Dimensão analítica: Cultura, Artes e Públicos
Título do artigo: As mulheres na história: o lado oculto do poder
Autora: Maria Antonieta Costa
Filiação institucional: Professora do Ensino Secundário (aposentada)
E-mail: mantonieta@netcabo.pt
Palavras-chave: Poder informal, Historiografia de género, Invisibilidade feminina.

Ao longo da História tradicional, os grandes protagonistas sempre foram os reis, generais e líderes masculinos que dominaram os livros e as narrativas oficiais. No entanto, por trás desses homens, atuaram mulheres cuja influência foi determinante para o destino de reinos e impérios. Elas foram estrategas invisíveis, cujos nomes raramente aparecem nos relatos, mas cujas ações moldaram a política, a guerra e a sociedade de maneira decisiva.
Rainhas, concubinas, espiãs, curandeiras e conselheiras sempre desempenharam papéis fundamentais na política, mas, devido à estrutura patriarcal das sociedades passadas, a sua importância foi frequentemente silenciada ou minimizada. Enquanto os homens governavam ostensivamente, muitas vezes eram as mulheres que articulavam alianças, aconselhavam decisões militares e diplomáticas e, em alguns casos, conspiravam para a ascensão e queda de monarcas. A História oficial pode ter ignorado essas figuras, mas os corredores dos castelos e os mosteiros guardam segredos sobre as que decidiram batalhas sem nunca empunhar uma espada.
Algumas rainhas foram muito mais do que esposas decorativas. Urraca I de Leão governou como rainha soberana no século XII e lutou contra o próprio marido para manter o poder, mostrando que as mulheres podiam ser tão implacáveis quanto qualquer rei. Já Isabel de Aragão, conhecida como “a Rainha Santa Isabel”, foi uma peça-chave na mediação de conflitos entre o marido (Dom Dinis) e o sucessor (Afonso IV), assegurando a estabilidade política.
A Península Ibérica foi palco de algumas das mais notáveis demonstrações do poder feminino na história medieval. Beatriz de Portugal, por exemplo, foi uma peça-chave na crise de sucessão portuguesa do século XIV. O seu casamento com o rei de Castela quase uniu Portugal e Castela sob um único trono, e apenas uma revolta nacional impediu a fusão dos dois reinos.
Outro exemplo marcante foi Leonor de Guzmán, amante do rei Alfonso XI de Castela e mãe de Henrique II. Apesar de nunca ter sido rainha oficial, acumulou um poder imenso, governando territórios e sendo a verdadeira força por trás do trono até cair em desgraça. O filho, ao tornar-se rei, iniciou a dinastia dos Trastâmara, mudando para sempre o destino da Espanha.
E muitas outras tiveram papel de relevo: Hatchepsut e Cleópatra VII (Egito), Elizabeth I de Inglaterra (1533–1603), Catarina II da Rússia (1729–1796), Maria Teresa da Áustria (1717–1780) e, mais próximo de nós, Vitória (1819–1901) e Isabel II (1926–2022), ambas do Reino Unido.
Além das rainhas, as concubinas também exerceram forte influência na política. Na corte muçulmana da Península Ibérica, as esposas e concubinas dos califas omíadas tinham um poder que ultrapassava os muros dos haréns. Muitas delas, altamente educadas, aconselhavam os governantes, escolhiam sucessores e até participavam de conspirações palacianas.
As curandeiras, por sua vez, possuíam um tipo diferente de poder. Conhecedoras de ervas medicinais e tratamentos secretos, eram frequentemente chamadas para tratar nobres e até mesmo reis. Assim garantiam acesso à elite e, em alguns casos, influência suficiente para moldar decisões políticas. Muitas dessas mulheres foram perseguidas como bruxas, pois a sua sabedoria desafiava a autoridade dos homens.
A guerra e a diplomacia não foram exclusividade dos homens. Ao logo da História, muitas mulheres foram espias, recolhendo informações valiosas e facilitando intrigas políticas. Algumas utilizaram disfarces para se infiltrarem no lado inimigo, enquanto outras eram agentes duplas que trabalhavam simultaneamente para uns e outros.
Inúmeras mulheres demonstraram coragem, inteligência e determinação ao desafiar normas sociais e lutar pela justiça, liberdade e igualdade. Desde Joana d’Arc, que liderou exércitos franceses contra a dominação inglesa, até Boudica, que enfrentou o Império Romano, essas heroínas marcaram épocas com sua bravura. Líderes como Nzinga de Ndongo resistiram à colonização europeia, enquanto figuras como Harriet Tubman ajudaram centenas de escravizados a conquistarem a liberdade. No século XX, mulheres como Sophie Scholl enfrentaram regimes opressores e Malala Yousafzai segue inspirando a luta pela educação. As suas vidas provam que o heroísmo não conhece género e que a coragem das mulheres moldou o mundo tanto quanto a dos homens.
O papel das mulheres na história nunca foi passivo. Elas foram estrategas, conselheiras, governantes e conspiradoras, atuando nos bastidores para garantir a ascensão de dinastias ou a estabilidade de reinos e países. Resgatar as suas façanhas não é apenas uma questão de justiça histórica, mas também uma forma de compreender melhor os mecanismos de poder que moldaram o mundo medieval.
À medida que mais estudos emergem sobre a influência feminina na política e na guerra, torna-se evidente que a História precisa de ser reescrita para incluir essas protagonistas invisíveis. Afinal, enquanto reis e políticos lutavam no campo de batalha, muitas vezes eram as mulheres que, nos salões dos castelos, nas sombras dos mosteiros e dos palácios decidiam o verdadeiro destino dos impérios.
.
.





