Dimensão analítica: Desporto
Título do artigo: O lugar do corpo na universidade: mente sã em corpo são? (I)
Autor: Rui Machado Gomes
Filiação institucional: Universidade de Coimbra
E-mail: ramgomes@gmail.com
Palavras-chave: corpo, desporto, saúde
O Desporto-instituição é uma das actividades humanas mais utilitárias que nos é dado conhecer. Porém, o Desporto enquanto objecto científico não obriga aqueles que se dedicam ao seu estudo a prosseguir o utilitarismo reinante nessa actividade social. É justamente na crítica ao utilitarismo e no elogio do inutilitarismo que pretendo desenvolver este artigo, assumindo que o lugar de uma visão crítica do corpo e do desporto na universidade é o de enfrentar o utilitarismo dominante, contrapondo-lhe o inutilitarismo contra-hegemónico. Para que esta proposta de reflexão seja possível torna-se necessário confrontar e revisitar alguns lugares-comuns associados à cultura do corpo contemporânea. Visto que o lugar-comum é o lugar da evidência podemos considerá-lo também como o lugar do vazio discursivo. Com efeito, cada sociedade forja à sua maneira as evidências que tornam familiar o modo como desenha um saber singular sobre o corpo. Tornar estranho o familiar através do exercício crítico do cepticismo racional e sistemático é sem dúvida um dos nobres papéis da universidade.
Um dos mais pregnantes lugares-comuns que tem justificado a presença do corpo-desportivo nos estudos universitários diz respeito à utilidade da exercitação do corpo na melhoria da saúde das populações. O topos mais usado é o da mente sã em corpo são, actualizado por versões mais recentes como a promoção da saúde através da informação e de estilos de vida activos e saudáveis baseados em actividades físicas. Proponho-me revisitar este topos sujeitando-o a uma análise crítica severa de modo a verificar se ele resiste ao teste da falsificabilidade. Fá-lo-ei em três actos de que este artigo constitui o primeiro.
Vivemos um tempo absorvido pela crise e pela jubilação do corpo. A angústia da idade, as obsessões com a saúde e a forma, os rituais de manutenção e de regime alimentar, a busca das terapias autónomas, a proliferação da automedicação e a busca crescente de informação sobre o corpo e a saúde são indicadores do fascínio sem precedentes pelo autoconhecimento e pela auto-realização dos sujeitos. Entretanto, uma tal reflexividade, impregnada que está de saber médico e psicológico, típico da modernidade tardia, nem sempre acrescenta capacidade de domínio da vida aos sujeitos. Contrariamente, intimida e inibe, frequentemente, as suas possibilidades de opção. O maior conhecimento sobre o interior de cada um não parece ter equivalente num maior controlo sobre o seu destino.
Tal incapacidade, originada pelos excessos de reflexividade da era da informação, é também a consequência da atmosfera de rigidez e de imobilidade do todo social. A sociedade parece imune a qualquer mudança, enquanto as reformas possíveis se deslocam para o interior de cada indivíduo e para o seu corpo. A crise das grandes narrativas, bem como os obstáculos ao conhecimento da sociedade no seu conjunto, parece ter transferido para o corpo de cada um a derradeira esperança dos projectos utópicos. O desencantamento do mundo terá produzido o encantamento do corpo. Todavia, para o ‘corpo’ poder ocupar o lugar do mundo foi preciso que aquele se fragmentasse.
A fragmentação do corpo revela muitas das suas ambiguidades. Em consequência dos progressos científicos e tecnológicos desenvolvidos em esferas tão diversas quanto a biomedicina, a engenharia genética, os transplantes de órgãos e tecidos, a reprodução, a cirurgia plástica, os implantes ou a fisiologia do exercício, o corpo tornou-se no novo território de exercício das liberdades individuais. Não é apenas a engenharia genética que nos vem propor uma nova arquitectura do corpo; os engenheiros de materiais, os físicos e a cirurgia também estão envolvidos no processo de criação de seres híbridos compostos por elementos orgânicos e electrónicos. Enquanto a classe médica vê as suas capacidades de diagnóstico e de especialização ampliadas; os leigos vêem aumentada a ansiedade provocada pela informação distribuída na sociedade em rede.
A ansiedade da informação define a condição em que a identidade dos leigos passa a estar dependente da pesquisa e dos dados sobre a saúde disponíveis para o grande público nas redes informativas constituídas pela internet, pela televisão e pela imprensa generalista e especializada. O conhecimento médico é hoje largamente acessível aos leigos através da sociedade em rede. O sonho do progresso social através do conhecimento tornou-se na modernidade tardia na narrativa de uma saúde perfeita através da informação. A problemática da saúde e da doença já não está confinada ao hospital e aos centros clínicos nem à tradicional relação entre o médico e o doente, dispersando-se hoje por outras arenas sociais e comerciais. A promoção da saúde entra-nos em casa através das campanhas televisivas, acompanha-nos nos supermercados e nos centros comerciais, capta a nossa atenção na publicidade a cosméticos, inunda os espaços desportivos de lazer, circula dentro do espaço cibernético. Hoje parecemos ser todos consumidores do grande mercado das indústrias de saúde.
Esta tendência cultural amplia o paradoxo da dicotomia risco-segurança. A vulgarização das práticas de autodiagnóstico e autovisualização é uma das suas maiores evidências. Segundo o grupo de análise de mercado Mintel, o mercado do self-testing cresce no Reino Unido ao ritmo de aproximadamente 100 milhões de libras por ano. Os testes Do It Yourself alargaram um mercado muito lucrativo baseado na ansiedade e na incerteza, democratizando o acesso aos dispositivos de autodiagnóstico postos à disposição quer pelas farmacêuticas quer pelas entidades públicas. Entretanto, à oferta de kits destinados ao diagnóstico da osteoporose, da diabetes, do colesterol ou do cancro do intestino somam-se os quiosques virtuais e centros de diagnóstico de proximidade onde as pessoas podem verificar e controlar a sua saúde a partir de um conjunto de indicadores. Outro sinal do mercado da incerteza e da ansiedade provocado pelo acesso aos sinais do interior do corpo é evidenciada pelo fascínio provocado pelas séries de televisão que mostram cirurgiões em intervenções realistas, por documentários que dão a ver simulações da corrente sanguínea, filmagens do interior de órgãos internos, ou, ainda, por exposições de cadáveres plastinizados. Todavia, em vez de reduzir a incerteza, toda esta informação disponível sobre o corpo torna-se ela própria fonte de incerteza. O papel da universidade e das ciências do desporto é o de alinhar neste mercado do risco-segurança ou o de resistir a estas novas formas de poder biopolítico?





