“Envie-nos as suas fotos e vídeos”: a importância do Jornalismo Cidadão no exercício da cidadania e na participação social

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: “Envie-nos as suas fotos e vídeos”: a importância do Jornalismo Cidadão no exercício da cidadania e na participação social

Autora: Marta Serra Lima

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: martalima999@gmail.com

Palavras-chave: Jornalismo Cidadão, Cidadania, Participação Social

O Jornalismo Cidadão tem vindo a assumir uma importância cada vez maior no universo mediático. Este termo surgiu no início do século XXI, nos Estados Unidos, com o intuito de classificar o processo de recolha, análise e divulgação de informação feito por pessoas sem qualquer formação na área do jornalismo. Quer pelo fomento crescente da participação do público ao nível das televisões, das rádios e dos jornais, quer pelo crescimento exponencial de plataformas de opinião na Internet, entre as quais se destacam os blogues, o Jornalismo Cidadão emerge como um elemento central no exercício da cidadania e no estímulo da participação social nas sociedades contemporâneas. Uma das formas mais comuns deste exercício passa pelo alargamento de funções, outrora reservadas aos jornalistas, ao público em geral, nomeadamente através da recolha de imagens de um determinado acontecimento. Para este alargamento contribuíram dois factores-chave: a impossibilidade de se ter um jornalista em todos os cantos do globo; a expansão e generalização dos dispositivos tecnológicos ao dispor do cidadão comum.

O primeiro factor aplica-se, sobretudo, aos meios de comunicação social “tradicionais”, como a televisão, a rádio e os jornais, que passaram a ver no seu público uma solução para esta impossibilidade. A esta vantagem soma-se a mais-valia de os jornalistas passarem a receber imagens e relatos dos acontecimentos sem sair da redacção, de forma gratuita e, não raras vezes, quase imediata. Expressões como “envie-nos as suas fotos ou vídeos” ou “envie-nos o seu relato” são cada vez mais comuns nos noticiários televisivos e radiofónicos, bem como nas páginas dos jornais, quer em formato papel, quer online, espelhando o relevo que o cidadão tem vindo a assumir na construção da notícia.

A expansão dos dispositivos tecnológicos a franjas mais alargadas da população emerge como o segundo factor explicativo para o surgimento do Jornalismo Cidadão. De acordo com Frederico Correia [1], o facto de grande parte das pessoas terem ao seu dispor tecnologias como os telemóveis 3G fez com que a recolha de fotografias, vídeos e relatos se tornasse acessível a partir de um único dispositivo, o que contribuiu significativamente para o aparecimento da figura do cidadão como elemento activo na produção de notícias. Por outro lado, importa não esquecer o peso que a generalização da Internet assume em todo este processo, permitindo a divulgação dos dados recolhidos de uma forma simples e imediata.

Esta generalização também poderá ser utilizada para justificar o crescimento exponencial que as plataformas de opinião registaram neste início de século. Neste plano, os blogues afiguram-se como um dos melhores exemplos, no sentido em que revolucionaram por completo o universo comunicacional, ampliando a participação das pessoas no mundo virtual e fomentando a análise e discussão em torno dos mais variados assuntos. As repercussões deste crescimento no campo jornalístico ainda não são suficientemente evidentes para que possamos falar na existência de uma influência, designadamente no plano da produção noticiosa, embora já encontremos, com frequência, referências a blogues quando consultamos notícias em jornais online, por exemplo. Não obstante, ao nível da análise dos acontecimentos, a influência dos blogues já é notória, com a transformação da figura do blogger em comentador (os comummente chamados “opinion makers”), em especial na televisão e na imprensa escrita. É habitual encontrarmos os autores de maior sucesso da blogosfera em programas de televisão, quer de entretenimento, quer de informação, a opinarem sobre diversos temas da actualidade, bem como nas páginas de revistas e jornais, onde escrevem artigos de opinião, o que ilustra bem a influência que os blogues têm vindo a exercer na esfera mediática.

Neste processo, o cidadão não deverá ser visto como um substituto do jornalista, mas como um complemento do trabalho jornalístico, na medida em que se torna essencial uma triagem da informação que será posteriormente transmitida ou publicada, o que acabou por contribuir para uma redefinição das próprias tarefas do jornalista neste contexto. Desta forma, o jornalista deixa de deter apenas uma função de recolha, interpretação e divulgação da informação, para passar a ter também uma função de selecção dos dados que lhe vão chegando pela mão do público. Paralelamente, o Jornalismo Cidadão não deverá ser entendido como um tipo de jornalismo, mas como uma forma de enriquecer e diversificar os tipos de jornalismo já existentes, contribuindo para um relato mais completo e, frequentemente, mais imediato dos acontecimentos.

Nota

[1] Correia, Frederico (2008), “Jornalismo do Cidadão – quem és tu?”, in Biblioteca Online de Ciências da Comunicação. [Consult. 18 de Setembro de 2011]. Disponível em: http://www.bocc.ubi.pt/pag/correia-frederico-jornalismo-do-cidadao.pdf

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