Transformações societais e saúde reprodutiva

Dimensão analítica: Família, Envelhecimento e Ciclos de Vida

Título do artigo: Transformações societais e saúde reprodutiva

Autor: Victor Terças Rodrigues

Filiação institucional: Demógrafo/Sociológo, CICS (Centro de Investigação em Ciências Sociais)

E-mail: vrodrigues@ics.uminho.pt

Palavras-chave: Saúde sexual e reprodutiva, transformações societais, epidemiologia.

Nos últimos anos, temos assistido a profundas transformações ligadas a uma assumida tripla transição que se quer societal, demográfica e epidemiológica [1]. Mudanças hegemónicas impostas por novas realidades sociais e económicas têm inumeráveis consequências no tocante ao ambiente nas suas dimensões físicas, sociais e técnicas. No campo da saúde sexual e reprodutiva, novas incumbências sociais poderão vir a ter efeitos ainda pouco conhecidos neste momento. Importa, então, questionar de que forma certas alterações de padrões dominantes em termos de ciclos de vida, modelos de composição familiares e padrões de comportamentos sexuais e reprodutivos podem afetar a demografia de certas populações atuando na intensidade e nos calendários de certos fenómenos.

É interessante intrigar certas pessoas, amigos e alunos afirmando que “somos velhos cada vez mais tarde”. Esta simples afirmação ganha vida (no sentido literal) quando se fala do aumento da longevidade das populações e do afastamento etário da diminuição das capacidades funcionais de uma forma geral. Seguindo a ideia da OMS, estamos, efetivamente, a procurar dar mais anos à vida mas também mais vida aos anos. Extrapolando a ideia de ser velho cada vez mais tarde a outras populações, outros fenómenos demográficos e sociológicos, podemos comentar que vários são os calendários que têm vindo a envelhecer.

Van de Kaa [2] descreveu uma recente (2ª) transição demográfica com características próprias das transformações que uma larga maioria dos países ocidentais começou a conhecer nas décadas 60 e 70 do século passado. As características apontadas são, por exemplo, a diminuição da fecundidade, a subida do divórcio, o adiamento e a diminuição do matrimónio, e o aumento dos nascimentos registados fora do casamento. Estas transfigurações hoje bem conhecidas devem-se essencialmente a alterações das conjunturas económicas que levam à alteração da intensidade e do calendário de fenómenos sociais. Assim, envelhecem os calendários de vários ciclos de vida: juventude, escolarização, adultez, vida ativa, família, reprodução, reforma (…). Interessa concentrar esta reflexão na formação dos casais e na concretização do desejo de descendência. Confirmado com o aumento da idade dos pais aquando do nascimento do primeiro filho, reconhece-se que a concretização do desejo de ter filhos materializa-se cada vez mais tarde. Se associar a este dado o facto de os indivíduos (e essencialmente as mulheres) iniciarem a sua vida sexual cada vez mais cedo (Inquérito à Fecundidade e Família, INE), configura-se um potencial alargamento da biografia sexual [3].

A monogamia é o modelo por excelência no relacionamento amoroso ocidental. Corresponde a uma exclusividade sexual associada a uma forte afetividade. Neste caso, a intensidade do sentimento amoroso e a comunhão com o relacionamento levam frequentemente a alterações na escolha dos meios anticoncecionais utilizados, a sexualidade impondo-se cada vez mais como uma construção social [4]. Frequentemente os meios mecânicos como o preservativo masculino são abandonados a favor de meios hormonais. Numa biografia sexual mais alargada no tempo onde se podem suceder várias monogamias (monogamias sucessivas ou monogamias em série) com fortes intensidades afetivas, pode-se questionar a (re)composição de epidemiologias sociais e sanitárias. Certas Infeções Sexualmente transmissíveis (IST) apresentam atualmente níveis preocupantes em populações jovens com fortes conhecimentos comprovados nos comportamentos profiláticos neste campo. Assim, a Clamídia (Chlamydia Trachomatis) e a Gonorreia (Nesseira Gonorrhoeae) chamam mais particularmente a atenção porque apresentam frequentemente níveis elevados de incidência e de prevalência num contexto praticamente assintomático (ou com poucos sinais clínicos) e podem levar a situações de infertilidade [5].

O fenómeno das monogamias em série é a tradução de que podemos amar intensamente uma pessoa de cada vez mas várias pessoas ao longo da vida. Num contexto social e sanitário onde se registam cada vez mais casais inférteis [6], a alteração de certos costumes, valores dominantes e calendários dos ciclos de vida poderá estar a criar condições epidemiológicas preocupantes no tocante à reprodução em sociedades cada vez menos fecundas?

Notas

[1] DRULHE, M. (1996), Santé et société. Le façonnement sociétal de la santé, PUF, Coll. Sociologie d’aujourd’hui, Paris

[2] Van De KAA, D. J. (1987), “Europe’s second demographic transition“, Population Bulletin n. 42, pp. 1-57.

[3] BOZON M. e KUNTULA O. (1997), “Initiation sexuelle et genre; comparaison des évolutions de douze pays européens“, Population, numéro 6,  INED.

[4] GIDDENS, A. (2001), Transformações da intimidade; Sexualidade, amor e erotismo nas sociedades modernas, Celta Editora, Oeiras.

[5] GUERRA-RODRIGO, F. e MAYER-DA-SILVA, A (2003), Doenças Transmitidas Sexualmente, Lidel, Lisboa.

[6] MOUTINHO, S. (2004), Tudo por um filho; viagem ao mundo da infertilidade em Portugal, Dom Quixote, Lisboa.

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Uma Resposta a Transformações societais e saúde reprodutiva

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