Idadismo Digital e Envelhecimento: clivagens e desigualdades sociais

Dimensão analítica: Cidadania, Desigualdades e Participação Social

Título do artigo: Idadismo Digital e Envelhecimento: clivagens e desigualdades sociais

Autora: Patrícia Coelho

Filiação institucional: Faculdade de Economia da Universidade do Algarve/Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar (CinTurs)

E-mail: pmcoelho@ualg.pt

Palavras-chave: Idadismo digital, Envelhecimento e Desigualdades.

Portugal destaca-se entre os países da União Europeia (UE27), pelo segundo maior índice de envelhecimento (188,1, em 2024) [1] e pelo risco de pobreza entre a população com 65 ou mais anos (17,8%, em 2024) [2]. Nas últimas décadas, os avanços das tecnologias digitais influenciaram, de forma transversal, as diversas esferas do quotidiano [3], não excluindo os adultos mais velhos [4]. Já a pandemia da COVID-19 acelerou a digitalização dos serviços e das atividades quotidianas, em resposta às exigências do distanciamento social [5].

Entre as principais transformações sociais contemporâneas, encontram-se a digitalização e o envelhecimento demográfico [3]. Embora a digitalização e as novas tecnologias tenham contribuído para uma melhoria generalizada da qualidade de vida, ao aumentarem as oportunidades de envelhecimento ativo [6], tal não se verificou de forma homogénea entre os mais velhos. Nos grupos mais vulneráveis, acentuaram-se os processos de exclusão e dependência, acompanhados de uma maior visibilidade e do agravamento de situações pré-existentes de exclusão digital [7].

Quanto ao idadismo digital, enquanto fenómeno que se manifesta no desenho, na produção, no acesso e uso das tecnologias digitais, gerando formas de discriminação baseadas na idade, este continua a ser pouco problematizado [8], particularmente nas suas interligações com o fosso digital [9]. Se o “primeiro fosso digital” se revelou nas desigualdades no acesso à internet e de uso das tecnologias digitais, já o “segundo fosso digital” refere-se às competências, motivações e objetivos desse uso [10]. Este “segundo fosso digital” tem-se aprofundado, afetando de forma desproporcional os adultos mais velhos [11]. Isto significa que, mesmo quando existe acesso, o uso ocorre com maiores dificuldades e menor autonomia.

Quando analisadas em conjunto, a participação digital e o risco de pobreza tendem a operar de forma cumulativa, na medida em que a exclusão digital é potenciada pela vulnerabilidade socioeconómica, e vice-versa. A participação digital envolve custos, frequentemente desajustados aos rendimentos dos adultos mais velhos. Uma conetividade limitada ao mundo digital compromete a utilização dos serviços e o exercício de direitos mediados por plataformas digitais, legitimando as narrativas estereotipadas que associam os adultos mais velhos ao desinteresse tecnológico. Contudo, tal poderá não traduzir o desinteresse, mas antes a privação de recursos que condiciona a conetividade e a capacitação digital.

As evidências empíricas confirmam esta leitura. Em 2025, 52,5% dos portugueses entre os 65 e os 74 anos detinham competências digitais básicas (média da UE27: 69%), e apenas 14,7% acediam à internet via computador (UE27: 22,7%) [12]. Estes dados, inferiores à média da UE27, colocam Portugal no pelotão traseiro da sociedade digital europeia.

Quanto às políticas públicas, continuam a faltar respostas adequadas, sobretudo ao nível local. A capacitação digital dos munícipes mais velhos deve ser uma prioridade da governação municipal, enquanto instrumento de promoção da coesão social. Esta atuação pode concretizar-se através de programas de mentoria intergeracional, focados na capacitação e no uso dos serviços públicos digitais, desenvolvidos com e para as comunidades e envolvendo ativamente as autarquias. Contudo, estas iniciativas não devem ser isoladas, devendo antes ser articuladas com outros níveis de governação pública. Ao nível nacional, deve apostar-se na negociação de tarifas sociais nas telecomunicações, reduzindo barreiras económicas à inclusão digital.

Num contexto de envelhecimento demográfico e de crescente digitalização, através da Transição Digital do Programa de Recuperação e Resiliência (PRR), o idadismo digital poderá agravar-se, visto que os serviços digitais tendem a ser maioritariamente orientados para públicos mais jovens. Torna-se fundamental que as plataformas digitais adotem um design age-friendly que garanta a sua usabilidade por parte de utilizadores de todas as idades.

Combater o idadismo digital implica reconhecer a inclusão digital como base para uma participação social mais ativa. Deste modo, o idadismo digital tende a apresentar-se como um fenómeno complexo que, para ser combatido de forma robusta, exige uma atuação transversal em vários níveis.

Em síntese, este artigo propõe uma leitura estrutural do idadismo digital, interligando as desigualdades socioeconómicas, o envelhecimento demográfico e as tecnologias digitais, e procurando superar as perspetivas centradas exclusivamente no défice de competências individuais.

 

Notas

[1] Eurostat (2025), Population on 1 January by age and sex https://doi.org/10.2908/DEMO_PJAN

[2] INE (2025), Taxa de risco de pobreza (Após transferências sociais – %) por Sexo e Grupo etário; Anual. https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_ indicadores&indOcorrCod=0004206&contexto=bd&selTab=tab2

[3] Mannheim, I., & Köttl, H. (2024), Ageism and (Successful) Digital Engagement: A Proposed Theoretical Model, The Gerontologist, 64 (9). https://doi.org/10.1093/geront/gnae078

[4] Gallistl, V., Rohner, R., Seifert, A., & Wanka, A. (2020), Configuring the Older Non-User: Between Research, Policy and Practice of Digital Exclusion. Social Inclusion, 8(2), pp. 233–243. https://doi.org/10.17645/si.v8i2.2607

[5] Rosales, A., Svensson, J., & Fernández-Ardèvol, M. (2023), Digital ageism in data societies, In A. Rosales, M. Fernández-Ardèvol, & J. Svensson, Digital Ageism (1.a ed., pp. 1–17), Routledge. https://doi.org/10.4324/9781003323686-1

[6] Czaja, S. & Lee, C. (2007), The impact of aging on access to technology. Universal Access in the Information Society, 5(4), pp. 341–349. https://doi.org/10.1007/s10209-006-0060

[7] Faraj, S., Renno, W., & Bhardwaj, A. (2021), Unto the breach: What the COVID-19 pandemic exposes about digitalization. Information and Organization, 31(1), 100337. https://doi.org/10.1016/j.infoandorg.2021.100337

[8] Chu, C. H., Nyrup, R., Leslie, K., Shi, J., Bianchi, A., Lyn, A., McNicholl, M., Khan, S., Rahimi, S., & Grenier, A. (2022), Digital ageism: Challenges and opportunities in artificial intelligence for older adults. The Gerontologist, 62(7), pp.947–955. https://doi.org/10.1093/geront/gnab167

[9] Choi, E.; Kim, Y.; Chipalo, E. & Lee, H. (2020), Does Perceived Ageism Widen the Digital Divide? And Does It Vary by Gender?, The Gerontologist, Volume 60, Issue 7, Pages 1213–1223. https://doi.org/10.1093/geront/gnaa066

[10] van Dijk, J. (2005), The deepening divide: Inequality in the information society, SAGE Publications.

[11] Brandtzæg, P., Heim, J. & Karahasanovic, A. (2011), Understanding the new digital divide – A typology of Internet users in Europe. International Journal of Human-Computer Studies 69(3): pp.123–138.

[12] Eurostat (2025), Individuals’ level of digital skills (from 2021 onwards). https://doi.org/10.2908/ISOC_SK_DSKL_I21

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