O modelo social e cultural da maternidade

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: O modelo social e cultural da maternidade

Autora: Dina de Carvalho

Filiação institucional: CIES-IUL

E-mail: dina.peixoto@gmail.com

Palavras-chave: maternidade, cuidar

Cuidar e tomar conta representam um conjunto de atos que visam manter a vida dos seres vivos, com o objetivo de permitir a reprodução e a perpetuação da vida do grupo. Foi e será este o fundamento de todos os cuidados. Assinale-se que estas práticas e modos de vida se construíram a partir da maneira como os homens e as mulheres apreendem e mobilizam o ambiente que os cerca. Daí a imensurável diversidade de práticas que, ao perpetuarem-se, geram rituais e crenças. Saliente-se que esta orientação dos cuidados nasceu daquilo a que Morin chamou a physis, ou seja, a ciência da natureza. [1]

O modelo sociocultural de maternidade hoje dominante concebe e mistifica o conceito social do ser mãe. Este modelo surge como consequência de um processo social e histórico de criação de uma imagem idealizada assente na ideia de que a maternidade se caracteriza, acima de tudo, por uma relação emocional forte. Esta imagem construída culturalmente e socialmente dominante influencia a imagem da feminilidade, a imagem da forma apropriada de ser mulher: “A família e a maternidade são instituições das mais fortemente culturalizadas ao longo dos séculos, a ponto de as suas organizações e ideologia parecerem absolutamente naturais. Tão naturais que qualquer outro tipo de modelo da maternidade se afigura como inapropriado e mesmo desviante.” [2]

A sociedade consolida a conceção dicotómica dos sexos, quase como se a ordem social derivasse da sua estrita diferenciação. Em diferentes estilos de vida contemporâneos, os papéis sexuais têm-se tornado menos rígidos, mais flexíveis. Sempre que tal se verifica, surgem críticas às mudanças, que exprimem uma ansiedade sobre a perda de identidade dos sexos e sobre a possibilidade de a mãe não ser capaz de ser boa mãe, ou de a família ser de algum modo ameaçada. Tradicionalmente, o papel essencial da mulher tem sido o de perpetuar o conhecimento através da maternidade. O facto de ela ter um útero, de dar à luz e de amamentar significa que não só tem filhos, mas é em grande medida responsável por eles enquanto bebés e, por vezes, durante muito mais tempo. Põe o filho em contacto com o mundo, ensina-lhe as diferenças essenciais dos papéis sexuais e, muitas vezes, faz tudo isto de uma forma perfeitamente inconsciente.

A imagem da mãe e do seu papel no seio da sociedade, contudo, vai-se modificando. Após 1760, multiplicaram-se as publicações que recomendavam às mães que se encarregassem dos seus filhos pessoalmente e que os amamentassem. A mulher passa a ter a obrigação de ser mãe, e é engendrado o mito do sexto sentido das mães que ainda continua vivo, passados mais de duzentos anos, valorizando o instinto maternal e o amor natural da mãe pelo filho. Em finais do século XVIII, o que aparece de novo é que agora este amor maternal é visto como um valor natural e social. A este respeito, diz Badinter: “…amor e maternal (…) significa não só a promoção do sentimento, mas também a da mulher enquanto mãe. O foco ideológico, deslocando-se insensivelmente da autoridade para o amor, ilumina cada vez mais a mãe em detrimento do pai, mergulhando progressivamente este último na sombra.” [3]

A partir do século XVIII, desenha-se uma imagem renovada da mãe, cujos traços se irão salientar constantemente nos dois séculos subsequentes: “A era das provas de amor começou. O bebé e a criança tornaram-se objectos privilegiados da atenção maternal. A mulher aceita sacrificar-se para que o seu filho viva, e viva melhor, perto dela.” [3]

Sofia é esposa de Émile e fora transformada em mãe dos seus filhos. Rousseau [4] imaginará Sofia como a mulher ideal para Émile. Esta mulher aparece depois de Rousseau ter modelado o Homem. Pensando a diferença sexual sob a forma de complemento, o autor estabelece que esta mulher será genuinamente indefesa e passiva. O liberal Rousseau previne que Sofia não será criada na ignorância de todas as coisas, mas deverá aprender simplesmente as coisas que é oportuno ou necessário que saiba.

Dever-se-ia preparar a jovem adolescente para ser uma doce mãe, um sonho de mulher que criará o seu filho com doçura e paciência e que o amamentará. A mulher deverá limitar-se ao mundo doméstico. Uma boa mãe, na perspetiva de Rousseau [4], assemelhar-se-á a uma boa freira ou deverá esforçar-se por sê-lo – este era o ideal feminino de Rousseau.

O leitor mais fiel de Émile terá sido Napoleão. Para assegurar que as mulheres seriam colocadas no lugar que deveriam ter na sociedade, Napoleão promoveu a sua educação. Com Madame Campan, refletiu demoradamente acerca da finalidade da educação feminina e das estratégias possíveis para atingir o seu objetivo – Madame Campan era Diretora da Escola da Legião de Honra. Badinter recorda, a propósito um episódio significativo: “Napoleão teria dito um dia a Madame Campan: – Os antigos sistemas de educação não valem nada: que é que falta aos jovens para que recebam em França uma educação como deve ser? – Faltam as mães, respondeu Madame Campan. – Pois bem, disse o Imperador, aí está todo um sistema de educação. É necessário, Madame, que consiga fazer mães que saibam educar os seus filhos.” [3]

Foi assim que Napoleão veio a escrever longamente sobre o modo como se deveria trabalhar com as mães.

Os ideólogos do século XIX valeram-se destas teorias da mulher como mãe dedicada e reconhecerem-lhe também a função educativa. Esse século redescobre, no exemplo de Fénelon e Rousseau, que esta função basilar cabe às mães. O título de educadora torna-se um conceito feminino por excelência. A literatura demonstra-nos um incremento considerável das responsabilidades das mães a partir do final do século XVIII, o que evidentemente teve como consequência um obscurecer da imagem do pai. Se as fontes do século XVII afirmam a importância do pai e da sua autoridade, os séculos subsequentes promovem a liderança da mãe no lar. A maioria dos autores justifica o primado da mãe e a secundarização do pai com o declínio do papel paternal no espaço doméstico. Nos séculos XIX e XX não serão poupados os adjectivos que farão da mulher a criadora ou cuidadora por excelência.

Notas

[1] Colliére, M. F. (2003), Cuidar… A primeira arte da vida, Loures: Lusociência.

[2] Monteiro, R. (2005), O que dizem as mães, Coimbra: Quarteto, pp. 54.

[3] Badinter, E. (1980), O Amor Incerto: História do amor maternal do séc. XVII ao séc. XX, Lisboa: Relógio D água, pp. 144.

[4] Rousseau, J.-J. (1979), Emile ou de l’éducation, Paris: Garnier/Flammarion.

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