O Mapa na investigação em Sociologia

Dimensão analítica: Ambiente, Espaço e Território

Título do artigo: O Mapa na investigação em Sociologia

Autor: Miguel Nogueira

Filiação institucional: Oficina do Mapa/FLUP

E-mail: oficinadomapa@letras.up.pt; maca.miguel@gmail.com

Palavras-chave: mapas, visualização de dados espaciais.

Quantos de nós já folheamos uma revista ou livro científico e, ao surpreendermo-nos com a presença de um mapa numa página, nele nos fixamos, fazendo uma pausa (naquela que era uma navegação descomprometida por conteúdos) para o apreciar, para o “ler” e interpretar? O Mapa tem, inquestionavelmente, um enorme poder de captação da atenção de um leitor; aproveitando-o, e aliando estética ao conteúdo informativo, e recorrendo aos princípios teóricos e técnicos que assistem à sua construção, o mapa é um documento gráfico poderosíssimo na transmissão de informação. Na presença de dados que encerram em si uma importante componente territorial (ou espacial) os mapas são a melhor, a mais esclarecedora forma de comunicar Conhecimento. A criação de um palco visual bidimensional pode mesmo ser mais eficaz do que a sequência unidimensional de palavras e frases para recriar e explicar um fenómeno, e os símbolos e cores distribuídos por um mapa conduzem o leitor na construção mental da presença e disposição de elementos numa paisagem ou da distribuição de uma qualquer variável estatística.

Figura 1 – Da tabela de dados e descrição textual à visualização dos fenómenos em Mapa

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Estes são argumentos defendidos na Oficina do Mapa da FLUP desde a sua criação em 1997, a partir de onde estivemos sempre atentos e à procura de perceber como a cartografia e os mapas poderiam trazer novas leituras e interpretações para a ciência gerada nesta escola (mas não só) e como poderiam contribuir para uma maior divulgação e visibilidade do Conhecimento. Nesse sentido, encontramos também nos capítulos e subcapítulos de trabalhos de investigação sociológica referências a elementos como espaço, território, territorialização, Portugal/Europa, cidades, bairro, roteiros, trajetórias, … Há geografias e espaço na Sociologia! Contudo, o recurso à cartografia e aos mapas para transmitir as matérias abordadas é diminuto. Não raras vezes são apresentadas tabelas e gráficos onde estão explícitas unidades espaciais de organização, estruturação e análise de informação (dados por freguesias, concelhos, cidades),… e perguntamos: porque não estão aqueles dados cartografados?

Uma das razões que poderá explicar este distanciamento, alheamento até, por parte dos sociólogos em relação aos mapas e à integração da cartografia nos seus processos de investigação poderá prender-se com o entendimento de que a cartografia é uma ciência/ferramenta exclusiva da geografia. Sim, os geógrafos são, por excelência, especialistas com formação e competências adquiridas para serem produtores de cartografia. Contudo, num entendimento tão pessoal quanto discutível, as nossas áreas disciplinares não devem ser delimitadas pelos rótulos que usamos para marcar o nosso “território” nas Universidades. Da minha experiência de trabalho sai cada vez mais reforçada a ideia de que a cartografia (e em particular os sistemas de informação geográfica (SIG’s)) são porventura uma das melhores forma de corporificar as tão celebradas multidisciplinaridade ou interdisciplinaridade. Estas novas tecnologias são verdadeiros agregadores de informação (e pessoas!) oriunda das mais variadas áreas do saber, capazes de registar e analisar grandes volumes de dados. E aí, as possibilidades de investigação são infindáveis, barradas apenas pela indisponibilidade e qualidade da informação (tantas vezes com níveis de desagregação espacial que não permitem análises de grande escala e pormenor) ou pela falta de criatividade e ousadia dos investigadores em testar novas relações (espaciais) entre temas.

Uma outra ordem de razões prende-se, na nossa opinião, com a ideia arreigada até no meio académico de que a cartografia é “apenas” uma técnica, não conferindo à construção de mapas um momento de investigação onde se reclama uma competência analítica e demonstrativa; a construção de mapas é olhada como um serviço que se adquire em vez de uma componente do trabalho criativo do investigador. Contudo, a cartografia é muitas vezes o mote para uma reorganização, revisão, e até depuramento da informação com que o investigador trabalha, despertando desde logo os sentidos para a relevância de alguns dados, reforçada depois em mapa.

O que pode, então, ser cartografado? Na verdade, desde que exista aquela componente espacial, desde que seja possível afetar ao território a informação: tudo! As minhas melhores experiências enquanto Cartógrafo resultaram muitas vezes dos mapas improváveis, aqueles mapas ocultos num rol de dados aparentemente não-cartografáveis… Numa era de fácil acesso à informação e às tecnologias, do acesso online a grandes volumes de dados e ferramentas, arriscaríamos dizer que qualquer um pode produzir “mapas”… Assistimos, assim, a uma proliferação de mapas cuja relevância é discutível porque os temas são por demais revisitados, reproduzidos, sobejamente maturados e trabalhados e alguns deles construídos sob duvidosos critérios técnicos e científicos. Mas, se pensarmos em contexto académico, quantos mapas poderão ser gerados a partir de dados que resultam de investigações incomuns, que geram informação a partir de fontes primárias ou de trabalhos no terreno, dados e informações que não são de acesso fácil nem do conhecimento da sociedade em geral mas cuja relevância seria de enorme valor para a comunidade académica, decisores, empresários, …? Esses temas, em mapa, ganhariam por certo uma nova dimensão e um novo alcance… e até um novo público? Importa, portanto, que na sociologia, se incorpore um “olhar geográfico” na leitura e interpretação das suas fontes e informações, identificando as referências espaciais mais ou menos dissimuladas e, a partir delas, se criem novos recursos cartográficos com um valor informativo acrescido!

Figura 2 – O Mapa numa fase inicial da investigação, como apoio ao trabalho no terreno (a) e como veículo de comunicação de resultados (b)

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Na esmagadora maioria das vezes, o Investigador, quando o faz, integra a Cartografia numa fase terminal do seu percurso metodológico, com o propósito de “ilustrar”, em boa verdade, aquilo que já sabe…

A cartografia e o mapa são muito mais do que esse importante veículo de comunicação de resultados: podem e devem ser incluídos desde logo nas fases iniciais de uma investigação. O mapa poderá ser, ainda no gabinete, essa primeiríssima aproximação ao território, às suas principais características físicas e humanas. Mesmo inconscientemente, o investigador começa desde logo a apreender características do espaço em estudo. A presença do mapa poderá ser então reforçada no terreno, como guia, como elemento de anotações e reflexões sobre o que é observado. De volta ao gabinete, a cartografia pode e deve (?) revolver os dados coligidos. É, como gostamos de designar, uma fase laboratorial, de experimentação, onde se testam relações e correlações de dados, onde a criatividade e a ciência colidem e se geram mapas que traduzirão – ou não! – padrões espaciais insondáveis até então e onde se modelizarão fenómenos! O pensar geográfico e a visualização em mapa dos dados estimulará outras leituras e interpretações dos dados originais, reclamará inclusive a necessidade de suporte em outros temas e variáveis extrínsecas que ajudem a compreender os objetos em estudo e as suas manifestações territoriais; e à pergunta “onde?” suceder-se-ão as “e porquê aqui?”, e “porque não ali, onde seria esperado?”, e “que geografia é esta que produz este resultado?”. Sim, e serão feitos mapas que nunca serão impressos, mapas que permitirão apenas testar teses, eliminar suposições, reforçar tendências. E serão produzidos mapas que desempenharão um papel inigualável na comunicação e divulgação de Conhecimento.

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