A construção da intimidade nos protagonismos do viver só

Dimensão analítica: Condições e Estilos de Vida

Título do artigo: A construção da intimidade nos protagonismos do viver só

Autora: Rosário Mauritti

Filiação institucional: ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, CIES-IUL

E-mail: rosario.mauritti@iscte.pt

Palavras-chave: viver só; classes médias urbanas; mudança cultural

Neste texto procuro alargar a concepção que define a «pessoa só» numa imagem de pessoa que vive em solidão, triste e sem família ou sem relações significativas, isolada do mundo. Nesta conformidade, sem deixar de reconhecer a presença, por vezes muito significativa, nos contextos do viver só, de fatias de precariedade, ligadas a situações de pobreza, exclusão social e marginalidade social, que os próprios dinamismos presentes na transformação social ajudam a produzir, sublinho que nas suas configurações modernas o fenómeno incorpora grande variabilidade, envolvendo cada vez mais jovens e adultos de ambos os sexos, detentores de elevados recursos socioprofissionais e qualificacionais.

É especialmente sobre estes que me debruço detalhadamente. Retomo a este propósito os resultados de um estudo recente, focado precisamente nas conexões entre mudança social e novos estilos de vida nas orientações do viver só [1].

Desde meados do século XX que o «viver só» (leia-se num alojamento sem partilha de terceiros) tem vindo a aumentar, particularmente nos grandes centros urbanos e metropolitanos das sociedades modernas ocidentais: em cidades como Estocolmo, Malmö ou Göteborg, Amesterdão, Copenhaga, Paris, Munique, Bruxelas e Frankfurt mais de 50% das unidades domésticas de alojamento são ocupadas por uma só pessoa.

Particularmente nos protagonismos de classe média urbana, este crescimento tem raiz não apenas nas mudanças sociodemográficas e institucionais, mas também, e talvez de forma ainda mais significativa, denota alterações culturais profundas, no que respeita concretamente aos modos de organização da vida privada e das formas familiares: indicando que as formas tradicionais convencionais de relacionamentos entre adultos terão perdido alguma atractividade.

Nestes dinamismos estão ainda imbricadas transformações que reflectem a orientação cultural proeminente de “ser autentico e igual a si próprio”, consubstanciada no «desejo» difuso de «libertação» ou de construir uma vida independente, onde frequentemente se assume que: ter dinheiro significa ter o seu próprio dinheiro, ter espaço significa ter o seu próprio espaço, e mesmo o mais elementar sentido da vida pode ser vivido tendo como centro o próprio indivíduo.

Nesta óptica, o crescimento e diversificação do viver só pode também ser visto como a continuação da «individualização», no sentido da «modernização reflexiva» de todas as esferas da vida social, e da «destradicionalização» dos valores e modos de viver as relações de e na intimidade [2][3].

Uma das questões que enfatizo no estudo anteriormente assinalado é a de que, não obstante o intenso crescimento do viver só, objectivamente, mesmo nas condições de modernidade avançada, o planeamento da vida organizado de modo reflexivo ou a possibilidade de construção de um “projecto” e correspondente capacidade de auto-realização e emancipação, não está igualmente acessível a todos.

Com efeito, a possibilidade efectiva de escolha sustenta ou mesmo reforça a polarização das diferenças nos estilos de vida contrastantes, selectivos e, ainda, fortemente diferenciados e diferenciadores, denotando práticas sociais que têm lugar numa sociedade heterogénea e marcada por desigualdades plurais.

Nesse estudo confirmo ainda que, se é verdade que ao longo de toda a vida adulta os indivíduos tendem a passar com maior frequência por experiências de residência unipessoal, isto não significa que estejam a ficar mais solitários ou que estejam a perder os laços de afinidade e de partilha na família e nas relações amicais. Frequentemente, é o inverso que acontece: a possibilidade de escolha por uma vida independente, demarcando os espaços e os tempos de sociabilidade, e aliviando as relações de uma normatividade prescritiva e de conflitualidade latente, acaba por promover uma intensificação dos laços e das trocas que se estabelecem na intimidade.

Por exemplo, se é verdade que um dos traços que demarca as relações sociais dos sujeitos que protagonizam o viver só é a aparente fluidez e abertura dos laços de afinidade e de partilha, observo igualmente que as relações com a família, não deixam de ter um lugar central, complementando-se, por vezes de forma intensa, especialmente no plano das afectividades e das partilhas, com novas formas de sociabilidade e intimidade amical, que configuram ocasionalmente uma “quase família” ou mesmo nova família, dita de “opção”.

Numa perspectiva de reforço ou manutenção destas relações, que em última instância constituem elementos cruciais na forma como cada um se reconstrói na singularidade das situações específicas que circunscrevem os seus espaços e os seus contextos, frequentemente, jogam também um papel central os usos intensos de novas tecnologias.

Por intermédio dos vários suportes de comunicação, por vezes veementemente incorporados nas práticas do quotidiano em regime de forte complementaridade entre esses meios e as relações interface, ao mesmo tempo que se facilita uma ampliação e intensificação das oportunidades de sociabilidade, reforça-se também a auto-percepção de que os sujeitos têm um controlo sob as condições e as circunstâncias sobre quando, como e com quem querem estar em comunicação e partilha. Actividades de trabalho/estudo e de lazer adquirem assim novas configurações, com espaços e temporalidades sem fronteiras ou, quanto muito, com delimitações que é o próprio que determina, aprofundando assim, em cada um, a convicção de que tem o “destino” pessoal nas suas mãos.

Nas relações inter-face, assim como nas trocas apoiadas nas várias ferramentas de comunicação, no seu «viver só», os sujeitos desenvolvem potencialidades e constroem as circunstâncias para expressarem as suas diferentes qualidades e interesses, concretizando, no domínio da vida pessoal, as condições da sua autonomia ou, nas palavras de Anthony Giddens:

… a capacidade individual para a auto-reflexão e para a auto-determinação: [para] deliberar, julgar, escolher e agir de acordo com os possíveis rumos da acção (1996:130).

Notas

[1] Mauritti, Rosário (2011), Viver Só: Mudança Social e Estilos de Vida, Lisboa, Editora Mundos Sociais.

[2] Giddens, Anthony (1996), Transformações da Intimidade: Sexualidade, Amor e Erotismo nas Sociedades Modernas Oeiras, Celta Editora.

[3] Beck, Ulrich e Elisabeth Beck-Gernsheim (2003), Individualization: Institutionalized Individualism and its Social and Political Londres, Sage Publications.

 

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