Uma tentativa de aproximação social através da morfologia urbana

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: Uma tentativa de aproximação social através da morfologia urbana

Autora: Izabela Naves Coelho Teobaldo

Filiação institucional: Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto

E-mail: iza.naves@gmail.com

Palavras-chave: morfologia urbana, apropriação dos espaços, proximidade física versus distanciamento social

 

A análise da dimensão morfológica do espaço permite a compreensão da relação que esta estabelece com a lógica social do respectivo assentamento. Acredita-se que a compreensão dos espaços característicos das cidades é indissociável da sociedade que os produzem, uma vez que os habitantes dos diferentes contextos estabelecem diversificadas relações com os espaços do seu cotidiano, ou seja, estão intrinsecamente ligadas aos modos de vida e usos do espaço. As relações de poder também são elementos que estão interligadas com a relação entre as formas de organização física e as estruturas sociais e simbólicas de grupos, e a estrutura do espaço às identidades coletivas. Sendo assim, a morfologia urbana pode ser um meio que nos permite perceber algumas dessas relações, inclusive aquelas segregadoras, geralmente intensamente associadas ao plano simbólico.

Numa perspectiva morfológica, a cidade, assim como os conjuntos edificados, não possui função específica havendo, na verdade, uma conexão entre essas funções através da relação com o espaço. Pode-se dizer que a configuração espacial surge como resultado de processos históricos, sociológicos e económicos, ou seja, das diversas formas de apropriação do espaço pelos seus habitantes, estabelecendo uma relação dialética entre território e sociedade, onde a cidade e as formas urbanas de humanização do território permitem o permanente processo de transformação dos espaços. Segundo Rémy e Voyé [1], “a cidade é (…) o lugar onde as inter-relações são decisivas e se traduzem na própria morfologia”.

A cidade, objeto de estudo de diversas linhas de conhecimento, pode ser avaliada e pensada sob diversificadas maneiras. Os contextos em que se desenvolvem, as maneiras pelas quais os processos de urbanização são realizados, os diferentes modos de apropriação de sua população, tudo isso contribui para sua formação. No que diz respeito ao espaço urbano português, Lisboa e Porto são as duas maiores áreas metropolitanas de Portugal, apesar da clara diferença de escala entre as duas, tendo Lisboa uma área superior à do Porto. São cidades com fortes indícios de urbanização, mas que seguem processos de expansão diferenciados, mais concentrada em Lisboa e dispersa no Porto, com diferentes fases de desenvolvimento urbano. São estruturadas em torno de grandes vias de circulação, que acabam por torná-las fragmentadas, seja física ou simbolicamente.

Ambas as cidades possuem um traçado e uma composição morfológica interessante, que são formadas por um conjunto diversificado, no que diz respeito à composição social. É possível encontrar em uma pequena área, em edificações muito próximas umas às outras, grupos pertencentes a classes com capitais diferentes. Esse processo de ocupação está associado à expansão da malha urbana dessas regiões, consequência de um crescimento nem sempre planejado. As edificações relacionadas a cada grupo social datam de épocas diferentes, começando pela construção dos bairros sociais, em um momento em que essas regiões em questão ainda faziam parte da periferia. Com o crescimento da cidade, estas regiões tornaram-se centrais, e consequentemente mais valorizadas e aspiradas. Novas edificações surgiram, e com elas essa aproximação física potencialmente diversificada socialmente. Além do processo de ocupação, recentemente houve também uma tentativa de aproximação de diferentes grupos sociais através da construção de um conjunto de habitação diversificado socialmente nos novos planos de urbanização em Lisboa. Seja de forma espontânea, através do crescimento desordenado da cidade, seja intencionalmente, através de projetos urbanos, a aproximação entre as diversas classes a partir do plano espacial físico parece uma abordagem válida, mas isolada não parece ser suficiente para aproximar socialmente os habitantes desses locais. Principalmente quando as características das edificações destinadas a cada grupo acabam elas próprias os afastando.

É interessante perceber como as formas tipológicas dos edifícios tem muito a dizer dos mesmos e das pessoas que o habitam, permitindo, inclusive, “classificá-los” de acordo com a respectiva classe social. Os edifícios habitados por uma classe mais favorecida tendem a utilizar formas que permitem um sistema de isolamento físico e social, seguindo a lógica do condomínio fechado, com os espaços comuns privados e as principais aberturas voltadas para um pátio interno, que abrigaria esses espaços comuns. Enquanto na outra extremidade, a das edificações do bairro social, as aberturas são voltadas para fora e os espaços comuns são abertos, não só aos moradores mas também aos transeuntes, sendo completamente permeáveis (pelo menos no que diz respeito ao aspecto físico, uma vez que as fronteiras simbólicas invisíveis podem inibir as interações pessoais e sociais).

Apesar das formas de relacionamento urbano nas cidades sofrerem constantes transformações significativas, muitas vezes marcadas pela proximidade espacial entre grupos heterogéneos, essa proximidade não acontece no plano social, pelo contrário, os separa cada vez mais [2]. O espaço físico socialmente apropriado exprime hierarquias e distâncias sociais, sendo um meio de poder e domínio de violência material e simbólica. A proximidade no espaço físico permite que a proximidade no espaço social produza efeitos relativos à acumulação de capitais, nomeadamente, social e simbólico. Mas não se pode esquecer que, “a aproximação espacial de agentes muito distantes no espaço social [não] pode, por si mesma, ter um efeito de aproximação social” [3]. Para tal, outros elementos devem ser acionados, e não podem estar exclusivamente associados ao plano físico.

Notas

[1] Rémy, J; Voyé, L. (2004), A cidade: rumo a uma nova definição?, Porto: Edições  Afrontamento.

[2] Caldeira, T. (2000), Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo, São Paulo: Edusp.

[3] Bourdieu, P. (1993), La misère du monde, Paris: Éditions du Seuil.

Esta entrada foi publicada em Ambiente, Espaço e Território com as tags , , . ligação permanente.