Dimensão analítica: Saúde e Condições e Estilos de Vida
Título do artigo: Envelhecer numa instituição: cuidar ou limitar vidas?
Autora: Mariana Torrão
Filiação institucional: Universidade da Beira Interior
E-mail: mariana.torrao@ubi.pt
Palavras-chave: Atenção Centrada na Pessoa, Autonomia, Envelhecimento Institucionalizado.
Atualmente, urge a necessidade de se promover um envelhecimento digno, onde se procura preservar a autonomia e identidade na pessoa idosa. A realidade é que em muitas Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), existe uma tensão impossível de ignorar: até que ponto cuidar não se transforma, inadvertidamente, numa forma de controlar a vida dos residentes e delimitar a sua autonomia?
Em primeiro lugar, é necessário ter em conta que o problema não está associado à falta de empenho dos profissionais, tampouco se põe em causa o seu profissionalismo. Pelo contrário, quem trabalha nestas instituições tende a reconhecer o valor da experiência de vida dos idosos, a importância das histórias de vida e a necessidade de se preservar a identidade, contudo, reconhecer não é o mesmo que garantir.
As ERPI são pautadas pela organização e nas rotinas padronizadas, existem horários para levantar, tomar banho e para comer. Estas tarefas asseguram o bom funcionamento destas instituições, garantindo também segurança para os idosos e para os trabalhadores, contudo, também se traduz numa previsibilidade e numa padronização de cuidados. Neste aspeto, Erving Goffman [1], descreveu as instituições, como instituições totais, onde este tipo de espaços o quotidiano é administrado sob uma mesma autoridade e segundo um plano formal. Quando o tempo individual é subordinado ao tempo coletivo, a autonomia deixa de ser estruturante e passa a ser uma exceção. O resultado, porém, é claro: o tempo da instituição tende a sobrepor-se ao tempo da pessoa, onde a prioridade são as atividades comuns, em deterioramento do tempo individual.
A autonomia é, muitas vezes, entendida como manutenção de capacidades funcionais. Se o residente consegue executar uma tarefa sozinho, estimula-se essa prática. Esta lógica é fundamental, mas insuficiente. A autonomia não é apenas ter capacidade física, é também ter poder de decisão. É poder escolher quando, como e quando se quer fazer. É precisamente aqui que surge a tão delicada fronteira entre proteção e paternalismo. Sempre que existe um risco de segurança, a decisão tende a ser retirada ao residente. Vulnerabilidade não equivale à perda do direto de decidir sobre a própria vida. A literatura distingue modelos de cuidados paternalistas e abordagens centradas na autonomia da pessoa. O paternalismo, ainda que motivado por intenção protetora, tende a restringir a liberdade individual sob o argumento do benefício. Quando o cuidado subestima a capacidade de decisão da pessoa idosa, a proteção transforma-se em limitação.
Também no plano da identidade se observam discrepâncias. Existem profissionais que procuram conhecer preferências, adaptar refeições, respeitar gostos pessoais, reconhecer que detalhes aparentemente simples, como o vestuário ou os objetos pessoais, funcionam como um verdadeiro “estojo identitário” [1], isto é, como o conjunto de elementos materiais que sustenta a continuidade do eu. Este tipo de comportamentos, são relevantes e fundamentais para a promoção de um envelhecimento digno e saudável. Porém, permanecem frequentemente dependentes da sensibilidade individual de quem cuida, e não de uma reorganização estrutural da instituição.
É neste cenário que a Atenção Centrada na Pessoa (ACP) tem surgido no plano europeu como uma alternativa mais humana na arte do cuidar. Poucos cuidadores discordam do princípio de adaptar o cuidado ao ritmo e às preferências da pessoa idosa. O problema é que, sem condições organizacionais adequadas, o modelo Atenção Centrada na Pessoa continuará a ser difícil de implementar.
Desta forma, a questão central não é se as ERPI devem promover autonomia. A questão é se estão organizadas para o fazer. Quando a lógica dominante privilegia eficiência, gestão do risco e controlo do tempo, a autonomia tende a ser tolerada apenas dentro de margens previamente definidas. Incentiva-se à participação, mas esta raramente influencia a organização das rotinas. Envelhecer numa instituição não pode implicar perder a possibilidade de decidir sobre aspetos fundamentais da vida quotidiana. A dependência funcional não apaga o direito à autodeterminação. Se aceitarmos essa lógica, estaremos a admitir que mais idade justifica menos liberdade.
Importa destacar que não se trata de um ataque às instituições nem aos profissionais. Trata-se apenas de um convite para deslocar o debate. Enquanto discutirmos apenas dedicação, vocação ou boa vontade, ignoraremos o essencial: os modelos organizacionais produzem efeitos concretos na forma como a autonomia é vivida.
Se queremos que o modelo ACP seja efetivamente aplicado na ERPI, é necessário repensar rotinas, flexibilizar horários e conhecer potenciais riscos. A segurança não pode transformar-se num argumento absoluto que substitui a decisão da pessoa idosa. Criar margens reais de escolha implica aceitar que viver envolve sempre alguma exposição ao risco e que proteger não é o mesmo que controlar.
Se queremos que a Atenção Centrada na Pessoa seja mais do que um modelo ideal, é necessário investir em recursos humanos, flexibilizar rotinas e reconhecer que gerir risco não pode significar eliminar escolha pessoal. A perguntar que deve orientar o debate é simples: estamos a organizar as instituições para proteger pessoas ou para tornar as pessoas mais fáceis de gerir?
A resposta a esta pergunta determinará se o envelhecimento institucionalizado será um espaço de cuidado com dignidade ou um espaço de controlo.
Notas
[1] Goffman, E. (1974). Manicômios, prisões e conventos. Editora Perspectiva. (Obra original publicada em 1961).
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