Discursos em torno do apoio dos avós

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Discursos em torno do apoio dos avós

Autora: Margarida Mesquita

Filiação institucional: Professora Auxiliar no Instituto Superior de Ciências Sociais e Politicas – Universidade Técnica de Lisboa e Investigadora no Centro de Administração e Politicas Públicas

E-mail: margaridamesquita@iscsp.utl.pt

Palavras-chave: parentalidade; apoio dos avós; redes de apoio

Contemporaneamente as redes de apoio familiar contraíram-se, face ao decréscimo da fecundidade e das mudanças nos projetos de vida, e expandiram-se, face ao aumento das possibilidades de convivência em número de gerações que resulta do aumento de esperança média de vida. A solidariedade entre gerações mantem-se forte continuando os avós a desempenhar um importante papel no apoio aos cuidados às crianças, não obstante do crescente recurso a soluções socioeducativas externas à família e apesar de o apoio mutuo estar num processo de redefinição sobre novas bases em que a perceção subjetiva de independência dentro da rede familiar joga um papel crescente.

Os discursos sobre o apoio dos avós são, por vezes, aparentemente contraditórios:

1. Realça-se a importância do apoio dos avós, os seus efeitos emocionalmente gratificantes para todos e os seus benefícios no desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo que se adverte para os seus potenciais efeitos indesejados.

Entre os efeitos positivos do apoio dos avós tende-se a destacar: para os avós, a gratificação pelo desenvolvimento de relações carinhosas sem as responsabilidades de disciplina e de disponibilidade exigidas à parentalidade; para a geração do meio, alivia o sistema parental de algumas responsabilidades libertando os progenitores para o mercado de trabalho e para o investimento na conjugalidade, além de diminuir os encargos financeiros; para a criança, o apoio dos avós torna menos problemática a ausência dos pais derivada da sua inserção no mercado de trabalho e amplia as suas possibilidades educativas e experiências socializadoras.

Entre os possíveis efeitos indesejáveis do apoio dos avós costumam referir-se: assumir de algumas funções parentais pelos avós com interferência na necessidade de autonomia dos progenitores que podem ser interpretadas como uma ingerência ou desqualificação das suas competências; desequilíbrios entre solicitação e oferta de apoio comprometendo as fronteiras entre sistemas e levando a usurpações de poder por parte dos avós (sobre a criança e noutras decisões familiares que extrapolam das competências que normalmente lhes seriam atribuídas); choques de modelos educativos; e, o deslocamento, para esta área, de outras dificuldades relacionais. E, o apoio amplo e continuado pode evitar a ativação dos recursos pessoais dos progenitores e inibir a manifestação das suas competências, favorecendo a longo prazo uma baixa auto-estima e/ou o desenvolvimento de sentimentos de rejeição face à pessoa que oferece o apoio e pode gerar nos avós o desejo de prolongamento da dependência com vista a manter a gratificação de se sentirem úteis e generosos.

2. Enfatiza-se o aumento da esperança média de vida e de saúde em geral das “novas” gerações idosas e o seu caráter ativo, ao mesmo tempo que se salienta a sua maior disponibilidade, associando essa etapa de vida à retirada do mercado de trabalho e à inatividade.

O aumento dos níveis de saúde e bem-estar conduziu a gerações idosas que se mantêm ativas por mais tempo e a reforma é cada vez menos sinónimo de inatividade.

Apesar de a ser as principais colaboradoras dos progenitores nos cuidados às crianças, as avós contemporâneas podem mostrar-se menos disponíveis, seja pela necessidade de trabalharem seja pela definição de (novos) projetos de vida que não passam (mais) exclusivamente pela orientação para a família. Cuidar dos netos deixou de ser visto por muitas como um percurso natural e a profissão passou a ser vista como uma vocação, que não pretendem ou não podem interromper, porque começaram tardiamente ou interromperam por razões relacionadas com a maternidade, porque implicou investimento nos estudos e conduziu a uma carreira que as realiza, e, porque, nalguns casos, lhes permite recuperar de uma situação desequilibrada por um divórcio, pelo desemprego ou pela morte do marido.

O aumento da probabilidade de convivência entre gerações possibilitou o reforço das tradicionais funções dos avós, em particular a afetiva em que é possível investir mais face à diminuição do número de netos e ao aumento da probabilidade de maior durabilidade da relação, mas aumentou, também, a probabilidade de a geração do meio ter de em simultâneo cuidar/apoiar os mais novos e os mais velhos.

3. Continua a falar-se do dever de apoio dos avós ao mesmo tempo que se ressaltam as alterações nas solidariedades tradicionais e se salienta a ideia de autonomia das famílias nucleares.

Por necessidade ou pelo desejo de autonomia dos casais, a coabitação entre gerações é cada vez mais rara. Segundo alguns autores, frequentemente os jovens casais instalam-se próximo dos pais e a separação física não impede as gerações de manterem intensas ligações afetivas e sociais, graças aos modernos meios de comunicação e transportes, o que permite a convivência e apoio. Contudo, de acordo com outros autores, a distância diminui os contatos e consequentemente a proximidade afetiva o que debilita os sentimentos de obrigação mutua e consequentemente a prática de ajuda mutua.

Concluindo

Embora podendo comportar riscos e interferências nas relações familiares, o apoio dos avós pode ser visto como uma solução ideal quando existem boas relações entre as duas gerações se respeita a autonomia dos progenitores e prioriza a ativação dos seus recursos.

O apoio dos avós no cuidado aos netos deve ser reconhecido como uma delegação e não como uma substituição e funcionar de modo a permitir um equilíbrio entre dar e receber. As aparentes contradições talvez mais não façam que retratar uma realidade multifacetada a que corresponde uma pluralidade de imagens do papel dos avós contemporâneos e uma diversidade de situações quanto à sua disponibilidade e aos potenciais efeitos do seu envolvimento no cuidado aos netos.

Bibliografia

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