Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia
Título do artigo: Quando as novas oportunidades são desprezadas pelas velhas hierarquias
Autor: Pedro Abrantes
Filiação institucional: Instituto Universitário de Lisboa, Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES/IUL)
E-mail: pedro.abrantes@iscte.pt
Palavras-chave: educação, programa novas oportunidades
O abandono e desprezo do novo governo pelo Programa Novas Oportunidades constitui, independentemente das qualidades e defeitos do sistema, um profundo desrespeito pelo milhares de profissionais que se empenharam na sua construção, bem como das centenas de milhares de adultos portugueses.
Entre estes últimos, há muitos milhares de casos de vidas sofridas que abandonaram precocemente os estudos para participar no esforço familiar pela sobrevivência, mesmo sabendo que isso significaria o fechamento da sua vida em circuitos incertos de trabalhos duros, subordinados e mal pagos. Empenharam-se num trabalho de meses para escrever a sua autobiografia, frequentaram sessões de formação e orientação, até enfrentarem o júri de certificação, na esperança de enfim recuperar uma dignidade social e profissional, perdida na inflação dos diplomas.
Sendo aqueles que mais sofrem com a crise económica, descobrem hoje que o atual governo não reconhece qualquer valor a este diploma que lhes foi atribuído. Pior, considera que o todo trabalho que realizaram e as expectativas de dignidade socio-profissional que o motivaram foram parte de uma pura ação de marketing político.
Esta nova orientação política reflete então o regresso à ideologia mais conservadora de que as habilitações são monopólio de uns poucos, atribuídas unicamente pelas escolas e universidades. Quem não as pôde frequentar, deve aceitar o lugar desfavorecido que lhes foi reservado na ordem social. Aquilo que se aprendeu, em carne viva, na escola da vida volta a ser irrelevante para as instituições oficiais.
Os ataques ao programa por parte das classes sociais favorecidas, mesmo em pessoas que se afirmam de esquerda, só pode ser entendido pela ameaça a hierarquias profundamente incrustadas nas almas e nos corpos, no país mais desigual da Europa. O silêncio visível dentro do próprio partido que implementou o programa e demais forças de esquerda revela como essa ideologia conservadora se encontra fortemente incrustada na classe dirigente, depois de quase quarenta anos de democracia.
Na investigação de pós-doutoramento que tenho vindo a realizar desde 2010, tenho vindo a analisar muitos casos de trabalhos genuínos e de qualidade realizados por estes adultos, para a obtenção do 9º ou do 12º ano, com o apoio inestimável dos técnicos. Não dúvido também que, tal como na escola regular, não haja casos em que se possa ludibriar o sistema em benefício próprio. Mas estes problemas devem, em sociedades civilizadas, ser diagnosticados por estudos sérios e conduzir a melhorias progressivas dos sistemas.
O reconhecimento das competências adquiridas na vida constitui um passo histórico na educação de adultos em Portugal e no próprio movimento de justiça social. Não pode ser negligenciado por uma qualquer percepção apressada da sua irrelevância económica que nem sequer resulta de um estudo sério. Mas pior do que deixar de investir, é destruir trabalhos honestos e esperanças legítimas de muitos milhares de portugueses. Esperemos que os governantes se apercebam disto. Ainda estão a tempo.




Caro Pedro Abrantes,
Considero este seu estudo, certeiro, oportuno e muito importante.
Mais do que um retrato, este trabalho revela-nos um filme que os portugueses (alguns) já assistiram várias vezes em várias épocas da nossa longa História.
Na era da Renascença Portuguesa, Camões ironizou contra os “velhos do Restelo”, Ramalho, Eça e Bordalo criticaram esta taquanhez bafienta e viral que não nos larga, o Estado Novo aplicou-nos a grilheta e o torno para esmagar qualquer rasgo de inovação e crescimento social, Abril, revelou um raio de sol, que rapidamente foi afogado pelas velhas e novas águas que se lhe juntaram e que criaram uma nova elite que beneficiou de um período de janela.
Agora é essa mesma elite que diz basta!
Governados por jovens marionetas manipuladas por velhas mãos, conhecidas e invisíveis, querem fazer-nos crer nos êxitos das reformas. O final do filme advinha-se, claro, nítido!
Afinal, o rei vai nu e o perigo é que fracos reis, tornam fraca a forte gente.
Mas como refere o autor, ainda há tempo. Por isso o felicito, pelo trabalho e pelo grito de alerta.