Problematizando o sucesso educativo nos colégios de “elites”: entre a formação integral e a homogeneidade social

Dimensão analítica: Educação, Ciência e Tecnologia

Título do artigo: Problematizando o sucesso educativo nos colégios de “elites”: entre a formação integral e a homogeneidade social

Autora: Luísa Quaresma

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Universidade do Porto

E-mail: quaresma.ml@gmail.com

Palavras-chave: Sucesso educativo, colégios, elites

A publicação dos rankings escolares trouxe para a ribalta o debate em torno da alegada crise do ensino público e qualidade do ensino privado, mobilizando vivas e controversas discussões no campo mediático e científico. A atualidade desta polémica, as tendências privatizantes e liberalizadoras que invadem o sistema de ensino e a escassez de investigações sociológicas sobre as escolas privadas de reconhecido sucesso académico levaram-nos a imergir no universo de dois colégios que ocupam os lugares cimeiros dos rankings e aos quais se associa uma imagem de “qualidade” e “excelência” – de ensino, mas também de “clientela estudantil”. Nas duas realidades educativas estudadas – um colégio laico e outro religioso, sedeados em Lisboa -, encontramos, com efeito, alunos provenientes das franjas mais capitalizadas em termos de capital económico e cultural, que atribuem sentido à escola, que se integram no perfil de bom executante do ofício de aluno e que se regem pelo ideal de excelência, uma marca, como crêem, da educação distintiva exigida na construção de um projeto de futuro escolar e profissional antevisto como auspicioso. Mas estaremos perante alunos – e colégios – focados essencialmente na dimensão instrutiva, como uma (superficial e imprecisa) imagem mediática sugere? A reflexão em torno das representações sociais de sucesso dos agentes educativos destas duas escolas permitiu-nos concluir que, na linha das missões educativas perseguidas pelas classes dominantes, o sucesso não se restringe ao êxito escolar sendo, ao invés, percecionado numa aceção holística. A dimensão académica é, no entanto, uma dimensão central do sucesso, sendo inegável que a boa performance escolar dos alunos integra as preocupações de toda a comunidade educativa, cujas produções discursivas são atravessadas, além do mais, pela contínua apologia da excelência, da cultura do trabalho, do rigor e do esforço. Também a importância concedida a instrumentos de distinção e emulação, como o Quadro de Honra/Prémio de Melhor Aluno, galvanizam as comunidades educativas em torno da ideologia meritocrática e da excelência, os novos signos distintivos em tempos de (relativa) democratização escolar.

Contudo, a par da vertente instrutiva, os dois colégios integram na sua conceptualização de sucesso outros pilares educativos que consideram estruturadores da formação plena dos alunos: uma educação holística que assegure aos jovens a preparação para integrar as futuras elites sociais, culturais, económicas e políticas do país e lhes confira o sinal distinto e distintivo – até em termos de ética e de moralidade – relativamente aos alunos de outras escolas. Deveremos questionar, no entanto, se é possível, no quadro de uma sociedade plural, social e culturalmente diversa e complexa como a nossa, garantir aos jovens uma formação integral coartando-os de interações sociais diversificadas e circunscrevendo-os a um universo escolar homogéneo, como o destes colégios, em que a “socialização entre iguais” apenas permitirá uma educação para a diferença (por via de ações de solidariedade ou de contacto distanciado e hierarquizado com o outro) e não uma educação com e na diferença. Essa preocupação é, aliás, expressa pelo Presidente da Associação de Alunos do colégio religioso quando nos diz: “O colégio procura tentar educar para a diversidade porque tem a ação social. Sim, mas a ação social é nós ajudarmos outras pessoas… menos coiso. E eu acho que não devíamos ser só nós a ajudar. É preparar para viver com eles, não é? Para viver com eles, não é estar cá de cima – no sentido humilde, não é superior – é no sentido de nós a ajudá-los e não de conviver… Entre iguais”.

Este projeto socializador entre iguais tem por meta, como vimos, uma formação plena onde se inclui, para além da dimensão académica, a social, a cultural e a cívica. Estas quatro dimensões integram, no olhar e nas práticas dos colégios e dos agentes educativos, uma conceção de sucesso de significação plural e multicontextualizada: plural, porque abarca uma multiplicidade de facetas; multicontextualizada, porque tem por cenário uma diversidade de locus socializadores (a escola, mas também espaços extraescolares de educação, de sociabilidade juvenil, de promoção cultural e de intervenção cidadã). O sucesso educativo contempla, pois, a vertente social, relativa às redes de interação entre os agentes educativos, à sedimentação do sentido de pertença a uma “família” escolar; a vertente cultural, indissociável da educação para as diferentes expressões da cultura e do envolvimento dos alunos nas actividades culturais “massificadas” e/ou “elitizadas”; e, finalmente, a vertente cívica, associada à importância atribuída aos valores de uma educação cidadã e ao envolvimento discente em práticas cívico-associativas. Ainda que ambos os colégios persigam estas metas formativas e que os seus alunos evidenciem ter interiorizado a importância de cada uma delas na definição de um estudante bem sucedido, a aposta nestes três pilares educativos e a centralidade de cada um deles revestem-se de tonalidades e intensidades diferentes de colégio para colégio, o que é, simultaneamente, causa e consequência de um ethos próprio que os distingue, que integra o respetivo legado fundacional e que as famílias, ciosas de uma educação de sintonias, procuram. O colégio laico, por exemplo, concede à dimensão cultural uma ênfase superior à do colégio religioso, fazendo dela um dos seus traços distintivos; este último colégio, por seu turno, privilegia, dentro da dimensão cívica, a componente do voluntariado e do “serviço ao outro” que se impõem como marcas identificadoras do seu projeto educativo.

Os traços específicos de cada uma destas escolas parecem, assim, constituir a prova de que as classes mais capitalizadas não configuram, internamente, uma realidade homogénea no que diz respeito aos valores perfilhados e aos estilos de vida em que pretendem socializar os seus descendentes. Em sintonia, instâncias familiar e escolar abraçam um projeto de forma(ta)ção dos alunos e das suas leituras do mundo. Evidenciando a internalização dos valores em que foram socializados – convergência reforçada pelo efeito da socialização amical “entre iguais” –, os jovens tendem a viver o presente e a idealizar o futuro à luz dos projetos e expectativas familiares e colegiais. No atual contexto de incerteza e de mudança económica e social, resta perguntar se, mesmo no seio das classes mais capitalizadas, os caminhos hoje projetados serão, linearmente, os caminhos amanhã percorridos.

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