Desafios e Oportunidades da Maternidade: o privilégio ou a “cruz” de se ser mulher (&) mãe

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Desafios e Oportunidades da Maternidade: o privilégio ou a “cruz” de se ser mulher (&) mãe

Autora: Ana Meireles

Filiação institucional: Instituto de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade Lusíada Porto

E-mail: anameireles@por.ulusiada.pt

Palavras-chave: gravidez, maternidade, desenvolvimento psicológico.

Ser mãe é normalmente descrito como uma das tarefas desenvolvimentais mais significativas da idade adulta. Existem poucos acontecimentos na vida de um adulto tão transformadores como a experiência de maternidade, envolvendo uma reorganização a todos os níveis: físico, cognitivo, emocional, bem como a nível conjugal, familiar, profissional e social, transformando a relação da mulher com o seu corpo, com o seu self, com as suas figuras significativas, com o seu contexto social e profissional e com as estruturas sociais mais amplas (como os sistemas de saúde, de educação ou de segurança social), proporcionando uma oportunidade única de desenvolvimento psicossocial.

Deste modo, a transição para a parentalidade constitui um ponto de “crise” na identidade da mulher. Implica o final da pessoa como entidade independente e autocentrada, e o início de uma irrevogável relação mãe-filho, o que pressupõe a redefinição da identidade, envolvendo noções de revisão e auto-reorganização. A mulher procede a uma actualização da sua biografia, de forma a conceber uma nova compreensão do seu self para si e para os outros, pela exigência de uma reorganização pessoal e relacional que garanta novos modos de expressão e de realização adequados à nova situação. Assim, a maternidade exige uma mudança nos pressupostos sobre si própria e o sobre o mundo e requer, deste modo, uma correspondente mudança nos próprios padrões de comportamento e de relação, constituindo-se portanto como uma transição desenvolvimental.

No entanto, apesar das oportunidades de desenvolvimento psicossocial que proporciona, a maternidade parece continuar a penalizar as mulheres que, a par das expectativas de realização pessoal e de protagonismo na concretização de projectos pessoais, conjugais, familiares e socioculturais envolvidos no nascimento de um/a filho/a, acabam, tipicamente, por ser sobrecarregadas com uma dupla carreira e com a discrepância entre os exigentes ideais de mulher e de mãe (ou de “super-mulher”?) e uma diminuição dos seus recursos pessoais, relacionais, económicos, profissionais. Assim, em vez de o resultado desta transição ser um ganho desenvolvimental (por exemplo, com maior auto-estima, novas competências, maior sentido de mestria / competência pessoal, maior sentimento de controlo sobre a sua vida, ou uma relação com o corpo mais positiva), o resultado poderá ser que, a par da construção de novas competências e responsabilidades, outras serão prejudicadas, ou que as exigências da maternidade concorram com os restantes papéis da sua existência.

Neste contexto, a forma como cada mulher lida com a transição está sujeita a diversos constrangimentos que têm a ver não só com as próprias características do indivíduo e do acontecimento como também com as características do próprio contexto de vida (1).

As características socioculturais são variáveis muito importantes na compreensão da adaptação e da vivência da parentalidade: na forma como culturalmente se aprende a reagir e experienciar a situação; na forma como socialmente se organizam os recursos de apoio; na constelação de regras, exigências e oportunidades do contexto social; e pela sua associação ao nível socioeconómico e educacional. Assim, a adaptação à parentalidade é necessariamente influenciada pelo contexto social do indivíduo, pela sua relação com o/a companheiro/a, pela sua família de origem e pela cultura em que vive. Neste sentido, é valorizado o papel da interacção com os outros na construção do self. No entanto, este papel é perspectivado recorrendo a uma compreensão dinâmica, circular e sistémica da interacção, em que o sujeito psicológico é actor e protagonista activo do seu desenvolvimento, o que coloca em evidência a necessidade de se apoiar e emponderar as mulheres ao longo desta transição que lhes coloca oportunidades mas também desafios psicossociais acrescidos.

Também para Belsky e Jaffee (2), o funcionamento parental é multideterminado; e esses múltiplos determinantes interagem entre si, proporcionando quer factores de risco quer factores protectores, enfatizando no entanto as características psicológicas dos pais, na medida em que não só influenciam directamente o funcionamento parental, como também condicionam as restantes fontes de impacto no funcionamento parental. Assim, os próprios pais têm influência sobre os factores de risco e sobre a influência desses factores de risco no seu funcionamento psicológico.

No entanto, a gravidez, apesar de todo o potencial desenvolvimental que encerra, não é acompanhada da respectiva valorização da parte dos/das técnicos/as de saúde que a assistem, observando-se uma relativa desvalorização dos aspectos psicológicos sobre os biomédicos na avaliação e intervenção junto de grávidas. Vigia-se a gravidez, apoia-se o parto e cuida-se da saúde do/a filho/a ao longo do seu crescimento mas, muitas vezes, não se encontra o apoio psicológico como recurso potenciador da saúde e da mestria materna, o que seria  fundamental ao longo de toda a gravidez e maternidade pois, uma mãe com bons recursos psicossociais, será mais capaz de satisfazer as necessidades do seu bebé (e as suas) e de gerir com maior eficácia muitas das condições adversas que existam ou venham a surgir, contribuindo assim para o desenvolvimento psicológico dela própria e do/a filho/a. Na medida em que se considera que muitas das dificuldades parentais antecedem e poderão mesmo ser agravadas pelo próprio nascimento de um/a filho/a, é importante apoiar e potenciar a transição para a maternidade, avaliando e intervindo nos desafios que lhe são colocados a diferentes níveis, devendo a intervenção psicológica ser perspectivada como parte integrante de todo o processo de vigilância e acompanhamento da gravidez no sistema de saúde que o enquadra. Tal como é inquestionável a importância das condições médicas e nutricionais para a saúde materno-infantil, não podemos ignorar a importância que o contexto emocional e relacional também assume para a qualidade do desenvolvimento do novo ser, bem como para a adaptação da mulher à gravidez e à maternidade. A natureza desta crise desenvolvimental torna, aliás, a mulher, especialmente aberta à mudança, reorganização e transformação, tratando-se de um período em que a mulher está sujeita a um regime organizado de cuidados de saúde, para os quais, na maior parte das vezes, está motivada e desperta. A intervenção psicológica na gravidez deverá então ser sublinhada como intervenção precoce para a prevenção de dificuldades relacionais posteriores e para a optimização deste acontecimento de vida em termos de todo o seu potencial desenvolvimental para a mulher, reconhecendo-se que se é verdade que a maternidade poderá emponderar e promover o desenvolvimento psicossocial da mulher, pode também, pelo contrário, reforçar vulnerabilidades préxistentes e que se vêem assim agravadas perante as novas exigências colocadas, gerando e perpetuando ciclos de dificuldade psicossocial diversos.

A associação entre o nível de desenvolvimento psicossocial materno e a competência parental (em sentido lato), largamente enfatizada pela prolífera investigação no domínio da maternidade adolescente, sublinha que um projecto adaptativo de maternidade se inscreverá necessariamente numa boa relação consigo própria que integre a nova identidade de mãe, podendo uma mulher adulta, e independentemente da idade, apresentar dificuldades psicossociais diversas que lhe dificultarão o envolvimento no projecto da maternidade e a sua adaptação a esta transição com benefício no seu próprio funcionamento e desenvolvimento psicossocial e no do/a(s) seu(s)/sua(s) filho/a(s).

Notas                     

[1] Costa, M. E. & Menezes, L. (1991). Consulta Psicológica de Jovens em Centros Comunitários. Cadernos de Consulta Psicológica, 7: 77-82.

[2] Belsky, J. & Jaffee, S. (2006). The Multiple Determinants of Parentig. In D. Cicchetti & D. Cohen (Eds.). Developmental Psychopathology. 2nd Ed., Vol. 3: Risk, disorder and adaptation (pp 38-85). NY: Willey.

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