História da Sexualidade

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: História da Sexualidade

Autora: Dina Peixoto

Filiação institucional: Investigadora do CESNOVA Lisboa

E-mail: dina.peixoto@gmail.com

Palavras-chave: sexualidade

Pandora levou o marido a abrir o cofre que lhe fora dado por Zeus, e que continha o pecado, espalhando pela Terra: as Parcas, urdidoras do destino dos homens, que nunca poupam; a sanguinária Cali; as aguerridas Amazonas, que causaram problemas a homens como Hércules, Aquiles, Ciro e Alexandre; Circe, que enfeitiçou os companheiros de Ulisses, comprometendo a sua expedição; e “Last but not least”, Eva, que comeu e deu a comer o fruto proibido. Eva comeu o fruto proibido e ofereceu-o a Adão que comeu com ela – narra a histórica que foram castigados (Almeida) [1]. Foucault (1994: 20) refere: “o valor do próprio acto sexual: o cristianismo tê-lo-ia associado ao mal, ao pecado, à queda, à morte, enquanto a Antiguidade lhe teria concedido significações positivas (…). A desqualificação das relações entre indivíduos do mesmo sexo: o cristianismo tê-las-ia excluído rigorosamente, enquanto a Grécia os teria exaltado – e Roma, aceite – pelo menos entre os sexos” [2]. A sexualidade deixa de ser sinónimo de pecado e impureza para passar a fazer parte integrante dos afectos, do prazer, da maternidade e da paternidade responsáveis.

Nas suas obras sobre a História Da Sexualidade III  [2], o autor conclui que a repressão ou a interdição existentes à volta do sexo, não representa o único objecto de estudo que nos permite compreender o essencial sobre a história da sexualidade. Admite que o tema sempre foi discutido, numa rede de discurso que tanto incentivava a revelá-lo com a escondê-lo ou a abordá-lo como um segredo. O mérito deste autor foi o ter abordado este tema como um dispositivo histórico do poder. É um poder omnipresente que condiciona e actua sobre o indivíduo e sobre a sociedade em matéria de sexo e de sexualidade. O poder sobre a sexualidade manifesta-se em todos através do auto-controlo e pelas punições que são impostas caso não sejam seguidas as normas da sociedade. Desta forma, a sexualidade ocidental foi-se normalizando como um dispositivo de poder que se tornara importante.

Para Foucault [2],  a modernidade traz não o incremento do segredo, mas o incremento dos discursos sobre a sexualidade. Após finais do século XVI, o discurso submete-se a um mecanismo de incitação crescentes. As técnicas de poder que se exercem sobre o sexo não obedeceram a um princípio de selecção rigorosa mas, pelo contrário, à disseminação e implementação de sexualidades polimorfas e a vontade de saber não se deteve diante de um tabu, mas obstinou-se em construir uma ciência da sexualidade. Argumenta que se assiste a um aumento das sexualidades hereges, à reprodução de prazeres específicos e à proliferação de sexualidades distintas.

Segundo Freud [3] a sexualidade começa na primeira infância. Toda a criança é instintivamente determinada pela procura de prazer – este prazer nascerá da estimulação de certas zonas do corpo. O que S. Freud chamou de zonas erógenas. Freud tomou a sucção como um tipo de manifestação sexual da infância. Refere que a  voluptuosidade de chupar absorve toda a atenção da criança, adormece-a e pode mesmo levá-la a ter reacções motoras, uma espécie de orgasmo (…). A criança, quando chupa, procura neste acto um prazer já experimentado e que agora lhe vem à memória. Chupando de maneira rítmica uma parte da epiderme ou de mucosa, a criança satisfaz-se. É fácil ver em que circunstâncias a criança, pela primeira vez, experimentou este prazer que agora procura renovar. É a actividade inicial e essencial à vida da criança que lhe ensinou: a sucção do seio materno (…) os lábios da criança desempenham o papel de zona erógena e que a excitação causada pelo afluxo do leite quente provoca o prazer [3]. Freud admitiu que no lactente a zona erógena mais forte é a mucosa bucal. Esta satisfação mencionada pelo autor, numa primeira instância, está ligada à satisfação da fome. Mas brevemente a necessidade de repetir a satisfação sexual separar-se-á da necessidade de nutrição. A criança procurará uma nova zona erógena, embora de menos valor que a primeira – os lábios de uma outra pessoa. A propriedade erógena parece estar particularmente relacionada com certas partes do corpo. Existem zonas erógenas de eleição, como nos é dado o exemplo da sucção, mas qualquer zona da epiderme ou da mucosa pode servir de zona erógena e deve, por conseguinte, possuir determinados traços que a tornam própria para este uso. A sucção faz-nos conhecer, segundo o autor, os três caracteres fundamentais da sexualidade infantil: esta desenvolve-se apoiando-se numa função fisiológica indispensável à vida; ainda não conhece o objecto sexual – é auto-erótica – e o seu fim é determinado pela actividade de uma zona erógena. Refere-nos o autor que estes caracteres se encontram na maior parte das manifestações eróticas da criança [3].

Analisando a obra de Eça de Queirós, Os Maias (1992; 133), vemos que a História narra brincadeiras infantis: “Sempre detestara ver a sobrinha, uma menina delicada de dez anos, a brincar assim com o Carlinhos. Aquele belo e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem propósitos, aterrava-a; e pela sua imaginação de solteirona passavam sem cessar ideias, suspeitas de ultrajes que ele poderia fazer à menina. Em casa, ao agasalhá-la antes de vir para santa Olávia, recomendava-lhe com força que não fosse com o Carlos para os recantos escuros, que o não deixasse mexer-lhe nos vestidos!… A menina que tinha olhos muito langorosos, dizia: ´Sim, titi.´” [4].

Os anos 60 e 70 foram um momento histórico de viragem e rupturas quer, na esfera da intimidade, quer na esfera da sexualidade. Relembre-se os movimentos feministas e juvenis que tiveram uma importância fulcral neste contexto.

Notas:

[1] Almeida. J. F., 1990, Portugal Os Próximos 20 Anos. VIII – Valores e Representações Sociais. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

[2] Foucault. M., 1994, História da Sexualidade III, Lisboa: Relógio D´Àgua.

[3]Freud. E., 1905,  “ Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” in Edições Standart Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud… Tradução de Jayne Salomão, Rio de Janeiro, Ed. 1980.

[4]Queirós. E., 1992, Os Maias, Clássicos, Porto: Porto Editora.

[5] Vilar. D., 2003, Falar disso – A educação sexual na família dos adolescentes. Porto: Ed. Afrontamento.

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