Droga e vício: suas construções e desconstruções

Dimensão analítica: Direito, Justiça e Crime

Título do artigo: Droga e vício: suas construções e desconstruções

Autora: Lúcia Nunes Dias

Filiação institucional: ISCTE – Escola de Sociologia e Políticas Públicas

E-mail: dias1677@gmail.com

Palavras-chave: drogas, vício, dependência.

O cenário onde se move o conceito de “droga” tem-se constituído um problema central da história social, cultural e política, assumindo uma textura complexa anexa a importantes modificações e impactos transformativos ao nível das dinâmicas socioculturais, políticas, legais e económicas na sociedade mundial.

O movimento da existência leva o ser humano a desejar experienciar determinadas realidades subjetivas e alterações dos seus níveis de perceção.

Assim, e ao longo de várias épocas e em várias culturas têm sido realizadas experiências de trance e êxtase místico através do uso de substâncias psicoativas em rituais xamânicos, religiosos e espirituais com o objetivo de proporcionar estados alterados da consciência, visões ou manifestações divinas do espirito.

O postulado de base da dimensão persuasiva e valorativa do conceito de droga, advém desde que o ser humano existe com a capacidade de vontade, responsabilidade e poder de escolha, num mundo material com realidades e experiências subjetivas observáveis e percecionáveis.

As definições e conceptualizações do termo “droga” têm sofrido, ao longo dos tempos, significações tão diversas, aplicando-se a especiarias aromáticas, como a canela, cravo, a pimenta, a tintas, óleos, raízes officinaes de tinturaria e botica, a qualquer substância ou ingrediente que se usasse em farmácias e em tinturarias, ao medicamento, ao tabaco, ao álcool, à maconha, à cocaína, ou seja, a qualquer substância que permita ao homem um estado psíquico que lhe pareça agradável, prazenteiro mesmo que artificial e não natural.

Acusando uma impermanência de definições terminológicas em torno da droga e seus consumidores Sylvie Geismar-Wieviorka [1] parte da ideia de que não há uma mas múltiplas formas de se ser dependente de drogas, assumindo que a definição de toxicodependente surge de uma série de pontos comuns, de dimensões e singularidades que permitem a construção de significados e significantes em torno de indivíduos que na sua vida fazem uso/abuso de substâncias psicoativas – substância química que age principalmente no sistema nervoso central, onde altera a função cerebral e temporariamente muda a perceção, o humor, o comportamento e a consciência.

Lysander Spooner [2], se bem que não despreze os pontos de vista destas reflexões orientadas para a busca de referenciais comuns às personalidades toxicómanas defende a ideia de que “não há dois entre nós que sejam inteiramente idênticos, quer do ponto de vista físico, quer do mental ou do afetivo; nem, por conseguinte, ao nível das necessidades físicas, mentais ou afetivas cuja satisfação nos permite aceder à felicidade e evitar a infelicidade”.

É, por vezes, a busca pela felicidade que, voluntariamente, conduz o homem ao vício – pelo prazer que este lhe proporciona, pelo menos por algum tempo, e, “muitas vezes, só se revelam como vícios, pelos efeitos que produzem, depois da sua prática ao longo de anos, ou mesmo de uma vida inteira” [3]. E para muitos, talvez para a maioria dos que a eles se entregam, não se manifestam de maneira alguma como vícios no decorrer da sua existência, apenas mantendo-se numa esfera de regularidade e ocasionalidade a sua experiência com os vícios [4].

Ora a dinâmica da atividade do homem, passa a depender da contingência humana do desejo manifesto na condicionante “busca de um prazer ininterrupto”, que poderá conduzir, ou não, à dependência, “prática que faz funcionar realmente o poder de um desejo tornado insaciável e cada vez mais devorador, a ponto da satisfação nunca definitiva – chave do prazer plural, móvel, e renovável: fixação em produtos de que já não se consegue prescindir, para não se sofrer demasiado. A dependência, em suma, realiza a teoria do desejo” [5]. A este respeito, concretiza ainda Aurélio da Fonseca “experimentada a droga por algum motivo, diversos pretextos seduzem o indivíduo a, de novo, usá-la mais uma e outra vez…” [6].

Portanto, o que parecia verdadeiro torna-se falso, o que parecia real torna-se ilusório, o que parecia eterna felicidade torna-se em engenhosas condensações assombrosas. As perceções das coisas alteram-se, transformam-se e deformam-se e o universo das drogas em metamorfose passa de uma requintada e luminosa felicidade para uma intensidade individual malograda.

Notas

[1] Geismar-Wieviorka, Sylvie (1995), Les Toxicomanes. Paris: Éditions du Seuil, p. 18.

[2] Spooner, Lysander (1998), Os vícios não são crimes, Lisboa (1.ª ed. 1875): Fenda Edições, Lda, p. 13.

[3] Spooner, Lysander (1998), idem, p. 13.

[4] Spooner, Lysander (1998), idem, p. 11.

[5] Sissa, Giulia (1997), O Prazer e o Mal – Filosofia da Droga, Coleção: Epistemologia e Sociedade, Lisboa: Instituto Piaget, pp. 8 e 9.

[6] Fonseca, Aurélio da (1988). O essencial sobre drogas e drogados. Lisboa. INCM, p.3.

 

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