Da (ir)responsabilidade ética do espaço mediático

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: Da (ir)responsabilidade ética do espaço mediático

Autor: Jorge Olímpio Bento

Filiação institucional: Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

E-mail: jbento@fade.up.pt

Palavras-chave: Desporto, ética, espaço mediático.

Sofremos mais com as opiniões sobre os factos do que com eles.
Montaigne, 1533-1592

1. A mitologia grega proclama que os humanos se distinguem dos outros seres por cultivarem a terra, viverem do seu esforçado labor e por terem lei.

Porém quando olhamos em redor, esta marca é cada vez mais rara e difícil de encontrar. O funcionamento do mundo hodierno traz-nos à lembrança a apurada constatação de Sá de Miranda (1495-1558) em relação à sua época: M’espanto às vezes, outras m’avergonho”.

Há obviamente muitas coisas esplendorosas que inundam a nossa exterioridade e intimidade, nos emocionam, encantam e fazem rir e chorar por dentro e por fora. Mas outras são tão baixas, sujas e vis que nos esmagam e provocam a sensação de naufrágio, reclamando a exclusividade da nossa atenção e desviando-a da contemplação do belo e sublime. Consta que a ordem vigente aprecia a ordinarice e estipula obediência a esta intimação: Carpe diem! Goza a vida tanto quanto te dá ganas, desbragadamente, sem qualquer contenção, inibição, limitação ou travão! As normas foram revogadas e substituídas por esta.

É inteiramente legítimo e válido tudo quanto serve para gerar lucro e proveito à tripa forra. O que conta é o sucesso, sem olhar aos meios de o conseguir. Vale tudo, pelo que nada vale. As regras são feridas segundo as conveniências, sendo até maior o benefício do que a sanção imposta pela sua quebra. Finge-se e mente-se com toda a desfaçatez.

Em todo o recanto e esquina emergem crápulas, enzoneiros, vigaristas, espertalhões, oportunistas e trapaceiros. Movem-se como o peixe na água, driblando com todo o descaramento, tranquilidade e desfaçatez as estipulações jurídicas e a obrigação de ganhar o pão com o suor do rosto (um mandamento – vejam bem! – emanado de Deus e registado na Bíblia).

Enfim, após tantas décadas de Humanismo e Iluminismo apoderam-se de nós uma angustiante desilusão e um amargo e terrível desencanto: a ética encontra-se submersa numa conjuntura de neblina, de fraquezas e debilidades, num fétido atoleiro de desvergonhas. O apagão ético é geral e opressor. A razão experimenta um acentuado declínio, não indo além de um escasso e frágil lume. Mas só a temos a ela para alumiar a cegueira e singrarmos na escuridão!

2. O desporto é um campo normativo. Ou seja, a procura do sucesso, que nele entra em cena, é balizada por exigências e regras cívicas, éticas e morais. Por isso mesmo ele é um método de exercitação e de cultivo das qualidades difíceis (as éticas) que nos elevam para o alto e são da ordem da vontade, do exigente e custoso; e de transcendência das qualidades fáceis que puxam para baixo, para o nada, o chão e a coisificação e são da ordem da desídia, da indolência e do pasmo, do rasteiro, do fraco, do chumbo.

A prática desportiva visa incrementar e inovar o progresso civilizacional, cultural, gestual, comportamental e moral. Deve ser perspectivada para esse fim.

Todos quantos entendem verdadeiramente a substância do desporto vêem-no como um edifício idealizado pela necessidade de beleza, pelo repto de superar a violência e a brutalidade, a grosseria e a fealdade na imagem que o homem dá de si. É para encher de beleza a nossa vida, os nossos dias e as nossas condutas que ele existe. É em nome dessa finalidade civilizacional que a sua prática se justifica. Porque os homens e o mundo necessitam de solidariedade, verticalidade e honradez, de sensibilidade e beleza. De beleza nas palavras e reações, nos gestos e sentimentos, nos formalismos e cumprimentos, nos atos de olhar, de sorrir e repartir. De beleza de coexistir no nível máximo de verdade, autenticidade e humanidade. E isto requer trabalho aturado, ensino redobrado, aprendizagem e vigilância e controle ininterruptos.

Por outras palavras, no desporto trava-se o combate da progressão e resistência civilizacional, da criação ou supressão da vida moral. Ele assume, pois, uma função de promoção da civilização e ética universais.

3. A crise ética e moral da sociedade atinge a credibilidade do desporto, colocando na ordem do dia a urgência de renovação ética dos processos, dos protagonistas, das mentalidades e das organizações, bem como de acordar as forças latentes.

Com efeito no desporto reflecte-se o espírito do tempo. Portanto o cenário desportivo é invadido e povoado pelas circunstâncias e contingências, pelos discursos oficiais, oficiosos e recorrentes, pelos estereótipos, estigmas e vícios, pelas sombras, aberrações, contradições e inquietações que dominam o espaço social. Com uma agravante: o desporto encerra um incomparável poder de irradiação, influenciação e contaminação, por ser a forma de cultura mais consumida e difundida pelos media. Aquilo que nele acontece provoca efeitos aumentados e multiplicados por força da ampla divulgação de que beneficia.

Ora o panorama mediático não se pauta no seu todo por critérios de serviço público, pela preocupação de formação e elevação das exigências dos consumidores. Pelo contrário, também vive da exploração dos mais baixos instintos. Isto quer dizer que os media não podem subtrair-se à sua quota-parte de responsabilidade pelo mal-estar ético que grassa no desporto. São coniventes no seu fomento e alastramento.

Por exemplo, os frequentes apelos dos comentadores das partidas de futebol para que o árbitro não seja rigoroso na aplicação das leis do jogo e no sancionamento das faltas inserem-se na mesma onda dos outros comentadores mediáticos em relação ao atropelo dos normativos legais, éticos e morais. No fundo, vivemos numa sociedade sem regras, de enaltecimento da esperteza. Melhor dizendo, as regras existem – e até muitas; porém sopra um gélido vento de arrepio, contrário à sua observância e respeito, convidando a resvalar paulatinamente para a ilicitude, para a debilitação ou até inexistência de uma consciência eticamente apurada, exigente e desperta.

Por isso mesmo o combate travado no desporto em nome de princípios e valores faz parte de um combate mais vasto de apologia e defesa de uma civilização vincadamente humanista, estética, ética e moral. Abdicar ou afrouxar a observância das normas e regras é empurrá-lo para o buraco do desumano e da animalidade.

Consequentemente não pode furtar-se ao questionamento crítico e reflexivo a insana profusão e configuração dos programas desportivos nos canais televisivos. Neles pontifica um número, não subestimável, de intoxicadores e agitadores, de avençados e paus-mandados, doutos em instrumentalizar e açular o bando e acordar nele os mais arcaicos, grosseiros, agressivos e rasteiros instintos. Trazem à cena o pior e o mais sórdido, não para o combater, fustigar, ridicularizar ou verberar, mas para o avivar, aumentar e pôr sob as luzes do aplauso e da ribalta. Divertem-se e entretêm as pessoas com a própria desgraça, distraindo-as das causas e dilemas cruciais e vitais do nosso tempo. A sua especialidade preferida é a de incensar e envernizar os ídolos da disformidade, futilidade e vacuidade, de lhes encobrir os pés de barro e o pau carunchoso e de os pintar e impingir como semi-deuses do deslumbramento, como arquétipos de aprumo e merecimento e de beija-mão geral. Jogam pesado, feio e grosso fora de campo, semeiam o entontecimento, a confusão e o caos, chafurdam e remexem na sujeira dos meandros, bastidores e sarjetas da ignobilidade para proveito pessoal, forjam e difundem uma compreensão adulterada, amputada, animalesca, ensandecida, cega e infantilizada do desporto.

Em suma, por desatino, impreparação, necedade ou má-fé ou tudo junto, montam este circo escabroso, molesto e nefasto; e ele veio para ficar e durar, porquanto serve, às mil maravilhas, para que a ‘democracia’ vigente siga avante, impávida e triunfante. Enquanto o povo ignorante, apático, manipulado e alienado tudo engole; e o esclarecido abafa, em silêncio e resignação, a sua dor e revolta.

A denúncia destas calamidades convoca atitudes e palavras afiadas e cortantes que voltem a aguçar o limiar de sensibilidade à imoralidade que, em total impunidade, se instala com armas e bagagens à nossa volta. Precisamos de palavras que sejam grossas lentes para mostrar o mundo, o modo de considerar instalado na falsidade e a amplitude medonha das coisas a tanta gente que não consegue ver. Para despertar nelas uma incomodidade e luta contra a sua paralisia interna.

Como sugere Alvin Tofller, é assaz curial pensar nas coisas grandes, quando vemos, fazemos e medimos as pequenas. Isto requer palavras e posições que incentivem a olhar para a altura, que sejam catedrais, para se oporem à vulgaridade e mediocridade do mundo. Que nos tirem do tédio e do vazio, atribuam e somem beleza e significado ao instante e ao quotidiano, isto é, que transportem para a profundidade, a razão e a substância dos fenómenos e das coisas.

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