O Desporto como uma oficina da humanidade

Dimensão analítica: Desporto

Título do artigo: O Desporto como uma oficina da humanidade *

Autora: Teresa Marinho

Filiação institucional: Faculdade de Desporto da Universidade do Porto

E-mail: tmarinho@fade.up.pt

Palavras-chave: Pessoa Humana, Desporto, Logos, Transcendência

Vivem-se tempos sombrios, decadentes e obscuros. Tempos de uma ética indolor [1] que provoca no homem um sonambulismo moral acentuado. A mediocridade que se abate e fere a vulnerabilidade do humano cria desalento nos gestos e falta de integridade no pensamento. Vivemos na era do vale tudo, onde o poder se assume como condição para a construção de uma sociedade desprovida de sentimentos de partilha, respeito e solidariedade. Rendido à condição submissa de ser humano mumificado, este Prometeu agrilhoado vive embalado no berço da ignorância, da mentira e da leviana intenção, sendo manuseado e vilipendiado sem a mais pequena lágrima de comiseração.

É urgente esculpir com o canivete da contumácia e da rebeldia o busto de um novo homem. Educá-lo no sentido da responsabilidade e incentivá-lo a procurar dentro de si a exemplaridade e a arte de bem pensar. Difícil tarefa a que nos espera, visto o efémero e o facilitismo ocuparem o lugar de valores como a lhaneza e a autenticidade. A banalidade é aplaudida pelo mais elegante dos corruptos e a palavra atingiu níveis de demência incalculáveis. A estatística é a referência macabra da tragédia humana. Já nada mais importa. A Pessoa Humana foi renegada, esquecida, desprezada.

No entanto há esperança. E o desporto representa-a plena e integralmente, convidando-nos a despertar de uma sonolência profunda, apelando ao sentido do humano e à consciência de uma aventura que se requer eterna no ser, no pensar e no agir. Pode e deve o homem concluir o projecto ético [2] que tem pela frente, projectando a utopia de um mundo que se afasta da inutilidade e da falta de transparência e assumindo uma postura que denota probidade e excelência nos passos incertos do futuro. Representa o desporto um apelo à probidade e à justiça, exigindo do homem a devoção, a disciplina e a dor. Um sentido que se traduz pela arte da superação diária, revelando-se inconcusso e temerário perante o mistério do treino, da competição e da vida. Permite o desporto que o homem se transcenda na procura do ilimitado, que aspire à mais alta aretê e ao mais profundo sonho de heroicidade e nobreza. Detém, deste modo, o desporto um logos que combate a aridez de pensamentos e a banalidade das emoções. Não permitindo que a condição humana caia na teia do desrespeito e da falsa intenção, requer o desporto que o seu logos se encontre, “próximo dos homens e da sua condição” [3].

Por tanto, pensar na impossibilidade de realização da utopia do humano é renunciar à nossa condição de seres que lutam ombro a ombro com a vaidade dos deuses; é permitir a destruição dos sonhos e renegar a dignidade que canta um hino à nossa vontade e esforço; é consentir o desvanecimento da conquista e da completude que nos acompanha nas agruras da intenção. Luta o homem para se superar, sempre! Na solidão dos seus actos, fervilha o sangue da possibilidade, da resistência, da ilusão. Não se deixando prender às amarras de uma vida ancilosada, catapulta o homem a sua essência para o absoluto, sacrificando a sua dor e espelhando no céu a quimera da liberdade. Cabe ao homem a tarefa de ilimitar o seu espaço no universo, acolhendo o Outro sem pejo, denotando responsabilidade na alteridade e emanando serenidade do olhar e sinceridade da palavra. De olvidar o receio da sua pequenez e descobrir a grandeza do seu tamanho. De olhar a eternidade em sintonia, não se rendendo ao abismo da vanidade e ao rumor da angústia e do absurdo.

Assim, sentindo-se descrente, falido e debilitado, o ser humano tenta recuperar a dignidade no seio do desporto, apelando à correcção nos gestos, à integridade do coração, à justiça na condução dos ideais que ressaltam uma mensagem de extrema beleza axiológica, incitando o próprio homem a transbordar honestidade, união e lealdade. Corre o espírito humano para aquela nova Olímpia idealizada com fervor, que o acolhe e lhe dá alento para continuar a acreditar que a humanidade que emana do desporto comporta um significado existencial premente, fazendo-o ter esperança de um regresso a um paraíso perdido, há muito esquecido, mas utopicamente vivido no comportamento, no exemplo e na atitude de homens que se esforçam por ecoar o verdadeiro intento do desporto no imorredouro ideal do progresso humano.

Somos feitos de coragem, de amor e de loucura. Uma loucura lúcida de nos reconhecermos frágeis e intimidados pela imensidão dos nossos sonhos. De pretendermos escapar à banalidade e decrepitude de glórias vãs e mesquinhas, realizando no desporto feitos que nos transformam e nos permitem transbordar na nossa humanidade. De deixarmos invadir furiosamente o nosso coração pela certeza de que não sairemos derrotados e que continuaremos a atirar a pedra de Sísifo, sem descanso, para o mais alto cume da sagacidade humana.

Persiste a revolta perante o inaudível sopro de cansaço que teima existir penosamente, revelando uma fúria que se esconde nos escombros mais recônditos da existência. Que enceta uma aventura, quiçá ridícula, por se revelar solitária, mas perfeita no seu desígnio, na sua luta, no seu clamor. Ergue o homem a sua espada, rasgando os raios de luz teimosamente, combatendo o pressentimento da ignara condição de peregrino dorido pela viagem e rendido ao seu destino. Concede o desporto ao homem o milagre da transcendência, num corpo que grita por clemência, num espírito que se eleva pela convicção. Caminha sempre o homem face à completude da sua imperfeição, construindo-se na eterna transgressão do humano e no pleno drama da redenção:

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Fernando Pessoa, Tabacaria

* Glosado de John Amos Coménius, “A escola como uma oficina da humanidade”, in Didáctica Magna. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian [1966].

Notas

[1] Lipovetsky, Gilles (D.L. 1989). A era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo. Lisboa: Relógio d’Águia Editores.

[2] Bento, Jorge (2005). Do desporto como um projecto ético: para uma mudança nas mentalidades e nas atitudes. Lisboa: Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

[3] Marinho, José (1976). Verdade, condição e destino no pensamento português contemporâneo. Porto: Lello & Irmão

Esta entrada foi publicada em Saúde e Condições e Estilos de vida com as tags , , , . ligação permanente.