Um processo nem sempre “a dois”: a reprodução conjugal do ponto de vista dos homens

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Um processo nem sempre “a dois”: a reprodução conjugal do ponto de vista dos homens

Autora: Vanessa Cunha

Filiação institucional: Investigadora Auxiliar do Instituto de Ciências Sociais, UL

E-mail: vanessa.cunha@ics.ul.pt

Palavras-chave: reprodução, negociação conjugal, perspectiva masculina

O que se conhece do lugar dos homens na construção da fecundidade conjugal? Na verdade muito pouco, pois é clássica (se bem que podemos dizer também involuntária) a omissão do seu papel no campo da reprodução [1]. E são várias as razões que confluem nesta invisibilidade. Uma delas prende-se à escassez de informação demográfica acerca da fecundidade masculina, na medida em que a disciplina consolidou a sua análise em torno de indicadores que dão conta, quase exclusivamente, da fecundidade das mulheres: o índice sintético e os indicadores de calendário, as taxas globais e específicas e a taxa bruta de reprodução, são indicadores que fazem o ponto da situação dos níveis de fecundidade de uma sociedade, a partir do retrato da fecundidade feminina.

Outra explicação está no facto de as ciências sociais em geral desde há muito que vêm interrogando a vida familiar a partir da perspectiva das mulheres. Com efeito, a elas se tem atribuído o protagonismo das mudanças que aí têm vindo a ocorrer desde meados do século XX, assim como das mudanças a nível dos comportamentos reprodutivos dos casais. E porquê? Antes de mais, porque a sua participação no mercado de trabalho poderia mitigar a aspiração à maternidade, como foi ampla mas erradamente sugerido. Mas também porque a preponderância dos métodos anticoncepcionais ditos femininos, com destaque para a contracepção hormonal, transferiu a responsabilidade da vigilância contraceptiva do homem para a mulher. Com efeito, era ao homem que competia tradicionalmente “tomar cuidado” (através do coito interrompido) para evitar uma gravidez indesejada.

A acrescentar a isto, a perspectiva microeconómica da fecundidade, inaugurada por Becker nos anos 60 [2], foi cúmplice da ideia de que no quadro da vida em casal a reprodução seria uma arena de escolhas racionais e definitivas de um casal em sintonia, isenta de indecisões ou tensões, pelo que a mulher seria melhor porta-voz da reprodução conjugal.

Será mesmo assim, estarão os casais sempre em sintonia, ou homens e mulheres chegam à “vida a dois” com aspirações reprodutivas próprias, eventualmente divergentes, que, a dado momento, têm de dar lugar a um projecto reprodutivo comum? Como é que os casais jogam, então, com essas expectativas porventura conflituais? E como é que os homens percepcionam e participam no processo de construção da fecundidade conjugal, no quadro de um paradigma contraceptivo que, não só permitiu tornar a reprodução numa escolha – ou melhor, numa sucessão de escolhas –, como também coloca o ónus do planeamento familiar sobre as mulheres?

Ora, numa investigação baseada em narrativas masculinas sobre o enredo da negociação e da construção conjugal da fecundidade [3], constatámos que se para muitos homens este constitui um processo verdadeiramente “a dois”, no qual se sentem implicados e co-responsáveis [4], para outros é palco de divergências e tensões conjugais, mais explícitas ou tácitas (para evitar o conflito), de difícil resolução. E quando tal acontece, sentem que a reprodução é uma arena que é ou pode ser apropriada e instrumentalizada pelas mulheres.

Este desencontro de expectativas parece ligar-se a duas questões centrais das trajectórias reprodutivas: por um lado, aos diferentes calendários da fecundidade de homens e mulheres, o primeiro menos condicionado do que o segundo; por outro lado, à elaboração desfasada dos projectos de parentalidade, pois enquanto os homens só delineiam esse projecto quando chegam à vida a dois [3], as mulheres, como têm revelado outros estudos, fazem esse exercício mais cedo e independentemente da situação conjugal [5] [6].

Com efeito, os homens parecem mais interessados em adiar, em especial no que toca ao primeiro nascimento, de modo a dar tempo à vida em casal; enquanto as mulheres mostram mais urgência em ter filhos, provavelmente porque estão numa “corrida contra o tempo” para fazer face aos calendários mais tardios da constituição da vida familiar, que é um traço que caracteriza, como se sabe, a fecundidade contemporânea.

Em síntese, se a conjugalidade e a parentalidade ainda andam a par na sociedade portuguesa – mais do que noutras, aliás, de tal modo que são poucos os homens e as mulheres, pelo menos em casal [7], que tomam a decisão de não ter filhos, já o quando ter filhos e quantos filhos ter podem dar lugar a tensões e a processos nem sempre a “dois”.

Estes resultados reflectem, então, uma das contradições imanentes à fecundidade contemporânea: a contradição entre a liberdade de escolha individual e a necessidade de consensualizar as legítimas expectativas dos dois indivíduos de um casal em matéria de reprodução.

Notas

[1] Green, Margaret; Biddlecom, Ann (2000), Absent and problematic men: demographic accounts of male reproductive roles, Population and Development Review, vol.26, 1, pp. 81-115.

[2] Becker, Gary (1960), An economic analysis of fertility, In National Bureau of Economic Research, Demographic and Economic Change in Developed Countries, Princeton: Princeton University Press, pp. 209-240.

[3] Cunha, Vanessa (2010), Projectos de paternidade e a construção da fecundidade conjugal, In K. Wall; S. Aboim; V. Cunha (Coord.), A Vida Familiar no Masculino. Negociando Velhas e Novas Masculinidades, Lisboa, CITE, pp. 265-312, Disponível em URL [Consult. 16 Mai 2011]: <http://www.cite.gov.pt>.

[4] Grady, William et al. (1996), Men’s perceptions of their roles and responsibilities regarding sex, contraception and childrearing, In Family Planning Perspectives, vol. 28, 5, pp. 221-226.

[5] Almeida, Ana Nunes (coord.) et al. (2004), Fecundidade e Contracepção. Percursos de Saúde Reprodutiva das Mulheres Portuguesas, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.

[6] Cunha, Vanessa (2007), O Lugar dos Filhos. Ideais, Práticas e Significados, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.

[7] Cunha, Vanessa (2010), The transition to parenthood: delaying fertility and fertility delayers, working paper, Lisbon, ICS-UL, pp. 1-17 (mimeo).

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