Centros comerciais (II)

Dimensão analítica: Mercado e condições de trabalho

Título do artigo: Centros comerciais (II)

Autora: Sofia Alexandra Cruz

Filiação institucional: Faculdade de Economia da Universidade do Porto e Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: sacruz@fep.up.pt

Palavras-chave: centros comerciais, história, Portugal.

Este texto surge na sequência do artigo “Centros Comerciais (I)” e procura enquadrar o processo de implantação e desenvolvimento dos centros comerciais em Portugal, sugerindo diferentes momentos de uma história relativamente jovem, embora marcada por um ritmo intenso de mudanças e singularidades várias [1].

Um primeiro momento da história dos centros comerciais portugueses atravessa a década de setenta do século passado. Neste período, sobressaem empreendimentos de pequena dimensão, que não possuem unidades de gestão e de planeamento do mix comercial, localizados por excelência nas cidades de Lisboa (Centro Comercial Apolo 70 (1971) e o Centro Comercial Imaviz (1975)), e Porto (Centro Comercial Foco (1973) e o Shopping Center Brasília (1976)). Estes centros comerciais resultam quer do investimento de proprietários e construtores civis que pretendem apostar em projectos novos, quer da acção de operadores cinematográficos que tencionam explorar o espaço que detêm com a criação de pequenas galerias comerciais, quer ainda da iniciativa de algumas cadeias de supermercados nacionais ou regionais, que fortalecem o seu negócio construindo espaços de comércio complementares aos seus. Nesta fase, a arquitectura e o design dos projectos não se revelam uma dimensão prioritária.

A década de oitenta constitui o segundo momento da implantação dos centros comerciais portugueses. Destaca-se pela intensidade de abertura dos estabelecimentos, pela diversificação dos formatos e pelas novas localizações em espaços recém urbanizados de cidades sem aparelho comercial ou então da sua periferia. Durante esta fase, a arquitectura e o design dos projectos comerciais é manifesta, sendo evidente a construção de edifícios mais complexos, constituídos por dois pisos cuidadosamente preparados sob o prisma do lay-out, conciliando o espaço comercial propriamente dito com a criação de recintos comuns propícios a momentos de lazer. Esta fase da história dos centros comerciais pode ser considerada como o embrião daquilo que é hoje uma aposta extremamente forte destes formatos comerciais, a da criação de espaços de lazer e bem-estar no interior do próprio centro com a oferta, por exemplo, de salas de estar com sofás, de espaços de lazer para as crianças, de espaços de beleza e de cuidado com o corpo (cabeleireiros, ginásios), de espaços culturais com mostras de exposições de fotografia, pintura, entre outros. Relativamente ao mix comercial, regista-se um cuidado particular com a selecção e localização dos estabelecimentos comerciais a albergar nos centros, no sentido de criar economias de aglomeração, por exemplo, com a existência lado a lado de espaços que disponibilizem produtos alimentares (cadeias de supermercados com charcutaria, peixaria) e produtos associados à restauração (cafés, restaurantes). Ainda a este nível, destacam-se as lojas âncora, por exemplo os hipermercados, como locomotivas dos centros comerciais, a ocupar uma localização estratégica, frequentemente em locais de menor acessibilidade, pois tal implica que o público consumidor para as alcançar circule em corredores onde se cruzam com outras lojas comerciais, que podem incitá-los ao consumo. Ao nível dos promotores, esta fase demarca-se claramente da anterior, porquanto são agora os grandes grupos económicos nacionais, juntamente com os da distribuição alimentar estrangeira, que se lançam na construção de novos centros comerciais.

No terceiro momento, que percorre a década de noventa, surgem os designados mega-projectos. Em finais de 1998, operavam em Portugal vinte empreendimentos comerciais, que reuniam aproximadamente 3250 estabelecimentos. Destes, apenas três abriram antes de 1990. Excluindo o Minho Center em Braga, o Braga Shopping, o Guimarães Shopping, o Fórum Aveiro e o Coimbra Shopping, localizados nas cidades que lhes conferem o nome, os restantes situam-se em Lisboa e no Porto, bem como nas respectivas Áreas Metropolitanas. As lojas âncora deixam de ser em exclusivo os hipermercados e passam a ser os espaços de restauração e salas de cinema. Nesta fase, é possível destacar dois tipos de centros comerciais, considerando a sua arquitectura, lay-out e mix comercial. O primeiro agrega os que correspondem mais a uma cópia do tradicional centro comercial norte-americano, com dois a quatro mega estabelecimentos, concebidos como lojas âncora ligadas por um corredor central, constituído por dois pisos e lojas comerciais diversas, e que tem à disposição um amplo estacionamento com cobertura ou ao ar livre. Localizam-se preferencialmente nas periferias das grandes cidades, em virtude da maior disponibilidade de espaço físico aí existente. O segundo corresponde a um modelo de centro comercial mais elaborado, de dimensões maiores e dotado de uma estrutura funcional mais complexa. O baluarte deste modelo é o Centro Comercial Colombo, que pela sua gigantesca dimensão de 119745 m2 de área bruta locável chegou a ser apontado como a nova “baixa de Lisboa”[2]. Em termos de entidades promotoras, destaca-se o papel dos grandes grupos económicos nacionais e estrangeiros que consolidam os seus investimentos na indústria dos centros comerciais.

Para concluir, é possível apontar um quarto momento da história dos centros comerciais portugueses desde 2000 até à actualidade. Nestes últimos anos, sobressai a tendência para a proliferação de novos formatos comerciais de dimensão mais reduzida, disseminados um pouco por todo o território nacional. Também se regista a emergência de realidades, como os factory outlets centres, que conquistam terreno nos arredores da Área Metropolitana do Porto (Vila do Conde e Grijó) e na Área Metropolitana de Lisboa (Carregado e Alcochete). Em termos arquitectónicos e de design, os edifícios construídos adaptam-se progressivamente aos seus objectivos comerciais. As entidades promotoras revelam origens mais diversificadas, o que sintoniza com a natureza heterogénea das realidades comerciais.

Notas

[1] Para uma análise mais detalhada consultar: Cruz, Sofia Alexandra (2010), O Trabalho nos Centros Comerciais, Porto, Afrontamento.

[2] Cachinho, Herculano (1999), O Comércio Retalhista Português na (Pós)-Modernidade Sociedades, Consumidores e Espaço, Tese de Doutoramento, FLUL, p.184.

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