A emigração dos portugueses para França

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: A emigração dos portugueses para França

Autor: Vítor Rosa

Filiação institucional: Université Paris Ouest Nanterre La Défense

E-mail: vitor.vr@u-paris10.fr

Palavras-chave: Migrações internacionais, Emigração, Imigração.

1 – As migrações internacionais

Em França, a imigração é um fenómeno muito antigo. Na Idade Média como na época moderna, a França sempre acolheu populações diversas. O fenómeno vai, no entanto, amplificar-se no fim do século XIX, com a Revolução Industrial. Fugindo de guerras, de torturas, de violências sexuais, de linchamento por opções sexuais, ou simplesmente por questões económicas, milhares de pessoas chegam anualmente ao território francês. O vetor principal do sistema internacional de migrações continua a ser a seta apontada de Sul para Norte, dos países em vias de desenvolvimento para os países desenvolvidos. Os primeiros continuam marcados por uma pressão migratória que aparentemente está longe de abrandar. Os segundos continuam a incorporar, uns mais do que outros, populações estrangeiras de origem variada.

As projeções que se fazem sobre a evolução próxima do contexto internacional atribuem uma forte probabilidade a um cenário de intensificação das migrações dirigidas aos países industrializados, no quadro de uma crescente globalização das relações económicas, políticas e sociais.

As migrações são um dos assuntos mais polémicos e mediáticos do mundo contemporâneo. Num mundo cada vez mais globalizado, seria legítimo prever uma muito maior aceitação desta realidade mas a verdade é que nem sempre assim acontece.

2 – A história da emigração portuguesa em França

Há mais de um século que os portugueses vivem em França. Desde 1876 que eles começaram a ser recenseados oficialmente. No recenseamento de 1911 contabilizavam-se 1.300 portugueses em França e desde 1921 que são identificados como um grupo específico. Mas é preciso chegar aos anos 1960 para que a sua presença seja sensível no conjunto da sociedade francesa.

A situação muda a partir de Primeira Grande Guerra, quando a jovem República portuguesa (fundada em 1910) entra em guerra em 1916, ao lado da França e da Grã-Bretanha. É no contexto de esforço da guerra, e um corpo expedicionário de cerca de 9.000 homens, quando um primeiro acordo de mão-de-obra é assinado em 1916 entre a França e Portugal, renovado em 1917, permitindo recrutar cerca de 20.000 trabalhadores para a agricultura e a indústria francesa.

Os combatentes portugueses, integrados nas forças britânicas em Pas-de-Calais, sofrem um assalto mortal em 9 de abril de 1918, em Lys. Para lembrar esta “fraternidade no combate” o Governo francês decide, em 14 de julho de 1918, dedicar um nome a uma avenida de Paris aos combatentes aliados.

Com a ditatura instalada em 1926, a presença de trabalhadores portugueses em França cresce. Os soldados também se instalam e constituem família. Os caminhos da emigração estavam abertos.

Com a guerra colonial (1961-1974), o Governo proíbe a saída dos jovens com mais de 16 anos. Começa-se a sair de Portugal clandestinamente pelas fronteiras de Espanha, onde alguns passadores e contrabandistas ajudavam e organizavam fileiras clandestinas de emigração. A partir de 1960 as saídas ilegais aceleram-se, ao ponto de se tornarem uma regra. Elas foram encorajadas indirectamente pelas autoridades francesas, que regularizavam cada vez mais facilmente os emigrados sem papéis. Em 1969, havia 300.000 portugueses registados e eram mais de 700.000 no início dos anos 1970.

Portugal foi um país que viveu fechado sobre si próprio até aos anos 60, marcado por uma situação económica caracterizada de subdesenvolvimento; uma situação política não-democrática; e uma situação social com um grande número de trabalhadores em situação de pobreza e uma forte emigração. A partir dos anos 60, os fluxos começaram a centrar-se nas economias florescentes da Europa Ocidental, carentes de mão de-obra não especializada e com condições laborais infinitivamente superiores às oferecidas em Portugal. França, Alemanha e Suíça passaram a ser o destino de eleição dos portugueses.

A maior parte dos portugueses contentaram-se com alojamentos insalubres, barracas e caves (em francês, “bidonvilles”, “taudis” e “cave”), sobretudo na região parisiense. Os “bidonvilles” não eram apenas “dormitórios”.

3 – Os “novos” fluxos migratórios portugueses em França

Em 2008, começa uma crise na Europa, afetando sobretudo os países do Sul. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2014, saíram de Portugal cerca de 85 mil pessoas para ocupações temporárias no estrangeiro, mais 10 mil do que em 2013 e mais 28 mil do que registado em 2011. O número de emigrantes portugueses permanentes cifrou-se em 49.572 em 2014. De 2008 a 2015, cerca de meio milhão de compatriotas saíram de Portugal. A saída de jovens qualificados em França é uma realidade, como alertam os investigadores [1] [2].

No concreto, creio que é indicado se assinalar a crescente pauperização e o isolamento de parte dos idosos da primeira geração: uns porque se vêm obrigados a permanecer em França por razões familiares e/ou de saúde, dos quais alguns devem abandonar os apartamentos de função localizados nos centros das cidades que ocuparam durante décadas, outros desprovidos de rede familiar em Portugal; outros são beneficiários de pensões de solidariedade social não exportáveis; outros ainda na sequência da morte dos cônjuges. Existe um número crescente de portugueses isolados em França, alguns dos quais em situação de fragilidade social e/ou económica [3].

Nota final

A saída de portugueses (emigração) rumo a França não é nova, embora assuma contornos diferentes consoante as épocas e as realidades. Se muitos se encontram integrados socialmente, outros padecem e encontram-se em grandes dificuldades, que as associações locais tentam ajudar como podem. Embora em grande número em Paris, os portugueses acabam por se dispersar em todo o território Francês.

Referências bibliográficas

[1] Lopes, J. T (2014). Geração Europa? Um estudo sobre a jovem emigração qualificada em França. Lisboa: Mundos Sociais.

[2] Branco, J. P. (2013). A implantação geográfica dos portugueses em França: evolução observada entre 1990 e 2009. Sociologia. Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Vol. XXVI, 209-226.

[3] Rosa, V. (2015). A Santa Casa da Misericórdia de Paris: um combate permanente contra a precariedade, a probreza e a exclusão social. Inegavelmente uma grande responsabilidade. Actas das V Jornadas Sociais da SCMP (13 de junho), 12-18.

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