A educação financeira das crianças: aprender a gastar e a poupar

Dimensão analítica: Condições e estilos de vida

Título do artigo: A educação financeira das crianças: aprender a gastar e a poupar

Autora: Raquel Barbosa Ribeiro

Filiação institucional: Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa

E-mail: rribeiro@iscsp.utl.pt

Palavras-chave: Crianças, poupança, consumo

A literacia financeira, a capacidade de planeamento e a constituição de poupança são temas com uma importância crescente para académicos, governantes, educadores e empresas.

Recentemente, foi divulgada a intenção de criar um Plano Nacional de Formação Financeira [1]; participado pelo Instituto de Seguros de Portugal, pelo Banco de Portugal e pela Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, foi aprovado pelo Conselho Nacional de Supervisores Financeiros e deverá contribuir para elevar o nível de conhecimentos financeiros da população, de forma que os portugueses estejam mais bem preparados para adoptar comportamentos financeiros adequados à crescente complexidade e diversidade dos produtos financeiros actualmente disponibilizados no mercado, evitando a propagação de situações de investimento em produtos inadequados ao seu perfil de risco e também situações de sobreendividamento das famílias, sabendo-se já que muitos destes casos estão associados a falta de conhecimento sobre os produtos financeiros contratados. Além de melhorar o conhecimento e as atitudes financeiras dos portugueses, o Plano Nacional de Formação Financeira deverá também apoiar a inclusão financeira, desenvolver hábitos de poupança, promover o recurso responsável ao crédito e criar hábitos de precaução contra práticas ou situações de risco, reconhecem as três entidades envolvidas no projecto. O plano irá ser desenvolvido em cinco anos, até 2015.

A investigação em Ciências Sociais tem demonstrado a relação entre o desenvolvimento das noções de dinheiro e poupança nas crianças e a sua ulterior utilização na idade adulta (Anderson e Nevitte, 2006 [2]; Furnham e Argyle, 1998 [3]), assim como a importância de factores como a educação e as redes sociais na construção destas noções. Importa, assim, identificar e compreender as representações, percepções, sentimentos e práticas que enformam a vivência quotidiana da gestão financeira das crianças e qual é o contributo dos pais, da escola, dos pares, dos media e dos agentes económicos para a formação do pensamento aforrador.

Um projecto de investigação actualmente em curso no ISCSP-UTL, de cariz sociológico, visa investigar as representações e práticas financeiras, de gestão do dinheiro e de poupança, das crianças. O objectivo geral será contribuir para uma melhor compreensão da formação do pensamento financeiro infantil, bem como para o desenvolvimento e a avaliação de estratégias eficazes de literacia financeira junto das crianças e dos respectivos agentes socializadores. A equipa de investigação integra uma socióloga, um professor do Ensino Básico e uma aluna finalista de Serviço Social.

Face à oportunidade de a Escola Básica do 1.º Ciclo Arq. Victor Palla (Penha de França, Lisboa) e a Escola dos Salesianos (Estoril) serem alvo de um Programa de Educação Financeira desenvolvido um banco português, o estudo pretende: 1) identificar percepções e comportamentos da população em análise antes da aplicação do programa; 2) aferir, depois da aplicação do programa, os resultados cognitivos alcançados. Este programa consiste em quatro passos: uma aula informal de cerca de 90 minutos, centrada na mensagem “como se pode poupar dinheiro”, leccionada por voluntários do banco; um trabalho prático feito pelas crianças, a partir de um livro didáctico, com a assistência dos seus professores; uma visita a um banco, para aprender e experimentar a proximidade com moedas, notas e o multibanco; e uma visita a um centro comercial, com uma experiência de compra simulada num supermercado. As vantagens pedagógicas deste tipo de programas estão documentadas, por exemplo, por Zimmerman (2008) [4].

O universo engloba cerca de 240 alunos do 3º e 4º ano de escolaridade destas escolas. A título complementar, são também investigados os respectivos encarregados de educação e professores. A pesquisa é de cariz quali-quantitativo, assente em reuniões de grupo, entrevistas individuais e aplicação de inquéritos por questionário às crianças e aos respectivos encarregados de educação e professores. Começou-se com reuniões de grupo (nas quais participaram, no total, dezasseis crianças), para explorar as principais percepções e práticas relativamente ao dinheiro, ao consumo e à poupança. O objectivo das questões abertas foi apreender ideias de dinheiro, utilizações do dinheiro, origens do dinheiro, hábitos de compra, valores (a importância do dinheiro para ter poder, amigos, felicidade, sucesso…), hábitos de poupança, mesadas e semanadas, dinheiro de bolso, mealheiro, conta bancária e o papel da família na gestão do dinheiro da criança e no aconselhamento financeiro. Após uma análise de conteúdo, foi construído um questionário de 28 questões (com quatro perguntas abertas), pretendendo diagnosticar e mensurar cognições e representações sobre os assuntos referidos. O questionário foi aplicado a oito turmas, quatro das quais foram alvo do Programa de Educação Financeira. Após a aplicação do Programa, pretende-se repetir o questionário em todas as turmas, mesmo nas que não foram alvo das quatro etapas, para comparar resultados cognitivos e detectar eventuais diferenças.

Na análise, serão consideradas as diferenças por género, idade e enquadramento socioeconómico das duas escolas (a escola da Penha de França, pública, abarca uma população da classe média-baixa, com elevada incidência de desempregados e imigrantes, enquanto a escola do Estoril, privada, tem como alunos filhos de quadros médios e superiores).

Tratando-se de um estudo de caso, os resultados desta investigação servirão para a definição de práticas pedagógicas a implementar junto da população escolar e para a construção de um programa de educação financeira ajustado às necessidades das crianças.

Notas

[1] Conselho Nacional de Supervisores Financeiros (2011), Plano Nacional de Formação Financeira 2011-2015, disponível em http://www.cmvm.pt/CMVM/Coopera%C3%A7%C3%A3o%20Nacional/Conselho%20Nacional%20de%20Supervisores%20Financeiros/Documents/Plano%20Nacional%20de%20Forma%C3%A7%C3%A3o%20Financeira.pdf .

[2] Anderson e Nevitte (2006), “Teach your children well: values of thrift and saving”, Journal of Economic Psychology, vol. 27, 2, pp. 247-261.

[3] Furnham, A. e Argyle, M. (1998), A Psicologia do Dinheiro, Lisboa, Sinais de Fogo.

[4] Zimmerman, Jamie (2008) ‘Childs savings accounts: a primer’, New America Foundation.

 

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