Psicologia Positiva no Tratamento de Consumos de Substâncias Psicoativas e outras Adições

Dimensão analítica: Saúde

Título do artigo: Psicologia Positiva no Tratamento de Consumos de Substâncias Psicoativas e outras Adições

Autora: Sofia Mexia Alves

Filiação institucional: CLEANIC – Programa Portage / Associação Unificar

E-mail: sofia.mexia.alves@gmail.com

Palavras-chave: Substâncias Psicoativas, Adições, Psicologia Positiva.

A psicologia tradicional, nas suas diferentes abordagens, tem-se mostrado essencial para a reformulação comportamental, cognitiva e emocional das pessoas que procuram (ou encontram) tratamento para os problemas de consumos de substâncias e outras adições. Essencial e determinante mas, a meu ver, incompleta.

Ao optar por um tratamento em que a psicologia positiva surge como modelo terapêutico complementar, a pessoa não decide apenas anular, diminuir ou controlar comportamentos/sintomas negativos ou disfuncionais mas, para além disso, propõe-se a desenvolver um estilo de vida saudável, positivo e equilibrado.

A psicologia positiva é definida como a ciência que estuda a experiência subjectiva positiva, as potencialidades e virtudes humanas, e as instituições que promovem a qualidade de vida, contribuindo para a compreensão e desenvolvimento dos factores que permitem a prosperidade dos indivíduos e comunidades (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000, cit in. Batista, 2009). Esta disciplina surgiu – em 1998, proposta por Martin Seligman – para se ocupar de três pilares fundamentais: emoções positivas, traços positivos e virtudes cívicas/instituições/comunidades positivas (Seligman, 2002; cit. in Gonçalves & Leite, 2009). A psicologia positiva enfatiza ainda, para além de muitas outras dimensões, os conceitos de prevenção e resiliência, assumindo que os contextos sociais e culturais são significativos na vida das pessoas, que se constituem organismos integrados nesses ambientes (Paludo & Koller, 2007).

A psicologia positiva pretende gerar emoções positivas nos indivíduos, partindo do pressuposto que, como afirma Seligman (2004), “a emoção positiva é importante, não somente pela sensação agradável que traz em si, mas, também, porque causa um relacionamento muito melhor com o mundo”. Desta forma, as pessoas desenvolvem um estado de espírito positivo e de agregação aos outros, o que, segundo Fredrickson (2001), se consegue pelo fortalecimento dos seus recursos intelectuais, físicos e sociais, podendo este ocorrer a partir do desenvolvimento de emoções positivas. Por outro lado, vários autores defendem que as emoções positivas produzem padrões de pensamento e de acção inusuais, criativos e flexíveis (Kahn&Isen, 1993; cit in. Batista, 2009), desenvolvendo os reportórios de cognição-acção (Fredrickson & Branigan, 200; cit in. Batista, 2009).

Os traços positivos são as “qualidades eminentemente positivas do homem, como o afecto, a auto-estima, a empatia, a assertividade, a criatividade, o bom humor” (Bertran, 2009). Consideram-se também traços positivos a capacidade de amar, de perdoar, a habilidade interpessoal, a estética, a sensibilidade, a perseverança, a espiritualidade, o talento e a sabedoria (Nunes, 2007). Ao nível individual, considera-se que estes traços desempenham um papel preponderante para a visualização positiva das experiências pessoais, sendo que a intervenção junto destas características, nas pessoas alvo de tratamento, poderá permitir a construção de uma nova percepção de história de vida, que não foi apenas negativa. Adicionalmente, a optimização da experiência subjectiva, é um factor, dissipativo do stress, podendo assim possibilitar o bem-estar subjectivo, e reduzir a necessidade de comportamento desviante (Rabinowitz, 2004; cit in. Neto&Marujo, 2007).

As instituições positivas (caracterizadas pela confiança mútua, ética no trabalho, reciprocidade, senso comunitário, valorização social do mérito e do esforço individual, respeito à propriedade, cumprimento fiel de contratos, etc.), são vistas como despertando a autoconfiança dos indivíduos, o seu espírito empreendedor, a convicção da viabilidade do esforço individual e colectivo, levando assim naturalmente ao progresso (Nunes, 2007). No caso de pessoas que integram programas de tratamento em Comunidades Terapêuticas (como é o caso da Cleanic – Programa Portage), é fundamental que estas sejam efetivamente instituições positivas. Espaços em que os sujeitos se sentem respeitados pelo funcionamento do projeto (e.g. regras, rotinas, consequências positivas e negativas), bem como pelas atitudes dos profissionais neles envolvidos, poderão contribuir para uma percepção mais justa da sociedade, e consequentemente para a sua evolução como seres humanos “não desviantes”, adotando comportamentos saudáveis, éticos e positivos.

É ainda importante que o tratamento se foque no fenómeno da resiliência, que é tido como um conjunto de “processos que explicam a superação de crises e adversidades em indivíduos, grupos e organizações” (Yunes&Szymanski, 2001 ; Yunes, 2001; Tavares, 2001; cit in Nunes, 2007). Segundo Zimmerman e Arunkumar (1994), “resiliência refere-se a uma habilidade de superar adversidades, o que não significa que o indivíduo saia da crise ileso” (cit. In Nunes, 2007). Assim se forma então mais uma das oportunidades do tratamento: intervir nas “marcas” (positivas e negativas) que os acontecimentos de vida lhes deixaram, tentando assim maximizar os seus pontos fortes, e minorar as suas percepções negativas, para que novos acontecimentos problemáticos, auto-gerados, sejam evitados.

A psicologia positiva veio abrir novas perspectivas para a investigação e intervenção, apoiando os esforços para “minorar os problemas sociais, tais como a toxicodependência, a doença mental, e a criminalidade” (Nunes, 2007), através da “construção de instrumentos psicológicos e novas metodologias de acesso aos seres humanos” (Snyder&Lopez, 2002; cit in Paludo & Koller, 2007), em que o tratamento psicológico não deve “envolver apenas o reparo de algo que está quebrado, mas o cultivo do que há de melhor em cada indivíduo” (Passareli&Silva, 2007).

As pessoas que acompanhamos neste tipo de tratamento têm frequentemente histórias de vida marcada por obstáculos, acontecimentos difíceis e traumas – serem vítimas e/ou agressores, perdas, más escolhas – e carecem muitas vezes de um novo projecto de vida. Um projecto que as faça explorar o máximo do seu potencial, rentabilizando as suas competências e recursos, abrindo horizontes com optimisto e criatividade, orientando para escolhas conscientes, positivas e integradas. A psicologia positiva abre esta janela de oportunidades.

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