Em movimento contra a crise

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: Em movimento contra a crise

Autora: Inês Pereira

Filiação institucional: Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL), Lisboa, Portugal

E-mail: icfp@iscte.pt

Palavras-chave: Movimentos sociais

A crise, real ou imaginada, teórica ou dolorosamente impregnada no nosso quotidiano, parece atravessar todos os domínios da vida social. Surge inclusive como bode expiatório, como desculpa, como justificação. Porque mesmo em épocas de crise, toda a gente parece ter soluções para apresentar, dos supermercados que publicitam preços anti-crise, aos políticos que prometem que, se seguirmos ordeiramente as suas políticas, Portugal voltará a ganhar confiança internacional…

Simultaneamente: um pouco por toda a Europa, assistimos a uma crescente contestação contra as medidas anti-crise, consubstanciadas em quadros de austeridade pesados, que impõem grandes sacrifícios a uma imensa maioria de cidadãos. Esta contestação desenvolve-se a diversos níveis, mais individual ou mais colectiva, por vezes de forma bastante institucional, outras em jeito quase amador.

Naturalmente, os partidos na oposição, os sindicatos, e as organizações e movimentos sociais estabelecidos no terreno têm trabalhado esta questão, enquadrando-a nos seus repertórios de acção. Simultaneamente, parece surgir uma efervescência colectiva relativamente nova (ou, pelo menos com alguns novos protagonistas, modos de acção e estratégias), conduzida por movimentos a que podemos chamar de ‘anti-crise’, que têm como grande leit motiv a convocação de manifestações, acampamentos, protestos e petições que visam a superação da crise, propondo alternativas às medidas de austeridade propostas pelos Governos e protestando contra a arbitrariedade das agências de rating. Na Islândia, esses movimentos levaram a profundas alterações políticas e económicas, com a recusa em pagar uma parte da dívida. Na Grécia, há meses que milhares de pessoas protestam, nas ruas de Atenas e de outras cidades, contra as medidas de austeridade, impondo uma agitação social constante no país. No Estado Espanhol, ficam para a História os acampamentos nas Puertas del Sol em Madrid e noutras cidades do país, propondo uma nova forma de contestação e participação política que contaminou o resto do mundo. Mais recentemente, o movimento Occuppy Wall Street tem estado nas bocas do mundo, propagando-se também a outras cidades. E também em Portugal, ainda que mais timidamente, este contestação social tem-se feito sentir.

Sendo difícil fazer a História desta agitação social, podemos, em Portugal, listar um conjunto de episódios marcantes. O primeiro será a manifestação do dia 12 de Março, que atingiu proporções verdadeiramente assinaláveis. Partindo de questões centrais como a precariedade laboral, este movimento agregou, primeiro na internet e depois na Avenida da Liberdade, várias gerações, figuras públicas, activistas de longa data e indivíduos que nunca se tinham manifestado. O hype gerado subsistiu posteriormente noutras pequenas manifestações, encontros e petições contra a precariedade.

A 15 de Maio, uma nova manifestação, inspirada em protestos internacionais, sob os slogans Democracia Verdadeira Já! e A Rua é Nossa! desce a Avenida, com cerca de centena e meia de manifestantes que dirigiram os seus protestos contra o FMI, os bancos e o governo português. Poucos dias depois, na sequência dos acampamentos em Madrid, um conjunto de activistas monta um acampamento no Rossio, iniciativa que se veio a estender a outras cidades portuguesas. Durante vários dias um conjunto diversificado de activistas ocupa a praça lisboeta, alguns pernoitam, outros passam por lá durante o dia, muitos frequentam as assembleias populares diárias e os grupos de trabalho e reflexão que se seguem, preparando manifestos, acções e manifestações, como a que ocorreu no dia 28 de Maio, novamente na Avenida da Liberdade e terminando no Rossio, para mais uma assembleia. Mesmo depois de uma intervenção policial fortemente contestada e da decisão de levantar o acampamento, as acções, manifestações e assembleias mantêm-se activas.

Mais recentemente, a 15 de Outubro, é convocada uma nova manifestação internacional, que junta um número bastante considerável de participantes nas principais cidades do país, e que parece gerar uma nova força para o movimento anti-crise. A plataforma 15 de Outubro mantêm-se ainda activa, com plenários regulares e vários grupos de trabalho no activo, tendo organizado alguns eventos, nomeadamente uma concentração para assinalar a discussão sobre o orçamento de Estado na Assembleia da Republica. Esteve também presente, manifestando-se na rua, no dia 24 de Novembro, marcado por uma greve geral. Simultaneamente, alguns activistas encontram-se, desde o dia 15 de Outubro, acampados em frente a S. Bento, numa acção inspirada pelo movimento Occupy Wall Street.

Os movimentos anti-crise parecem assim implementar-se lentamente no terreno, procurando contribuir para a superação desta realidade, e no caminho, fazer uma lenta mudança social. O futuro é difícil de traçar e dificilmente uma solução passará, apenas, pela acção destes actores. Pelo contrário, cabe a estes incrementarem o seu potencial de rede, articulando-se e desenvolvendo-se de uma forma simultaneamente centrífuga e centrípeta.

Por um lado, ampliando-se para lá das suas fronteiras, encontrando alianças e inspirações internacionais. É de destacar o carácter transnacional do movimento (o que só pode fazer sentido, tendo em conta que a própria crise é global). Estes movimentos anti-crise buscam inspiração nas revoluções árabes e nas suas técnicas e estratégias, ocupando praças centrais nas cidades onde se instalam. Por outro lado, no interior da própria Europa, os movimentos parecem ir beber inspiração directamente uns aos outros, assumindo a necessidade de aceitar e potenciar estas heranças: manifestos e convocatórias de movimentos como o 15M ou o 19M em Portugal reenviam para uma luta global, que se ancora em Tahir, em Atenas, na Islândia, em Madrid, em Wall Street…. Urge, no entanto, transpor o plano simbólico da convergência no sentido de promover uma concertação mais efectiva.

Por outro lado, é essencial, também, encontrar e potenciar as já existentes alianças locais com outros actores que podem agir como parceiro, promovendo o diálogo e a cooperação com outros actores, seja a sociedade civil em geral, sejam os sindicatos e organizações de trabalhadores, sejam as organizações não governamentais. A coesão social em torno de alguns princípios básicos e a concertação mínima entre os diferentes actores empenhados na mudança social anti-crise serão essenciais.

Os novos desenvolvimentos na contestação social, constituem, seguramente, um importante foco de atenção social, política e académica. Com a certeza que a História que estes e outros movimentos sociais estão fazendo será, também, a nossa própria História.

 

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