Dimensão analítica: Desporto
Título do artigo: Panteão do desporto
Autor: Rui Proença Garcia
Filiação institucional: Faculdade de Desporto, Universidade do Porto
E-mail: rgarcia@fade.up.pt.
Palavras-chave: Desporto, Panteão Nacional.
No último mês, por razões conhecidas, falou-se muito do Panteão Nacional. O Panteão é apresentado como um lugar físico, a Igreja de Santa Engrácia, embora creia que a Igreja de Santa Cruz, em Coimbra, onde repousam os restos mortais de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I, os primeiros reis de Portugal, seja considerado como Panteão Nacional.
É fácil aceitar que Panteão significa o templo consagrado a todos os deuses (do latim Pantheon, do grego pántheion), embora o uso atual desta palavra nos leve para o lugar onde repousam as grandes figuras de um país. Em ambos os casos o Panteão é referenciado como sendo como um edifício.
Porém, podemos atribuir um outro significado, mais amplo e não tão físico, à ideia de Panteão, identificando-o ao lugar simbólico onde estão aqueles cantados por Camões que por suas obras valerosas; Se vão da lei da morte libertando.
Vivemos num mundo fortemente marcado pelas ideologias materialistas, mas onde se procura, com teimosia, a transcendência. A procura do transcendente, literalmente ir para além da ascendência, ou seja, realizar algo que não parece estar escrito na nossa matriz [mesmo genética], é assim um desígnio da humanidade, que ao longo dos tempos se expressa através dos mais variados modelos.
Quando o homem primitivo pintou as paredes da sua caverna, utilizando a impressão da sua mão e qualquer produto colorido, transcendeu-se, ultrapassando as agruras do tempo biológico da sua existência, projetando-se para além do seu tempo, invariavelmente um tempo pobre de sentido, entrando numa outra dimensão temporal, esta sim, cheia de significados humanos. Quando, a partir dos jogos desportivos, se desenvolveu a estatuária na Antiga Grécia, o homem de então também se transcendeu, mostrando para sempre o seu corpo, tornado incorrupto pela pedra. Quando, nos séculos XV e XVI, o povo português se aventurou pelo mar oceano, passando para além da Taprobana, também se transcendeu, realizando feitos que o imortalizou, tal como se transcendeu Camões quando cantou essa gesta. Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Rafael, Mozart, Picasso, Einstein, Miguel Torga, José Saramago também viveram a glória da transcendência pessoal, alcançando a plenitude reservada a uns tantos, que, com isso, alcançam o direito de figurarem no Panteão da Humanidade.
Não existe uma só ou apenas algumas formas de buscarmos a transcendência humana, de procurarmos neste mundo marcado pelo efémero e pelo esquecimento o passaporte para entrar no Olimpo, superando as barreiras do tempo e do esquecimento a que estávamos condenados a viver.
O desporto assume-se como uma das formas mais evidentes para realizar o sonho quimérico da transcendência. Pelo desporto algumas pessoas alcançaram a gloriosa cátedra da Academia da Humanidade, juntando-se às demais já referidas. Quem duvida da presença de Zatopek na galeria dos imortais? Foi através das suas proezas olímpicas que a locomotiva humana ganhou o direito de se sentar junto das pessoas mais ilustres de sempre.
Os Jogos Olímpicos, nas suas variadas manifestações (verão, inverno, paralímpicos), assumem-se como manifestações onde o homem busca transcender-se, transpondo os limites da sua condição humana – fatalmente mortal –, ascendendo à dignidade de herói mítico, saindo deste tempo linear para entrar num tempo pleno de significado.
O tempo de desporto produz um ambiente de exaltação, mostrando que este fenómeno, mais do que simples práticas motoras, celebra a vida. A busca dos limites invocada pela ideia de desporto é uma metáfora da vida, ela própria expressão de transcendência.
São muitos os autores da área de filosofia ou da teologia/religião que afirmam que a transcendência é uma característica humana, sendo nosso desejo ultrapassar barreiras, mesmo os limites mais remotos, a que estamos sujeitos no nosso quotidiano.
São muitas as atividades humanas que possibilitam ultrapassar a vida ordinária, penetrando noutra dimensão da existência, sendo o desporto uma delas, talvez aquela mais facilmente percecionada por todos.
Leonardo Boff, um dos fundadores da denominada Teologia da Libertação, escreveu um livro sobre a transcendência, de onde retiramos esta passagem [1]:
Conheço um torcedor que antes de um grande jogo (…) vai até dormir mais cedo para que o tempo passe mais depressa, tal é o desejo de ver o seu time jogar. Quando chega o dia compra antecipadamente a entrada, vai ao estádio e aí ninguém o segura. Ele freme, ele treme e na hora do golo experimenta um salto para a transcendência. É o delírio, é o grito, é o abraço, é o gozo, é o êxtase.
Muitos são aqueles que se identificam com este simpático adepto de futebol.
A exaltação através do desporto não é um fenómeno localizado, mas uma evidência de âmbito universal. O desporto, quer aquele que é jogado como aquele que é contemplado, permite-nos sair das nossas rotinas e alcançar outros estados emocionais, mesmo de felicidade. Já pensaram que para milhões e milhões de pessoas deste mundo os únicos momentos de felicidade são aqueles proporcionados pelas vitórias dos seus clubes ou seleções? É que o desporto, dada a sua natureza e simplicidade, permite alcançar alegrias que, para muitos, são únicas e irreproduzíveis.
Buscar os limites humanos através do desporto, enquadrado que está por valores éticos, é tão importante como buscar esses limites através da música, da pintura, da ciência, da escrita. O desporto não é uma atividade menor, nem a exaltação do corpo uma manifestação banal ou decadente. A nossa existência não deixa também de ser carnal, devendo considerar-se esta dimensão como mais uma que importa valorizar. Essa valorização não poderá ser feita em detrimento de outras dimensões humanas, nem a valorização do espírito ou da alma deverá realizar-se a expensas da corporal. Todas têm lugar e para todas há a possibilidade de engrandecimento.
O desporto celebra a vida e esta conformada aos princípios éticos do desporto vale a pena ser vivida. É uma vida justa que exalta o trabalho. Ninguém é campeão sem trabalhar muito. Mas ao mesmo tempo que exalta o trabalho, o desporto também celebra a alegria e o prazer. Nenhum atleta chega a campeão se não gostar daquilo que faz. E os verdadeiros campeões sabem como o trabalho e o prazer não são coisas opostas, antes condições humanas que se completam.
Por tal, alguns desportistas, onde se inclui Eusébio, têm lugar neste Panteão, o Panteão da Humanidade.
Termino com uma frase sobre a importância do futebol proferida por D. Camilo, imortalizado pelo cinema através de Fernandel, num dos seus diálogos com Cristo:
Não podeis compreender, Senhor. O desporto é uma função muito especial. Quem está nele, está mesmo; quem não está nele, não está mesmo. Faço-me Compreender?
Nota:
[1] Leonardo Boff (2000). Tempo de transcendência: o ser humano como um projeto infinito. Rio de Janeiro: Sextante, p. 44.




