento até 60%; formação e marketing; e cooperativas de pequenos produtores [4]. É um movimento global de organizações-actores da economia social a querer mudar regras do sistema internacional de comércio [1].

Um dos maiores desenvolvimentos no CJ foi a certificação de produto. A primeira Entidade Certificadora foi a Max Havelaar, em 1988 nos Países Baixos [6]. Em 1997, Fairtrade International (antes Fairtrade Labelling Organizations International ou FLO) uniu sob a sua alçada organizações nacionais de CJ, e harmonizou padrões e certificação a nível mundial [13]. Em 2004, a Fairtrade International dividiu-se em FLO (fixa standards de CJ e fornece apoio aos produtores) e FLO-CERT (inspecciona e certifica organizações de produtores, e faz auditorias a comerciantes) [1] [13]. Os actores europeus foram determinantes na consolidação do movimento do CJ [5].

Os mecanismos de mercado podem excluir produtores da participação no mercado por não desenvolverem capacidade de produção, de lidar com os mercados, e acesso ao financiamento, para competir no mercado mundial. Mais, as relações de poder existentes desfavorecem os produtores. Há 28 anos o mercado do comércio mundial valia $30 mil milhões, e os produtores recebiam $12 mil milhões (40%). Agora vale $50 mil milhões e os produtores recebem $8 mil milhões (16%). Este aumento de desigualdade deve-se ao declínio nos preços primários do café que fez com que muitos produtores de café vivessem- na miséria e as principais marcas se expandissem [4]. A inclusão destes produtores no CJ pode significar sair da sobrevivência [7], pois este gera impactos sociais positivos [4]. Por exemplo, a Kagera Co-operative Union Ltd da Tanzânia, um dos principais produtores e exportadores de café, e que representa 60 000 pequenos agricultores, com a participação activa no CJ, consegue pagar um preço até 100% superior ao praticado no mercado, e fornecer formação, e apoio técnico e financeiro aos seus membros [12]. Há vantagens em ser do CJ como a protecção das oscilações nos preços de mercado e a possibilidade de investir na melhoria do processo produtivo ou serviços para a comunidade (poços de água, estradas, centros de saúde, escolas, etc.). Daí pessoas como Rigayato, uma rapariga ganense, cujos pais pertencem à Kuapa Kokoo Union (Gana), afirmem que o “CJ mudou a minha vida (…) posso ficar na escola” [15].

Cada vez mais se fala de Responsabilidade Social Empresarial, sendo as empresas socialmente responsáveis as que não visam o lucro a todo o custo, adoptam modelos de produção com preocupação pela sustentabilidade humana e ambiental, pontos que tocam o CJ. A atenção dos consumidores ao comportamento das empresas influenciou-as e ao mercado a estar mais atentos aos produtos [8].

O crescimento do CJ tem de ser entendido dentro do contexto económico político de mudanças como o neoliberalismo da globalização económica que beneficiou da análise de cadeia de commodities [9]. De 2004 a 2007 as vendas de produtos de CJ certificados a consumidores quase triplicaram (€ 832m (2004) – € 2.381m (2007)). Os mercados mais importantes são os Estados Unidos e o Reino Unido, com 31% e 30% das vendas globais. As vendas globais de CJ em 2007 representaram €2.65bn [2].

A certificação CJ alterou a cadeia de valor não-corporativa do CJ com a participação de retalhistas [6]. Mas esta participação também é importante para o CJ com aumento de políticas de compra pública (alternativas), profissionalização de distribuidores alternativos [10] e marketing social [11].

 

Notas

[1] Reed, D. (2009), What do Corporations have to do with Fair Trade? Positive and Normative Analysis from a Value Chain Perspective, Journal of Business Ethics, 86, pp. 3-26.

[2] Krier, J-M. (2008), Fair Trade 2007: new facts and figures from an ongoing success story – A report on Fair Trade in 33 consumer countries, Netherlands: DAWS – Dutch Association of Worldshops.

[3] CIDAC (ed) (2001), Comércio Justo: Perguntas e Respostas, Lisboa: CIDAC.

[4] Hockerts, K. (2005), The Fair Trade Story, INSEAD Fontainebleau, Oikos Sustainability Case Writing Competition 2005 – 2nd Prize. Disponível em URL [Consult. 2 Jan 2015]: <http://www.oikos-foundation.unisg.ch/homepage/case.htm>.

[5] Kocken, M. (2003), Fifty Years of Fair Trade: A Brief History of the Fair Trade Movement, Disponível em URL [Consult. 4 Mar 2015]: <www.gepa3.de/download/gepa_Fair_Trade_history__en.pdf>.

[6] Roozen, N.; F. VanderHoff Boersma (2001), L’aventure du Commerce Équitable: Une Alternative à la Mondialization par les Fondateurs de Max Havelaar, Paris: Jean-Claude Latte´s.

[7] Tallontire, A. (2000), Partnerships in Fair Trade: Reflections from a Case Study of Café direct, Development in Practice, 10(2), pp. 166–177.

[8] Di Meola, B. et al. (s/d), Guida al Consumo Solidale, 4-26, Itália: Pangea Niente-Troppo.

[9] Taylor, P. L. (2005), In the Market but Not of It: Fair Trade Coffee and Forest Stewardship Council Certification as Market-Based Social Change, World Development 33(1), pp. 129–147.

[10] Randall, D. (2005), An Exploration of Opportunities for the Growth of the Fair Trade Market: Three Cases of Craft Organizations, Journal of Business Ethics, 56, pp. 55–67.

[11] Golding, K.; Peattie, K. (2005), In Search of a Golden Blend: Perspectives on the Marketing Fair Trade Coffee, Sustainable Development, 13, pp. 154–65.

[12] CIDAC; Afonso, L. (2007), Comércio Justo: uma alternativa, Lisboa: IMVF e CIDAC.

[13] Fairtrade International (http://www.fairtrade.net/)

[14] Cores do Globo; Oliveira, S. (2007), Consumo Responsável: Questões, desafios e guia prático para um futuro sustentável, Cadernos de Comércio Justo, n.º 01, Lisboa: Cores do Globo.

[15] Wroe, M.; Doney, M. (2003), The Rough Guide to a better World, London: Rough Guides Ltd.

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