Dimensão analítica: Cultura e Artes
Título do artigo: “O que é que está mal neste conjunto?” – O exotismo e a exceção na minha relação com os media. (Parte II)
Autora: Ana Matos Fernandes
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Palavras-chave: música, media, identidade.
(Continuação da parte I, também publicado na presente Série de Artigos de Opinião)
Na sequência do que referi na primeira parte deste texto, e resumindo muito, os mitos que mais vezes puseram “as garras de fora” são os seguintes:
- os rappers são todos homens / o Hip Hop é um meio misógino.
- os rappers são quase todos negros / o Hip Hop é um meio marginal.
- os rappers são todos dos bairros sociais / o Hip Hop é suburbano.
- os rappers são todos semi-ignorantes e falam mal português.
- os rappers são materialistas, vaidosos e gostam de ostentar.
- o Rap é lírica e musicalmente desinteressante e muito repetitivo.
- só há um estilo de Rap com valor: o chamado “Rap de Intervenção”, a crítica social.
Destes mitos posso dizer (falando do Hip Hop português) que, apesar de ser um meio eminentemente masculino, como em todo o mundo aliás, não é misógino ou hostil para as mulheres (ao contrário de algum Rap americano, com demasiada presença nos media nas últimas décadas). É um contexto muito meritocrático, que acolhe quem trabalha e mostra qualidade, independentemente da origem, sexo, cor, classe, etc. E há que sublinhar que o facto de existirem poucas mulheres no Hip Hop (como em outros estilos de música!), se deve mais ao facto de, na nossa cultura patriarcal, não socializarmos as mulheres para a conquista do espaço público, para a competitividade, para o espírito de iniciativa, para dar opiniões, para a liderança e para todas essas características essenciais, não apenas ao Rap, ao Rock, ao Punk, etc., mas também à política, à gestão das grandes empresas, ao desporto de alta competição e em muitas outras esferas.
É verdade que o Hip Hop, enquanto cultura, e o Rap enquanto sua expressão musical, nasceram nos bairros das comunidades negras de Nova York no final dos anos 70, mas também é notório que depressa se disseminaram por todo mundo e que, hoje, pelo seu enorme potencial de apropriação local, se tornaram num fenómeno pulverizado que, em cada contexto, ganha contornos particulares e novas diversidades. Assim sendo, existe uma variedade infinita de gente por todo o mundo que se identifica com a cultura Hip Hop e Portugal não é exceção. Rappers e ouvintes de Rap, há de várias origens, idades e classes, com estilos variados e preferências também elas muito díspares. Uns gostam de Rap dito “comercial”, outros de Rap de “intervenção”, outros ainda de “Gangsta Rap”. Há rappers “nerds” no Ribatejo, rappers que praticam a “punchline” cómica e competitiva em Loulé, rappers do Porto que gostam da escrita mais esotérica e espiritual, e outros que falam da rua, do crime, de mulheres e até do próprio Rap, havendo mesmo de tudo e para todos os gostos!
E mesmo que a esmagadora maioria dos rappers fossem adolescentes, negros, de um bairro do subúrbio, com pouca escolaridade e com ligações à economia paralela, ainda assim, seria muito preconceituoso (para usar um eufemismo bem suave) depreciar o género Hip Hop, com base em critérios de foro “demográfico”, quando é sabido que o Rap é de grande valia, sobretudo nesses meios, não só para a pacificação juvenil e para o reforço da autoestima coletiva, em contextos estigmatizados, mas sobretudo para servir de voz ativa de denúncia e reportagem, dos principais problemas que afetam essas comunidades “invisibilizadas”.
Ora, se na lógica dominante, eu pareço escapar completamente ao perfil pré-estabelecido e muitíssimo redutor de rapper “normal” e o meu Rap, pela sua linguagem cuidada, pelo registo mais metafórico, pela sua aura poética e acessível a vários públicos, é tido como muito diferente do “resto”. Os media, apresentam-me sucessivamente como uma “exceção”, louvando-me na diferença, em relação aos meus pares, numa depreciação velada da sua música (mesmo sem conhecimento de causa, na grande maioria dos casos).
Assim, sinto que este “namoro” dos media, enquanto louva as minhas qualidades por comparação à tal “norma”, estabelecida num estereótipo preconceituoso, não só desprestigia a minha “comunidade”, como me arranca dela à força, unilateralmente. E por muito que eu reforce a minha integração confortável nesta “salada de fruta” que é o Hip Hop nacional e desconstrua os mitos, lembrando que as respostas para alguns deles estão mais acima (no patriarcado, no colonialismo, no capitalismo, na segregação, no preconceito e na ignorância), sinto-me demasiado pequena para mudar o discurso dominante sobre o Hip Hop. Mesmo que tantas vezes repita a grande diversidade e qualidade, que caracteriza o trabalho de muitos dos meus pares (dos mais visíveis, aos mais underground).
Não deixa de ser irónico, saírem permanentemente do Hip Hop as “provas em contrário” (através de mim e de muitos como eu), enquanto a aceitação mediática de um ou outro, esporadicamente, parece ser sempre seletiva e pautada pela lógica da “exceção”, além de eternamente insuficiente para destronar a ideia pré-formada da tal maioria imaginária que prevalece, quando a diversidade real se mantém no underground por falta de “tempo de antena”. É frustrante, estarmos sempre a tentar abrir espaço para a nossa cultura, quando a estreita abertura que nos deixa passar a conta-gotas, parece querer sempre fechar-se à nossa passagem. E é injusto, que do louvor ao meu trabalho, venha o desprestígio da cultura que me acolheu, formou e fez nascer enquanto artista.
Por muito que as cíclicas modas, que atiram o Hip Hop para os media, vão e voltem recorrentemente, parece que a banalização dos mesmos estereótipos vai prevalecendo, restando o velho preconceito e a sua abertura seletiva para a próxima “exceção”. Consciente de tudo isto, às vezes temo ficar realmente desgarrada e que seja precisamente este favoritismo mediático (que tanto me tem ajudado a promover o meu trabalho) a transformar-me no tal sapato que não tem lugar na fruteira.
O Hip Hop nasceu para unir os bairros, para unir as pessoas, na sua diferença. É na sua diversidade que me sinto bem. Quando com 15 anos escolhi pra mim o “rótulo” do Hip Hop e com ele construí a minha identidade de adolescente, foi precisamente para retirar poder aos critérios de distinção dominantes e roubar para mim o poder de me definir, individual e coletivamente. Ainda hoje o prefiro. Para me situar e, sobretudo, para me posicionar. Faço questão de não prescindir desse poder.
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